Rita Ferro Rodrigues
Estar de férias e sem (quase) nada que fazer também tem as suas desvantagens, designadamente, apanhar inopinadamente com os programas da manhã na televisão portuguesa. Desta vez, calhou-me o da Rita Ferro Rodrigues. E eu, que até nem tinha má impressão da pessoa, e que achava que todos temos que fazer pela vida, que remédio, fiquei chocada. O tema: a condenação da condutora que matou, por negligência, duas pessoas no terreiro do Paço, a três anos de prisão efectiva. Quem conhece os meandros dos tribunais e das sentenças judiciais sabe que esta condenação, por um clime negligente (ou três, neste caso, em cúmulo), é uma brutalidade. Em termos relativos, claro, não estou a falar da justiça ou não da decisão em termos absolutos e retributivos. Mas RFR insiste em dizer que lhe parece "muito pouco", ideia que repete à exaustão perante o filho de uma das vítimas. De seguida, passa à crucificação pessoal da condenada, atacando-lhe o carácter, confabulando sobre o que lhe terá (ou não) passado pela cabeça e o que terá (ou não) sentido, mostrando um total desconhecimento quanto à diferença que existe entre agir com negligência e agir com dolo. Qualquer pessoa que conduza e que tenha tido acidentes graves sem razão aparente, mesmo que no cumprimento das regras de trânsito e na posse de todas as suas faculdades mentais (como foi o meu caso), sabe que shit happens e tem algum rebuço em julgar alguém numa situação destas de ânimo leve e em chamá-la de "assassina". Pelo menos, tende a deixar a parte jurídica para os tribunais (que, sim senhora, deverão condenar caso se prove o que houver a provar, como parece ter sido o caso), abstendo-se de julgamentos morais em público, mais adequados a conversas de café nas quais se exerce a ligeireza intelectual por mero desporto, em frente a uma imperial. Mas RFR armou-se em carrasca, ainda por cima de alguém que não se estava ali para se defender, o que me pareceu uma baixaria. Porque se a intenção dela foi apelar à vindicta privada e à revolta familiar e popular, pois no que me concerne o tiro saiu-lhe pela culatra: sem querer, dei por mim a criar empatia com a condenada e a sentir exactamente o inverso pela apresentadora.