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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

#‎linhaValencaPorto

por Vieira do Mar, em 08.02.14

Vinha no Alfa-Pendular de Braga a caminho de Lisboa, com um amigo, após um fim de semana de bacantes por entre as vinhas verdes de Ponte de Lima. Os lugares eram frente a frente, com uma mesa lascada de permeio; sentámo-nos em um dos lados. Entraste mais tarde, no Porto, com uma mala de adulto, demasiado limpa e conservada para a tua idade de miúdo de doze anos e, com um aprumo sério, arrumaste-a com sentido milimétrico. Sentaste-te em frente a nós com um olhar triste de engolir o mundo. Estavas de farda, a do Colégio Militar, e não tiraste sequer o boné. A menos de um metro de nós, sentimos na pele, de imediato condoída, o teu esforço para não rebentares em lágrimas. Tresandavas a nostalgia.

Pegaste no telemóvel e falaste com a tua mãe. Primeiro, tentaste dissuadi-la com argumentos lógicos, depois, em desespero, imploraste. Que não querias voltar para o Colégio, que não gostavas de lá andar. Ouvias mais do que falavas, sim mãe, mas mãe, ouve-me mãe, por favor mãe. Desligaste (ou a tua mãe desligou) e ficaste a olhar pela janela numa impotência muda, sem veres as estações por onde passávamos, as casas escuras de azulejo, os quintais assimétricos, as metalomecânicas, as pilhas de pneus velhos, os eucaliptos que secavam a paisagem, as sombras do que passava tão depressa que não dava para ver o que era. Vias mais além, olhavas para o que te esperaria à saída de Santa Apolónia.

Não aguentei e, a transbordar de dó por todos os meus poros de muito mãe, mãe chata, preocupada, intrometida, meti conversa contigo. Em voz baixa e no tom educado de um homem de setenta anos que já tenha visto tudo, contaste-me que vinhas de um fim de semana no Porto, onde moravam o teu pai e os teus meios irmãos, os quais vias muito poucas vezes. Tinhas-te divertido. Piscina, comer fora, futebol, toda a espécie de brincadeiras, porque a família do pai era muito divertida. Disseste-o exactamente assim: "a família do pai". O que não querias? Voltar para o Colégio Militar, onde a tua mãe, a conselho do avô, te tinha enfiado (termo meu, tu nunca dirias "enfiado"). Foste evasivo quando te perguntei porquê, só que não gostavas, era muito duro e nunca vias a família.

Em Coimbra, entrou um grupo de miúdos um pouco mais velhos que tu, a falar alto, de mochilas às costas, com pacotes de cheetos, batatas fritas e coca-colas, num reboliço sonoro de alegria e inconsequência. Sentaram-se mesmo atras de nós (de ti) e podíamos ouvir-lhes as conversas tolas, as gargalhadas, o engelhar das saquetas vazias atiradas uns aos outros, o calão e as alcunhas pelas quais se tratavam, naquela intimidade desabrida que une os adolescentes. Ficaste ainda mais triste, e nós percebemos que nunca tiveras nada disso. Talvez um relance, como no fim de semana que acabara, e mesmo assim.

Novo telefonema para a tua mãe. Quase meia hora de mais tentativas de dissuasão, contidas pela irredutibilidade do lado de lá do telemóvel. A voz tremia-te. Quando desligaste, resolvi mentir-te. Com jeitinho. Tentei convencer-te das benesses de uma instituição que sempre detestei (pelo facto de a minha rua estar a espaços pejada de olhos tristes de uniforme, morando eu ao lado, e por outras coisas que eu cá sei). Disse-te para veres as coisas de outro modo: que era um privilégio poderes ter uma tão boa educação. Que agora custava, mas que os louros não tardariam a chegar-te, pois, quando homem, serias mais culto, mais resistente às adversidades, mais apto a vencer na vida. Que estares um bocadinho afastado da família era o preço a pagar para seres um ser humano educado, de sucesso e respeitado por todos. Estivemos nisto muito tempo, e tu repetias, eu sei eu sei, mas nada te secava o bolor que se te colara na alma.

O dia, que começara solarengo, ia ficando cada vez mais escuro. O meu amigo, mais expansivo e emocional do que eu, chegados ao destino, agarrou-te nas mãos, inclinou-se e disse-te ao ouvido: "Tu és Grande, João, nunca te esqueças disso, ouviste? Tu és Grande". Acenaste a cabeça sem convicção.

