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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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...

por Vieira do Mar, em 19.04.06
MTV



Atentar na MTV é uma experiência traumatizante. Até agora, tenho-me usado da censura pura e dura para impedir o visionamento caseiro, mas apanho com a dita nos restaurantes, no ginásio e noutros sítios públicos e insuspeitos, não há como lhe escapar. Quando não são pretos de óculos escuros com ar de traficantes de droga, todos de branco e enfeitados a ouro (com especial incidência nos caninos e molares), que fingem que cantam e maltratam brancas e pretas louras com piercings nos arredores das vaginas, cinturas desconjuntadas e rabos gigantescos (que sentam com despudor na lente da câmara de filmar), passam reality shows e concursos. Estas pérolas espelham a vidinha e os anseios da acéfala adolescência dos EUA (não, não é tautologia: a juventude norte-americana parece-me ainda mais acéfala do que as outras juventudes, que já o são um bocadinho pela natureza das coisas). Um dos programas que vi enquanto suava as estopinhas na passadeira, acompanhava os dias que antecediam a festa que assinalaria a entrada de uma insuportável teenager de quinze anos na idade adulta; uma espécie de baile de debutantes, de puesta de largo, um ritual de iniciação de um exibicionismo tão piroso e novo-rico que feriria a sensibilidade do duo Ele & Ela. Foram trinta minutos de Ed TV em que vimos a criatura, com um cérebro mais vazio que a carteira de um idoso português reformado, a foder o juízo à família inteira e aos amigos para que a merda da festa saísse exactamente como queria, o que implicou ter sido ela a escolher o que os outros vestiriam, os penteados, o que dançariam (obrigou-os a todos a aulas de dança) e até o que diriam. Meia horinha bem medida da mais pura chantagem emocional, que culmina por fim na dita festa, em que vemos a cabra a descer umas escadas palacianas num vestido vaporoso que nos remete para a era Dallas, ladeada por repuxos coloridos e ao som de uma marcha triunfal, tipo casamento dela própria com o seu ego. Os amigos e familiares, as cabeças entretanto feitas em água pelos desmandos caprichosos da criatura nos meses que antecederam a coisa, não conseguem disfarçar o alívio e o rancor quando a vêem aparecer no topo das escadas douradas, talvez a desejar que tropece na sandalucha de cetim e parta o pescocinho.

Num outro programa, tipo concurso, um idiota de 18 anos (isto sim, é tautológico) tem de escolher uma de três miúdas de quinze? dezasseis anos?, que estão fechadas numa ramona tipo transporte de presos de alta segurança. Vemos então o rapaz a entrar no quarto de cada uma delas, a revistar-lhes as gavetas e os psichés, a remexer-lhes os souvenirs, os biscuits (as americanas adoram biscuits), a roupa interior (???) - a suja e a lavada! - e a experimentar-lhes o colchão, enquanto vomita uns dichotes que nem chegam a ser ordinários porque ainda não tem idade para saber o que isso é. Entretanto, fechadas na ramona e graças às maravilhas da tecnologia, as miúdas vêem-no e ouvem-no e, por entre gritinhos excitados e esperançosos, aguardam ansiosas a escolha. Para quê, ainda não se percebe bem. Finalmente, depois de muitas bocas foleiras de índole sexual, o criaturo confronta-as cara a cara e opta por uma, cabendo-lhe explicar às excluídas os motivos da não-escolha. Quanto a uma, - pasme-se! -, a razão aventada foi a de que ela guardava debaixo da cama o livro "Sexo para Principantes", o que não lhe pareceu nada bem. É então que percebemos que a felizarda escolhida vai ter a suprema honra de passar uma noite com o rapaz e na última imagem vemo-los na marmelada num jacuzzi (os americanos também adoram jacuzzis). Portanto, não sei se estão a ver: as miúdas são tratadas como meros orifícios a preencher, escolhidos praticamente à sorte por um imberbe acéfalo com as hormonas à solta, sendo que abona nitidamente em desfavor das ditas o facto de lerem livros inócuos que pretendem iniciá-las, de um modo descontraído e adequado à respectiva faixa etária, nos mistérios do sexo.

De facto, uma hora de MTV dá para perceber como é que o país com a indústria porno mais desenvolvida do mundo, cujos lucros equivalem à soma de não sei quantos PIBS de países africanos sub-saharianos, tem estados em que os liceus proíbem nas suas bibliotecas os livros de Mark Twain.

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