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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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...

por Vieira do Mar, em 14.05.07
o nó


Ele olhava-a como se nunca a tivesse visto antes. E, na verdade, não tinha, não assim, pensou: tão frágil, amorosa, as carícias a quebrarem-se-lhe nas mãos suadas, como vidros finos; os dedos errantes e fugidios, a voz escondida lá no fundo, um nó de marinheiro, daqueles corrediços, sem saída que não a que têm para dentro de si próprios. Ela rondava-lhe o olhar, contornava-o como se uma rotunda, guiava pela cara dele, ora acelerando nas sobrancelhas, ora travando a fundo sobre a cana do nariz, investindo contra o queixo, derrapando boca abaixo. O cabelo dela, de uma estranho louro quase verde, tanto lhe cobria as feições, num pudor compungido, como lhe descobria a expressão, afivelada numa determinação quase mística, à beira do fervor religioso. Então, ficamos assim, por aqui, atreveu-se ele. Pois, parece que sim, respondeu-lhe ela, a voz a soar-lhe de outrem, num gorgolejar desconhecido e longínquo, embora irreprimível. E as minhas cois… Podes ir buscá-las quando quiseres: hoje, amanhã, para a semana, interrompeu-o, arrebanhando coragem. Tens a chave, podes entrar à vontade, pelo menos, por enquanto. Ele anuiu com a cabeça, um huhum meio engolido, meio regurgitado, como um comprimido grande que não desce, que se nega ao caminho, nem para cima nem para baixo, nem para dentro nem para fora, come um bocado de pão que isso passa. Bom, então…, repetiu ele, olhando em volta, como se alguém o chamasse, olhando para lá dos carros, dos prédios, das antenas de televisão, num pedido calado de socorro. Ninguém parecia perceber como estava doente, terminalmente doente; ninguém parava para o ajudar, nem chamava a ambulância; bastaria um telefonema, porque ele ali, em coma profundo, paralisado, ferido de morte, quase um último suspiro. O mundo com as cores de sempre, num corropio desacautelado e ele, incontinente, epiléptico, exangue, as tripas de fora, os estertores finais. O cabelo dela voltou a tapar-lhe por momentos as feições, agora esbatidas, quase impressionistas, e, também por momentos, ele voltou à vida, distraído com aquele bailado esverdeado, as mãos num latejo, a formigarem, comichosas, com a imperiosa necessidade de afastar uma madeixa colada ao canto da boca dela, essa boca que encerrava certezas tão absolutas. Aparece quando quiseres, repetiu ela, impessoalmente, dando o mote, o sinal, o pontapé de saída, enquanto esboçava uma festa ao de leve na sua barba mal feita, o alívio estampado no sorriso sincero, como se refém resgatada. Deu-lhe com cuidado as costas, quase com delicadeza, e afastou-se, os saltos a baterem na calçada e ala que se faz tarde, tenho muito que fazer, hoje (e amanhã e depois, e em todos os dias que se lhes seguirão). Ah!..., como tenho coisas para fazer!, pensou. Coisas. Ao fim da rua, já gargalhava, quase corria. E ele, a ficar para trás, a olhá-la como se nunca a tivesse visto antes: frágil, amorosa, as carícias caídas no chão, partidas de vez, sem conserto; as mãos agora secas, os dedos firmes como pinças, a voz resgatada aos fundilhos do passado, o nó desfeito.

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