Já na plataforma, uma última tentativa de falares, com a mãe ou o pai, não sei. Ninguém te atendeu. Tinhas a mala impecável na mão firme e eu ofereci-te boleia no meu táxi, afinal, íamos para o mesmo sítio. Declinaste e agradeceste, como foste ensinado a fazer, mas eu insisti. Acedeste, talvez porque te estava a oferecer uns minutos extra distraído do teu inferno pessoal. No entanto, viémos calados durante a viagem, o todo negro a apoderar-se de ti, a cada quilómetro que passava.

Deixei-te à porta do colégio, sorri, relembrei-te aquilo que te tinha dito, as mentiras nas quais não acreditava, apertei-te com um beijo antes que tivesses tido tempo de fugir. Tu agradeceste muito, muito, com o desespero então enfiado no rosto e viraste-me as costas demasiado direitas. Nunca mais te vi, embora durante algum tempo te tenha procurado nos olhos tristes de uniforme que, a dias certos da semana, deambulam na minha rua.

Quando cheguei a casa deixei-me finalmente chorar as entranhas, retorcidas de pena. Chorei o equivalente ao tempo que durou a minha viagem contigo, Porto-Lisboa, no Alfa-Pendular. Não te esqueças, João, tu és Grande. Ouviste?

revolvo ipsum

por Vieira do Mar, em 31.01.14

O caso do Meco é o novo Casa Pia.

portugal é triste

por Vieira do Mar, em 25.01.14

As praxes são uma merda, uma bosta asquerosa. Deviam ser TODAS proibidas; mesmo as praxes "giras", "consentidas" pelos caloiros. Porque a maioria dos caloiros não "consente" nada, nem sabe o que isso seja. Os caloiros são muitas vezes miúdos que vêm da santa terrinha para Lisboa e outras "cidades grandes", sentindo-se de parte nenhuma. O seu maior desejo é arranjar "amigos", enturmar-se com os futuros colegas e fazer parte de qualquer coisa, por forma a sentir-se seguros e, já agora, a arranjar uns testes copiados ou já feitos pelos mais velhos, que os tomam sob a sua "protecção".

Nem todos  os praxados são fracos de espírito ou vêm das berças, e há sempre quem goste de apanhar, mas o seu dito "consenso" acaba por ser um pouco irrelevante: como é irrelevante que um ucraniano de dois metros e cem quilos ou um português enfezado sejam apanhados a conduzir com 1,50 de álcool por litro no sangue e o efeito seja muito mais inabilitante (e portanto, perigoso de facto) no segundo que no primeiro: ambos cometem exactamente o mesmo crime e apanham com a mesma lei na lombeira. 

As praxes deviam ser encaradas pela Lei como aquilo que geralmente são: um negócio de gente burra e estúpida que não acaba o curso nem que  bebesse toda a matéria por uma palinha; gente maldosa, inconsciente ou mesmo psicopata; manipuladora e socialmente inútil,  que faz a terceiros coisas humilhantes, traumatizantes, muitas vezes dolorosas e, por vezes, fatais. Isto tudo em nome de uma "troca" abjecta: a aceitação social pelo grupelho estudantil de quem se encontra numa posição "inferior", fruto da chegada ao desconhecido.

Ah pois e não sei quê, eu quando entrei para o curso de remador em banheiras fui muito bem tratado, a praxe foi gira, levaram-nos a conhecer as instalações e a cidade, fizemos piqueniques nas salas de aula, o meu protector ajudou-me imenso... Isto, meus amigos, não é PRAXE: é a maneira NORMAL como todos os estabelecimentos de ensino superior deveriam receber os seus caloiros e integrá-los nas suas hostes, nada mais. De forma não humilhante, porreira, instrutiva, com uma malandrice inóqua aqui e ali que reforça os laços entre todos. Praxe é o distorcer de um qualquer ritual cujas origens já se perderam, onde é dado de mão beijada a anormais o poder de   chatear, humilhar e magoar terceiros.

Ora, da última vez que eu vi no Código Penal, isto era crime. Mas a questão das praxes é juridicamente lixada, à conta do suposto "consentimento" do praxado, que pode ser expresso ou implícito, livre ou forçado, proveniente de chantagem, coerção, coacção, da pressão social, da falta de auto-estima, da cobardia, da inconsciência, ingenuidade ou mesmo da própria sua própria taradice.

