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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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estou chocada

por Vieira do Mar, em 13.02.08
 com o facto de Pacheco Pereira (PP) e  Eduardo Pitta  terem ficado chocados com a suposta ignorância literária da nossa “mais alta elite jurídica” quanto à identidade do autor de Os Budenbrooks, manifestada através do silêncio num programa de televisão, em directo. E, embora me tenha acontecido o mesmo que ao leitor de PP cuja opinião  certeira este tão generosamente transcreve no blogue (pois também nenhum daqueles se dignou responder a um mail que, em circunstâncias diferentes, lhes enviei - o que por acaso até me ofendeu), não é essa a razão pela qual me sinto chocada. Vamos lá a ver. O que ambos na verdade querem dizer é que aquilo, os magistrados e os advogados, são uma cambada de grunhos. De forma elegante e rebuscada, através de linque para aqui e de linque para acolá, mas no fundo é isso. Como é que é possível que a nossa "mais alta elite jurídica” não conheça/não recorde (riscar o que não interessa) o autor de uma das grandes obras da  literatura do séc. XX ? Portanto, e a contrario, associar de imediato e naquele contexto Thomas Mann à obra em questão, manifesta uma, digamos, elevação cultural . Só que, primeiro,  essa associação até eu faço (em especial se em casa e sentada no sofá) e aposto que, de acordo com os padrões dos visados, seria uma básica (por exemplo, nunca li Proust como dever ser). Depois, porque tenho do conceito de grunho  (esse antónimo pouco chique de culto) uma visão simultaneamente mais restrita (não será pela não associação referida que o gato irá às filhozes) e mais ampla. Para mim, grunhice (no tal sentido de  falta de elevação cultural) é por exemplo, um juiz julgar a condução perigosa num acidente de viação e não saber o que é um GPS ou não ter de todo carta; é não falar inglês e vir para os jornais fazer conversa de café sem se importar com quem arrasta consigo; é marcar quinze julgamentos para a mesma manhã, não receber os advogados no gabinete, pagar a seis euros a oficiosa; é não ler jornais diários, não saber estrelar um ovo e ter orgulho nisso; é ser tão paternalista que cai na discriminação por outra via, é fazer piadas sexistas, dar penas suspensas a agressores domésticos e considerar que um pontapé que mata um cão que tem dono é, quanto muito, um crime de dano simples, porque se trata apenas  de propriedade destruída; é achar que uma mulher provocou a violação porque usava mini-saia e não perceber que uma criança não pode passar anos entregue ao Estado nem ser arrancada à família a quem o mesmo Estado a deu a criar. Grunhice, é as “mais altas elites jurídicas” quererem deixar a todo o custo a sua pequena marca na história quando se apanham no poder, esquecendo os anos em que andaram aos papéis pelas comarcas; e é não ter a Fox em casa, não gostar de música, não saber usar um email e não saber quem é a Beyoncé. Toda esta santa ignorância, escolhida completamente ao acaso, de quem parou no tempo e  nunca se libertou dos rebanhos de cabras que pastam na sua cabeça, isso sim, é que me choca no meio jurídico. Porque é esta ignorância que nos afasta da Justiça, da equidade, da tolerância e da compreensão que devemos ter dos outros e do mundo que nos rodeia - coisas fundamentais quando queremos acusar, defender ou julgar. É evidente que a literatura também é muito importante para  a tolerância  e a compreensão: muito importante, mesmo. É uma forma de aprender e de apreender beleza, sentimento, saber. Agora, por ninguém avançar em directo com o nome de um escritor alemão, mesmo que um nobel?! Este é o pasmo de pessoas obviamente muito licenciadas (cujos curricula desconheço, que se note), rodeadas de milhares de livros, que falam e escrevem para uma plateia de poucas dúzias de outros bloggers igualmente literatos (e se calhar igualmente chocados): uns, porque cursaram nas faculdades de letras, outros, mergulhados nas letras por gosto. Mas, e eles?, o que leram de Kelsen, Zaccaria, Roxin? E do que leram, do que é que ainda se lembram, têem-nos na ponta da língua? O que ambos diriam se, num debate sobre literatura, sei lá, na casa Fernando Pessoa, nenhum dos presentes soubesse que o primeiro nome de Jescheck é Hans-Heinrich? Abandonavam a sala, chocados com a falta de cultura jurídica da "mais alta elite literária" a que sem dúvida pertencem?  

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