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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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Beatriz

por Vieira do Mar, em 08.06.15

Que relação atribulada, a nossa. Desde o dia em que forçou a saída da minha barriga, com tal determinação que a cabeça parecia um míssil, a moleirinha em bico a provocar o pânico nos homens da família, ai senhor doutor que a miúda veio mal formada!, que eu soube que isto não ia ser fácil. Nada de arco-íris nem de frémitos religiosos, nada de um amor esmagador nos segundos depois de parir, nenhuma força telúrica mística e arrebatadora. Só estupefação, um atordoamento como se atropelada por um comboio e a esmagadora responsabilidade de a ter por minha conta, ai se a deixo cair! (e deixaria de facto, duas vezes, mas tivemos sorte). Cresceu em mim na directa proporção da curva expansiva do seu percentil, mas devagarinho: o amor a começar a percorrer-me as veias como o soro que se injecta aos acamados por um cateter, a pingar devagarinho, a circular, até chegar por fim a todo o lado.

Um feitio tramado desde as fraldas, e eu, que também não sou nenhuma santa: duas fêmeas competitivas num festim umbilical que desbunda em ressacas emocionais demolidoras, feitas de fel e de perdão. Cresceu num mundinho de privilégio que de repente deixou de ter, numa altura em que já tinha idade para saber o que era bom, o que a fez dura e calada e, a mim, ansiosa e culpada, numa relação desigual. Aproveita-se da minha culpa, a raiva sempre em modo de direcção assistida, porque estou mais à mão. E eu, vitimizo-me e arremesso-lhe com os sacrifícios que tenho feito para a criar sozinha e que os rapazes, ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho. Ela olha para o lado e assobia, num desdém de facadas.

Foi sempre assim, mesmo quando era incondicionalmente feliz. Se a vestia de flores, virava gótica; se eu cantava nas festas, guardava para si a voz de anjo com que foi abençoada; e nunca dançava, envergonhada com o meu espalhafato bailarino e desbocado, impróprio de mãe. Escolhe deliberadamente não exibir dons e qualidades que me fariam orgulhar dela. É púdica e conservadora, distribui juízos valor como um velho, e eu com vontade de lhe abrir a cabeça e enfiar lá dentro as coisas que já vi e que me amaciaram as convicções, mas já vai aceitando melhor o mundo, estão em vias de fazer as pazes, o que é bom.

O seu amor pelos fracos e pela bicharada é um misto de abnegação e maluqueira: pede-me chinchilas e esquilos, texugos e martas, obriga-me a assinar todas as petições para salvar as baleias; mas verdade se diga que isso vem um bocadinho de mim. Somos tão iguais que o seu pior argumento quando asneira é, fiz isto, porque sou igual a ti. E, logo a seguir, tão diferentes.

É raro acreditarmos de imediato uma na outra, temos de nos digerir por uns dias até realizarmos qual de nós estava certa. Não o admitimos: mostramo-lo através de pequenas gentilezas que nos fazemos. Às vezes, ficamos fãs incondicionais uma da outra, até àquele ponto que logo chega, de cansaço e dissonância, quando a lua muda ou uma porta bate. Ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho.

A nossa relação é de uma complexidade labiríntica digna do mais delirante dos arquitectos. São salões palacianos de concórdia, minados por túneis onde assobiam, nas paredes húmidas e escuras, mágoas antigas, uterinas, ferradas nas nossas memórias. Somos figadais, e pressentimos à distância os males da outra. Nem sempre nos acudimos de imediato; ela, porque tem mais que fazer do alto dos seus vinte e um anos e há minudências que se sobrepõem aos dramas recorrentes; eu, porque não a quero afastar um milímetro que seja, com o peso das minhas insegurança e fraqueza.

Ninguém se intromete entre nós, não se atrevem. Muito menos os dois mais novos. Deixam-nos à solta nas nossas batalhas e tratados de paz, como se fossem coisas de mulheres, e não de mãe e filha, ou de mãe e irmã. Não nos entendem, não percebem a raiva nem o choro, a baba e o ranho por dá cá aquela palha, os abraços apertados, tudo vai melhorar, querida…, os silêncios e os gritos, ou a alegria mútua com os trapos, o desenho e a filosofia. Quando somos uma, somos insondáveis para eles. Uma estranha unidade que os mantém à distância, cautelosos e desconfiados.

Dava-lhe de bom grado a minha vida, para fazer o que quisesse, como faz com a dela: servir às mesas, estudar literatura, distribuir panfletos, ir para a apanha da fruta, desenhar animais estranhos só com um olho, fechar-se no quarto dias a fio a ver televisão, percorrer a Croácia de mochila às costas, sem um resquício aparente de saudade. Desde pequena que me afronta, como uma pequena guerreira a conquistar território, numa teimosia soberana que só quebrava à palmada, as quais ainda hoje me atira de volta, doendo-me mais a mim, agora, do que a ela, na altura. Resisto estoicamente à vontade de ser a sua maior amiga, de lhe saber os segredos. Já vou muito para lá de mãe. Falamos de homens, mas quase sempre para ela concluir que não prestam, e eu a dizer-lhe que nem todos, que muitos prestam, numa espécie de fé invertida, ou paradoxo: fervilha nela uma inocência descrente.

Eu estou neste mundo para que nada lhe aconteça de mal. Mas já aconteceu, e eu não o pude evitar. Para a próxima não deixo. Ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho.

Beatriz.jpg

 (Maria Capaz)

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