O fenómeno das praxes obriga obviamente  a uma Lei Especial. Como quando foi cá o Europeu e se fez a Lei sobre os comportamentos anti-desportivos, como invasão de estádios, instigação à violência colectiva, etc. Porque são situações muito específicas para as quais o Código Penal, a lei geral, é manifestamente insuficiente.

Aqui passa-se o mesmo. Em primeiro lugar, legislar com muito cuidade sobre o alegado "consentimento" (que, no Código Penal, pode afastar a punição do crime). Particularizar esta cena, já! Individualizar as situações que podem funcionar como forma de "pressão" que insta os caloiros a alinhar e a consentir em práticas que os prejudiquem, sob qualquer forma. Que situações? Fácil: promessas ilegais de sucesso escolar, ameaças de qualquer espécie, chantagem, coacção, coerção, instigação. E quaisquer situações equivalentes, de natureza física ou psicológica, nos quais a vítima veja a sua liberdade de determinação diminuída (conceito já existente e muito aplicável em processo crime).  

Depois, era tudo corrido a eito,  TODOS responsabilizados: duxs, meios duxs, aspirantes a duxs, trolls, ogres e duendes, bem como as faculdades (muito importante) que permitissem este tipo de actividades nas suas instalações ou que delas tivessem conhecimento mesmo que noutros lugares (a participação às autoridades tornar-se-ia obrigatória).

Deixariam de ser permitidas associações, reuniões, manifestações relacionadas com praxes, ilegais como as dos cabrões dos nazis cabeças rapadas (e não me venham com a merda do direito à liberdade de expressão e de associação que espeto-vos já na tromba com seis mortos no meco, ao mesmo tempo que podem enfiar a Constituição pelo dito acima, para uma melhor sensação). Qualquer manifestação pública de humilhação idiota, mesmo que consentida (lá está), como aquelas que vejo durante meses (meses?!) nos jardins do Campo Grande, como prostações, elevações, calhamaços nos braços, orelhas de burro, gritos de guerra et al, punida como crime público, para não obrigar a queixas por parte dos praxados, caso em que estariam obviamente fodidos para a vida, que esta gentalha não brinca em serviço e anda há muitos anos a virar frangos.

Criar uma task force especial, pelo menos nos primeiros tempos, que deverá incluir polícia, MP, psicólogos e o caralhinho mais que for preciso, para garantir o conhecimento da nova lei por parte das bestas e das suas potenciais vítimas, bem como a efectiva entrega à Justiça das primeiras. O objectivo: acagaçar os que têm como modo de vida acagaçar os outros. Porque neste momento, como se vê, é uma palhaçada: ora é amnésia selectiva, ora para a semana vai contar tudo, ora a faculdade não fala, ninguém fala, há pactos de silêncio. Pactos de silêncio?! Mas isto é a Omertá, foda-se?!

Isto leva-me a pensar em escumalha que se sente acima da Lei, e se calhar com razão. Da Lusófona ( e já mais em concreto) não sai nada de bom, sempre na crista dos media pelas piores razões. Não pode ser coincidência. Sei que a promiscuidade de poderes neste caso é eufemismo.  Reitores, ministros, muito dinheiro a passar de mãos, basta olhar para o quadro geral. E estas coisas estão todas ligadas.

Processo administrativo? Tudo começou como um processo administrativo. Seis miúdos estão à noite numa praia e são "levados" por uma onda, como se a culpa fosse da onda. Só mais tarde acordam as consciências para a suspeita de crime. Vários crimes possíveis, aliás, para quem está dentro da matéria, acredito que negligentes. Mas crimes. Tardou a conversão em processo crime, nem que por dois dias, tardou, é uma questão de bom senso. Desde a primeira notícia que se torna óbvio que houve ali, pelo menos, negligência(s) que conduziram a seis mortes.

As mesmas suspeitas que já levaram outras situações de "praxe", algumas com consequências mortais (sim, já morreram mais miúdos por causa desta anormalidade, ao longo dos últimos anos), a outros processos crime, embora que eu saiba sem resultados relevantes. Como disse, o alegado "consentimento" das vítimas é um calhau na engrenagem legal, mete muito de psicológico e de circunstancial, e o nosso cérebro é um labrinto lixado de percorrer.

