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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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amo-te

por Vieira do Mar, em 31.08.09

Amo-te, escrevera-lhe ela, sem pensar duas vezes. Amo-te. Depois ficou a olhar a palavra, como se nunca a tivesse visto. Há anos que não dizia aquilo a um homem, nem sequer ao marido (muito menos ao marido). Apetecia-lhe repeti-la à exaustão, escrever-lha em maiúsculas como quem grita, encher-lhe o ecrã com ela, dizer-lha tantas vezes até a palavra perder a importância e a solenidade originais. A transbordar de si, apagou o computador, acendeu um cigarro e foi à janela olhar o céu de Verão e sentir ao de leve uma brisa choca, que não chegava para a arrefecer por dentro. No fundo uma romântica, a palavra despoletara nela um desejo físico inusitado; queria sussurar-lha, enquanto lhe lambesse o ouvido; queria contornar-lhe a nuca com ela, como se cada letra fosse a conta de um fio, a-m-o-t-e-a-m-o-t-e, queria descer por ele abaixo, fazendo caminhos com a língua e tatuando a palavra uma e outra vez a cada cruzamento, a cada entroncamento do corpo dele, soprando-a baixinho. Experimentou dizer alto a palavra, em direcção à noite, Amo-te. Evitou o tom desbragado, feliz  e carinhoso que devotava ao filho, quando dizia que o amava. Tentou dar-lhe uma conotação adulta, definitiva, sem pieguice, mas viu-se ridícula, falha de emoção, de fervor.  O amo-te saiu-lhe como se dissesse está bem, obrigada ou por favor fecha a porta. Percebeu que lhe faltava o objecto daquele amor. Fechou os olhos mas nem mesmo assim o conseguiu imaginar. Não o conhecia, talvez nunca o conhecesse, não sabia o que amava, quem amava. A palavra perdeu-se na noite, sem destinatário fixo.  Ana soltou a beata no ar e viu-a cair no passeio em baixo, ainda acesa. Expeliu o fumo que travara nos pulmões, fechou com força a janela, e enfiou-se na cama a puxar pelo sono, como quem arrasta uma carroça. No sonho, que veio só com a madrugada, ela dizia-lho finalmente na cara (uma cara indefinida, de olhos grandes), com a convicção febril das criaturas apaixonadas, amo-te!; e era, sem dúvida,  um amo-te daqueles das entranhas, uma estrela de muitas pontas que trazia guardada dentro. Mas ele olhara-a, sorrira-lhe um poucochinho e depois virara-lhe as costas.

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