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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 19.04.07

Encarpa-se, ela, num mergulho cornucópia,
sustém o ar e enche a boca como uma criança com birra ou um peixe balão e nada para longe, para muito longe. Foge dele, sentado que está na orla da praia, que até parece um senhor, todo vestido, todo de branco, os pés descalços, impante de correcção e fineza. De calças e alma vincadas, as notícias do dia, secção de economia, a política nacional, as palavras cruzadas. Ela inspira e cospe, aflita de amor, ai que o quer tanto, precisa-se mar dentro, ele que nem sonhe. Cavalga as ondas como lembranças e ele, impassível, imaculado, sem lhe reconhecer o arrebato, o instinto de fuga, o amor profano. O horizonte a afastar-se da praia, que é agora um fiozinho castanho, clarinho e minúsculo, com ele no meio, como um anacronismo ventoso de vagos contornos, um buraquinho de traça no meio de um lençol. Branco. Ele, um buraco a ser remendado, passajado, cada vez mais ao longe, numa quase transparência de cefalópode, distinto. E ela que o ama tanto e que foge, agarrada à perna esquerda que, dormente, quer voltar para terra. Os vestígios monótonos de algodão branco ao fundo, que são a rebentação, embalam-lhe as braçadas largas, e ela a amá-lo entre braçadas, a engolir golfadas matreiras de água salgada, enquanto o sol, resfolegante nas suas costas nuas, lhe oferece festas macias, às vezes, ponteagudas. Monta-se nas ondas e desvanece, de cansaço, de amor, mas ele nem se importa, sentado na praia que está, a cadeira meio enterrada, o martini beberricado, a toalha que esvoaça sobre a mesa, imaculada como ele, um sonho de macramés e de bilros, enquanto um bando de gaivotas roxas soltam o pio do começo da noite e do regresso a casa. Os aperitivos ratados e a areia fina que lhe acaricia os pés, feita vadia, dissimulada por entre os dedos; o cabelo escuro penteado para trás, um cigarro vagaroso, vaga-lume. Ela nada e ele, bebe. Ela a amá-lo e ele, nada. Ela a amá-lo e ambos no mesmo lugar, ela que afinal não saiu do lugar, marés contrárias e a costa que a puxou para a praia, ela vencida, a rir, a rir. Gaivotas roxas e ele, que nunca soube que ela lhe queria fugir, que antes o mar alto que os olhos dele, revoltos. Ele, de palhinha e fato inglês e ela a amá-lo, colonizada, rendida, a regressar como náufraga, exausta, a deixar-se boiar numa gargalhada solta que acerta direitinha o céu, a morder a areia da praia sob os pés dele, a puxar–lhe a toalha, a entornar-lhe o martini, a roubar-lhe a azeitona. E ele, impassível, quieto como um paravento no estio, com o seu chapéu de palhinha, vaidoso, patético, pequeno, debaixo de um sol de sangue que desmaia rapidamente. Ela a compor-se, a limpar as algas do cabelo, a dobrar e guardar o ar de sereia e a baloiçar-se à sua frente, ao sabor da nortada. Sabe que perde tempo mas, como é só tempo que perde, dança como se quinze anos e inventa que o seduz ao som da música agreste de um baile de aldeia, outra vez a revelar-se-lhe, em absoluto segredo, outra vez rapariga. Entendes, agora, o que te quis dizer, minha amiga?

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