Embora acredite que, depois desta tragédia aberrante, alguma coisa vai ter de mudar. Na Lei. Porque já se percebeu que, com a que temos agora, e ao contrário do dux sobrevivente, esta questão concreta vai morrer na praia. Cada um dos intervenientes diz, contradiz-se, cala-se e, basicamente, faz o que quer para safar o coiro. E tudo lhes será permitido, é o trauma, é o trauma, e são os direitos civis. Os psicólogos e psiquiatras, com a ajuda dos media, vão ser as estrelas da companhia. A verdade do que aconteceu tornar-se-á secundária. Os pais dos miúdos, quebrados pela dor, vão acabar por ceder,  ou tornar-se numa espécie de "mães do rui pedro", de quem todos têm pena mas cuja fé não partilham.

Este caso, pelo andar da carruagem e com a conivência de todos os que nela circulam, não tem grandes hipóteses.  Há demasiados recursos legais à mão de muito bons advogados, que não vão rejeitar mais umas horas de fama. As responsabilidades diluir-se-ão no barulho das luzes. Era preciso gente com poder e com tomates para agarrar nesta tragédia como exemplo e dar a volta ao prego.  Ok, ok, estamos em Portugal, por momentos, esqueci-me.  Mais vale dar a tragédia como suicídio colectivo e arquivar já os autos. E, com uns recursozitos, fazer-se jurisprudência e ficar-se logo com uma minuta para casos futuros.

Infelizmente, em poucos anos, o mais provável é termos apenas mais uma desgraça remota a acrescentar aos anais da nossa história de porteiras, legisladores, e políticos cobardolas, que convivem alegramente com a sua própria "amnésia selectiva".

Portugal é triste.

 

Adenda: e não, ainda não vi a famosa reportagem que deu na tevê.

o estranho caso das gajas giras & associados

por Vieira do Mar, em 19.12.13

Anda por aí a circular um "anúncio" que se tornou viral, pelas piores razão, relativo à promoção de uma sociedade de advogadas (o link está aqui http://mrmattos.pt/).

