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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

não tenho a menor paciência para o bolaño

por Vieira do Mar, em 10.02.11

       "Entre os muitos milhares de coisas que as mães nunca entendiam - a virilidade implícita nas manchas de relva, a satisfação de um bom arroto ou outra erupção gasosa, a necessidade periódica de soprar pelas palhinhas em vez de chupar - a roupa de Inverno sempre foi talvez a mais tragicamente óbvia. (...)

(...) havia muita roupa interior na América da década de 1950 - para que não fosse possível perecermos  durante os dez minutos diários que passávamos no exterior.

        Aquilo que não tinham em consideração é que ficávamos num estado tão mumificado com o vestuário adicional que não dispúnhamos de qualquer flexibilidade nos membros, e que se caíssemos não seríamos capazes de nos voltar a levantar (...). As várias camadas de roupa interior também faziam das visitas à casa de banho um desafio complicado. É verdade que os fabricantes incluíam uma abertura em ângulo em cada artigo, mas esta quase nunca batia certo. Seja como for, se o nosso pénis tem apenas o tamanho de uma maçaroca acabada de nascer, é pedir muito conseguir fazê-lo passar por sete ou oito camadas de roupa interior e manter um domínio competente. Em todas as idas à casa de banho, ouvíamos pelo menos um grito angustiado de alguém que perdera o contacto a meio do fluxo e procurava freneticamente o apêndice perdido." 

 

        in "A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago", de Bill Bryson, págs. 162 e 163, Quetzal.

o rei elegante nas suas vestes transparentes

por Vieira do Mar, em 10.02.11

Detesto os Deolinda. Não consigo suportá-los, por poucos minutos que seja. E por favor não me mandem ouvir esta ou aquela canção, não me peçam para atentar na letra xis, na espantosa ironia social e política da coisa, no humor fino, na graça das criaturas, no suposto dom da vocalista (que é fraquita naqueles seus arremedos de fadista, apesar de afinadinha). E sim, gostos discutem-se. E eu, entre outras coisas de que não gosto neles, não gosto do facto de não serem carne nem peixe. O que é aquilo? Dissidentes de um grupo circense que querem ser levados a sério? Estão na palhaçada e afinal é para rir? Uma caricatura da música popular portuguesa? Da canção de revista? Transviados do rancho folclórico da Panasqueira? Uma paródia aos Madredeus? É fado-pop? Pop-fado? As hipóteses são imensas, mas esbarro apenas numa certeza: a falta de qualidade das melodias, a parvoeira das rimas e a figura tonta da cantora com aquela vozinha de primeiro prémio karaoke tuga. Não é que para gostarmos ou não das coisas tenhamos que as encaixar numa ou noutra categoria. O primeiro é um processo emotivo; o segundo, racional. Mas há alturas em que falham ambos e esta é uma delas. Se calhar, os Deolinda encaixam pura e simplesmente no conjunto dos maus grupos portugueses (expressão que é quase tautológica para mim, esta de "maus grupos portugueses", mas enfim).

Para mais, irrita-me toda a espécie de sobrevalorização que advém do fenómeno da carneirada, da massa acrítica que vai engrossando fileiras só porque sim, porque os outros também gostam, num crescimento exponencial do mau gosto, ou de gosto nenhum. No caso deste grupelho, então, o fenómeno é facilmente identificável: caiu nos goto das elites intelectuais, pelo que não há blogger wannabe que não poste o seu iutubezinho como que a dizer "Olhem para mim, que eu também faço parte!, Sou como vocês, culto mas eclético, tanto chego a Mozart como ao popularucho-não-pimba". Parecem o burro do Shrek a saltar para ficar na fotografia. Já o fenómeno em si é a história do rei vai nu: os Deolinda preenchem um nicho de mercado que nem eles mesmos sabem exactamente qual é mas que permite aos intelectuais e aos pseudo-intelectuais cá da praça "gostarem" de música popular portuguesa sem que isso lhes provoque comichões porque supostamente esta tem um "conteúdo social", por vezes até "político" - além de que os vídeos são sempre passados em sítios giros de Lisboa, com vielas, quiosques, calçada portuguesa e assim. Ninguém parece reparar no facto de as canções serem más, fraquitas, repetitivas, tolinhas, tontinhas, palhacinhas, resumindo: in-su-por-tá-veis. E poupem-me ao contraditório.

preto & branco

por Vieira do Mar, em 10.02.11

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