Desde sempre que a beleza desacredita a inteligência das pessoas e que, nos dias de hoje,  um discurso aparentemente "ligeiro" e "descontraído" sobre um assunto tão melindroso como a "Justiça", as indigna. A Justiça é um dos carrascos dos portugueses, um cancro, pelo que não pode nem deve ser vendida como um produto ou uma mera prestação de serviços, muito menos se com recurso ao sex appeal, como se fosse um shampô da herbal essences. Pois eu digo que pode, e que acho até saudável, espanejar o bafio misógino e machista que empregna as nossas instituições judiciais.  Porque estamos a falar de advogadas que, enquanto tal, VENDEM os seus serviços de advogadas, e que por isso têm o direito de se poder anunciar como qualquer outra profissão privada, baseada na oferta e na procura. Para as mentes portuguesas isto foi muito confuso: algumas chegaram a afirmar "assim se vê como está o Estado na Justiça neste país", como se o cu tivesse a ver com as calças. Não faço a mínima se as senhoras são ou não eficazes na recuperação de créditos. Talvez  devessem ter mostrado o seu dia enfiadas numa toga preta, de óculos de fundo de copo de três, cansadas depois horas entre calhamaços, a entrarem no único carro da empresa onde fazem vaquinha, ou no autocarro. Tudo igualmente encenado, claro, ou não fora este um pequeno filme de promoção das suas competências. Teria sido um teatrinho melhor, não? A eventual empatia que despertaria no cidadão a imagem desmazelada do trabalho duro, suado e mal pago, já seria menos escandalosa? Ou talvez devessem ter deixado de lado as tecnologias e ter-se posto a entregar cartões de visita da firma pelas ruas aos passantes, como se oferecessem um coma-tudo-o-que puder por sete euros, tipo promoção do indiano da esquina. Também poderíamos sempre voltar à idade da pedra e as senhoras ficarem sentadinhas na caverna à espera que alguém as "recomendasse", epá ouvi dizer estas gajas, apesar de lhes sairem pêlos pelos ouvidos,  são mesmo boas a recuperar crédito da tribo dos neandertais; talvez nós, homo sapiens, devêssemos experimentar a ver se recuperamos aqueles bisontes. Claro que o primeiro cliente, eventualmente satisfeito, seria sempre um acaso. Para cúmulo, a OA, essa instituição maluca e progressiva, sempre  atenta ao air du temps, instaurou-lhes um inquérito (?!).  Eu percebo, a pressão moral e social pesa mais do que uma baleia azul, mas aposto que até lhes deu gosto: olha as flauzinas a denegrir uma profissão tão nobre, íntegra e excelsa, pacta sunt servanda etc. e tal. É que, nos tempos que correm, a uma mulher não convém ter pinta, boas pernas, roupa gira e, audácia!, ter miolos (pelo menos tiraram o curso de Direito, demos-lhes o benefício da dúvida: eu sei, sei, que de nada valem cinco anos de encornanço e workout cerebral, em especial para quem não tem nem um). Aposto que, se fosse um filme sobre advogados, sentados opulentamente nas suas cadeiras anatómicas, a dominar a suas enormes secretárias, as pilocas rosadinhas sufocadas pelos estômagos proeminentes das almoçaradas onde decidem os destinos da nação, enfornados em resmas de papelada baça, disfarçando o leve sotaque provinciano, o brandy velho escondido na biblioteca de pau santo a abarrotar de lombadas douradas, tomos I a XXXVI,  emanando poder por todos os poros (que, diga-se, pode ser um afrodisíaco maior que uma camisola justa), não teria havido sururu. Mas gajas giras e com cenas à mostra, são outros quinhentos. A crise empobrece-nos a carteira e o espírito, que já de si nunca foram muito largos; se calhar  temos o chip da ditadura ainda instalado, pobrezinhos mas honrados e nada de dar nas vistas,  muito menos se se for mulher, as coisas devem ser como sempre foram,  seguir em frente dá medo. E, para mais, somos um país de gente feiota que se arranja mal, invejosa e um bocadinho mesquinha. Desde a Elvira, a  funcionária judicial que se confunde com a secretária de fórmica onde dormita e que esquece os dramas do Citius (googlem) no Facebook, até à nossa primeira dama, que bem poderia ser a Elvira. Que É a Elvira. Olhem, eu, pelo que vi, até era capaz de as contratar, se precisasse de recuperar os meus créditos (que não tenho, só débitos). Confio à partida numa mulher que sabe escolher um bom cabeleireiro e que se equilibra  decentemente de saltos altos numa calçada, enquanto apregoa as suas qualidades profissionais em dirty talk mode. Ser sexy atrai, por vezes vende, pode ser eficaz e não mata - juro, não mata! - neurónios. Garanto-vos eu, que sempre fui esperta.

metabolically challenged

por Vieira do Mar, em 24.11.13

 O meu cão não é gordo, é metabolically challenged (googlei, juro). Além de que já perdeu peso, à conta de uma puta de uma ração de dieta que me custa os olhos da cara. Pois o que mais me irrita é estar a passeá-lo, leve solto e ágil, ele meter-se com as pessoas (o meu cão adora humanos e acha que todos o adoram de volta), e as mesmas, invariavelmente, Ai! está tãaaao gordo!, em vez de É mesmo giro! (porque é) ou É tão querido! (porque é ainda mais). Inda agora, uma parvalhona pessoa humana com um cromossoma a menos passou por nós, descansadinhos que estávamos a beber um café, olhou para ele, continuou a andar a olhar para trás e lá veio o "Eishhh, tá tão gordo!". Fascinado, em negação com o seu próprio ventre bojudo,  não deixou de andar e olhar, de pescoço torcido, estatelando-se numa cadeira da esplanada que estava milagrosamente no caminho, após o que rebolou pelo chão gelado agarrado ao joelho. Karma´s a bitch.


...e as crianças, Senhor?

por Vieira do Mar, em 28.10.13

Denunciar a violência doméstica em Portugal é fundamental. Expô-la, trazê-la à luz do dia, para que todos saibam que cerca de quarenta mulheres são mortas todos os anos pelos maridos, namorados, ou o que quer que sejam esses cabrões. E não me venham com "eles também apanham", que isso será residual e não me interessa, como todas as coisas  que não provam nada. Também há quem sodomize ovelhas. No caso Bárbara/Carrilho, é preciso separar as águas. Por um lado,  a natureza grave das alegações por parte dela, e a natureza menos grave daquilo de que ele se queixa (até agora).

Uma coisa é denunciar este gravíssimo problema social, transversal a todas as classes; outra, permitir o espectáculo público dos nossos dramas e misérias de vida. Ela, mais calada,  escolheu fazer conhecer os podres por interpostas pessoas - os "amigos", os que já o "conheciam", os solidários -  e assim tentar capitalizar a simpatia do seu público. Já ele, em especial, está a seguir um caminho asqueroso: é mais ponderado e poderoso, comporta-se como uma peixeira misógina e tentará mover todas as suas influências para a desacreditar e destruir. Ela, faz por parecer a coitadinha; ele, chama-a de bêbeda e louca. Em toda esta voragem mediática, o verdadeiro cerne que é a violência doméstica perde-se nas parangonas sensacionalistas: é uma tortura entre quatro paredes (mesmo que imaginárias), física e psicológica, é uma mulher atrapada pelo medo e, muitas vezes,  pela impossibilidade económica de um futuro fora daquelas mesmas paredes, temente pelos filhos;  é um homem erradicamente violento, colérico, imprevisível e manipulador, que tomou o gosto ao sangue. É o silêncio, a chantagem e o terror.

Nada tenho contra quem usa de todas as armas numa guerra destas, de proporções nucleares, tais os estragos irremediáveis que provoca nas vítimas. Defendam-se como puderem, sempre que o medo vos der folga, ou vos largue de vez. Mas ambos soltaram as feras e contam com o voyeurismo saloio do povo (que somos todos) para atacar. Dá entrevistas (pagas?), faz capas de revistas,  vai deixando pingar, um a um, pormenores escabrosos da relação para que não percamos o apetite. Não tem direito nenhum a pedir "privacidade", muito menos em nome dos filhos. Queria privacidade? Fazia a queixa, punha-a e segredo de justiça e calava-se. É uma desmiolada,  uma calculista, ou ambas, que com toda a exposição pública, maltrata - sim, maltrata! - os ditos filhos. Ele também, e ainda mais. Das supostas acusações que ambos se fazem, nada sei, são alegações, ainda não provadas. Mas do mal que Bárbara e Carrilho estão a fazer aos próprios filhos, desse, falo: é actual, visível, inevitável. Quem os defende do horror que é ouvirem na escola que o pai bate na mãe e nos amigos da mãe, que  esta  é bêbeda e maluca, e por aí fora? E os putos são responsabilidade de todos nós, que os devemos defender contra pais insensíveis e centrados nos seus umbigos de estrelas. Para mim, era certinho: punha-se já em campo uma qualquer comissão de protecção para avaliar os "estragos" que isto deve estar a fazer à cabeça dos miúdos e, via tribunal, proibir imediatamente esta gentalha de espalhar mais um pormenor grotesco que fosse da sua vida conjugal nos media, sob pena de multa ou de prisão. Por si mesmos ou através de outros. Este caso não serve para "alertar" ninguém para a violência doméstica, não me lixem. Muitas de nós, de uma forma ou de outra, já a sentimos na pele (embora nem o confessemos para nós próprias) e basta ler os mesmos media para TODOS os dias sabermos de mais uma vítima e de mais um carcereiro. Este caso deveria servir, sim, para alertar da necessidade de proteger os miúdos, filhos  de um casal em ódio cego, egoísta, egocêntrico, e aparentemente disposto a tudo. Os dois para o caralhinho, mas é, que não me merecem qualquer simpatia.

 

P.S. Até ao momento, Carrilho tem sido o traste de serviço. Mas não esquecer que toda a contra informação que surgir entretanto a defender Bárbara, vem de amigos e será sancionada por ela. É assim que funciona.

 

(editado)

o copo de vinho

por Vieira do Mar, em 17.10.13

As estórias começam sempre assim, com pequenos nadas insuspeitos. Um copo de tinto meio vazio, comprado ao regateio às duas da manhã no restaurante da esquina, um sorriso de fêmea atirado ao ucraniano ensonado de guarda à cozinha, é para uma festa de amigos, acabaram-se-me as garrafas, será que pode safar a coisa?... Um sim quase servil, rendido ao atrevimento, um preço camarada.
Mas, portanto, o copo de vinho. Equilibrado no parapeito rachado da janela velha de um primeiro andar, junto a um cinzeiro barato forrado a  beatas defuntas, assiste desatento ao que se passa no interior da casa, uma discussão entre uma mulher e um homem. Na rua, estreita e sinuosa,  o camião do lixo passa incessantemente de cá para lá e de lá para cá, recolhendo aquele lixo de que as pessoas se podem livrar, porque algum fica sempre com elas, dentro delas.
Falam alto, atirando com as palavras ao tímpano do outro,  como se isso facilitasse a mútua compreensão de quem fala línguas diferentes. Dizem exactamente o mesmo, mas não o sabem, querem ambos salvar o Amor. Não te entendo, não entendo o que queres, não percebo de que me acusas. Fazem silêncio quando o camião passa, num ronco pesado que enche os prédios e acorda crianças e velhos com asma, de sono leve como passarinhos. Calam-se olhando para o chão, enquanto os homens da noite gritam obscenidades uns para os outros, se não dormimos, vocês também não, arrastam baldes e puxam manivelas, para avançarem lentamente cinco metros até à porta seguinte,  deixando um rasto de vingança e de mau cheiro. Afastam-se progressivamente, e as duas pessoas naquela casa, momentaneamente aliviadas no seu próprio silêncio, sabem que é  altura de retomar a refrega. Já nem se lembram bem porque discutiam, mas sabem que era muito importante, decisivo para o futuro de ambos, e que por isso não o podem deixar a meio. É fácil o recomeço, têm ambos ressaibos armazenados de sobra, é só meter a mão no saco e tirar, como aquelas as rifas em que sai sempre prémio.
Ela, recém mudada para o novo cubículo. A divisão onde se encontram é um amontoado de sacos abertos, roupa pelo chão, cama desdobrável, um edredão enrodilhado, cigarros espalhados, copos vazios, velas acesas no soalho seco, pó e muita escuridão, que nem lâmpadas comprou. Na cozinha, uma máquina de café, o único electrodoméstico, para o retemperanço das noites mal dormidas e mal fodidas. Só o café lhe permite a intrusão do dia, que recebe sempre a contragosto, faça favor de entrar. Na banheira sem cortinas, senta-se para tomar banho e não molhar o chão, e ali fica, perdida, com o chuveiro a arrefecer-lhe lentamente a pele inerte, que o esquentador é velho e mal funciona, os olhos parados nos azulejos de refugo que reflectem o nada que lhe desfaz as entranhas.
Ele tem muito por onde pegar, e sabe-o. Compara-lhe o desarrumo exterior com o seu íntimo, iguais, os dois: sem propósito, sem eira nem beira, ela indiferente ao que é, despenteada por fora, amarrotada por dentro, desbaratada, suja, destrutiva. Nem toda a inteligência do mundo a pode salvar do amontoado de lixo em que se enterrou. Rebola-se nele, compraz-se, afasta-se cada vez mais da beleza, do amor que devia ter por si mesma e pelo que tem de seu, destrói-se. Porquê?! Se o Amor que ele tem por ela é tão puro e luminoso que deveria ter o poder de a arrancar dos mortos? Quero ajudar-te, diz-lhe com singeleza e compaixão.
Complexo de enfermeira, pensa ela. Outro que me quer salvar, que pensa que o Amor é maquinaria pesada, uma empilhadora para me elevar do chão, ele na cabina a cerrar manípulos, para a esquerda, direita, abaixo, acima, a levar-me onde quer. Amor, deixa tudo comigo que te levo aos céus, eu trato de ti, fecha os olhos e descansa, estás descompensada. Olha-o com o desdém que se reserva aos ignorantes. O inferno são os outros, Sartre, meu amigo, mas tu e a Beauvoir é que sabiam: um cá, outro lá. Mas ele nunca leu nada de Satrte. Aliás, não leu nada de nada. Seria fácil picar por aqui. E daí, talvez não: se não se sente falta do que nunca se teve, como criar nele uma precisão dolorosa, uma sensação de incompletude? Outro caminho, outro caminho.
Pelo rebordo frio da janela aberta atira a beata para o outro lado da rua, esbaforando para o interior do quarto, apenas para o irritar. A lua cheia rompe o encarnado vítreo do copo barato em equilíbrio, iluminando-o poucochinho,  como uma vela de chá. Lentamente, pega na garrafa e enche-o com precisão científica. Pousa a garrafa no chão, não tem mesa. Depois, com um piparote certeiro, o copo cai para o passeio, estatelando-se num tilintar de horas mortas e almas fragmentadas.
Voltemos atrás, em câmara lenta. Ela encolhe o polegar e prende nele o dedo do meio, que dispara como uma mola; a unha vermelha, destratada e lascada na ponta, acerta no vidro com um som seco; o copo cai, derramando o líquido e depois rebola, rebola pelo parapeito até se sumir no vazio. Façamos de conta que demora uma eternidade a cair, a cair, a cair.
Ela sorri azeda, quando o vê a correr e a olhar para baixo, esgazeado. Algumas janelas dos prédios em frente abrem-se, entre o alarme e a curiosidade. Poisam neles olhos censores; algures no prédio, um bebé acorda e chora. O caniche do vizinho de baixo, um rapaz de borbulhas que ouve electrónica e que  lhes bate com a vassoura no tecto quando ela se vem, desata a ladrar.
Foi mais que suficiente. Ele, mente analítica, ponderosa, racional; habituado a desbastar os sentimentos como se meadas de lã; a classificar, armazenar, catalogar.  A ter tudo no lugar próprio, até as suas maiores dores, arrumadas num canto seguro, que tira uma a uma só quando a ocasião o exige, desdobrando-a e exibindo-a para logo a guardar outra vez, canto com canto, como naperões de enxoval.  Ele, convicto de que tudo sabe e prevê, que ela para si não tem mistérios, está apenas descompensada, é isso!, e ele vai tratá-la, fix you.
Ele, que tudo isso, não aguenta. Não aguenta o elemento desruptor, imprevisível, estapafúrdio, sem qualquer sentido, que acaba de presenciar. Que lhe gritasse, chamasse nomes; que chorasse, amuasse, lhe batesse; que se calasse, de olhos vazios como na banheira sem cortinas, a fitar o soalho  carcomido pelo bicho.
Mas a sua cabeça, formatada apenas para as hipóteses possíveis, não fora capaz de antever o pequeno gesto dela, não anunciado, incabível no catálogo das suas loucuras, para ele tão certas como os fiscais da emel a rondarem-lhe diariamente o carro pelas nove da manhã.
Va a correr à cozinha, pega na vassoura e na pá, atira-se ao rés do chão empurrando-a para o lado e põe-se diligente a apanhar os cacos, sabendo que, tal como eles os dois, não se voltarão a colar. E, por entre vizinhos  de pantufas, queixosos de tanto fornicanço e gritaria, gargalhadas e desespero, bater de portas, beatas que voam, danças de madrugada com grunge a sair de uma harman que estremece paredes, extra woofer, tum tum tum, vai-te foder, fode-me já, hahaha!, pede desculpa: desculpe, não volta a acontecer, foi um acidente...
Sobe por fim a escada estreita e torta, equilibrando os vidros na pá, e entra-lhe em casa devagar, corroído e calado, partindo o cabo da vassoura contra o fogão, num golpe seco e único. Olha para trás e, pela porta aberta, vê-lhe a nuca em arco, abandonada aos seus dedos que tremem. Bebe de um trago o resto do vinho na garrafa e fuma um cigarro pela primeira vez em muitos anos;  as portas vão-se fechando, o bebé geme baixinho e o caniche nervoso enrosca-se nas pernas imberbes do dono. Os chinelos são dispostos ao pé das camas, milimétricos, e  a ordem comunitária é temporariamente reposta.
Mas, no 1º B daquele bairro de Lisboa, onde se instalou a premissa da loucura, uma mulher toma um duche frio agachada sobre si mesma, numa banheira de esmalte amarelecido pelo tempo, enquanto o sol da manhã espreita pela pequena saída de ar sobre a sua cabeça; e um homem põe duas camisas e uma escova de dentes dentro de um saco, atabalhoando-se porta fora, evitando pisar a mancha de tinto seco na calçada, sabendo agora que as gavetas onde guardamos os demónios se abrem sempre por dentro.
 

o Passeai, Flores!, voltou a bombar. Haja adolescentes!

por Vieira do Mar, em 15.09.13

www.passeaiflores.blogs.sapo.pt

...

por Vieira do Mar, em 02.09.13
Para os poucos que ainda aqui passam, laiquem e partilhem. Prometo voltar às lides very soon. :)
 
 
https://www.facebook.com/sofiavieiraworkinprogress?ref=hl

um segredo bem guardado. brutal.

por Vieira do Mar, em 08.06.13

 

http://www.imdb.com/title/tt1305806/

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