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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

o copo de vinho

por Vieira do Mar, em 17.10.13

As estórias começam sempre assim, com pequenos nadas insuspeitos. Um copo de tinto meio vazio, comprado ao regateio às duas da manhã no restaurante da esquina, um sorriso de fêmea atirado ao ucraniano ensonado de guarda à cozinha, é para uma festa de amigos, acabaram-se-me as garrafas, será que pode safar a coisa?... Um sim quase servil, rendido ao atrevimento, um preço camarada.
Mas, portanto, o copo de vinho. Equilibrado no parapeito rachado da janela velha de um primeiro andar, junto a um cinzeiro barato forrado a  beatas defuntas, assiste desatento ao que se passa no interior da casa, uma discussão entre uma mulher e um homem. Na rua, estreita e sinuosa,  o camião do lixo passa incessantemente de cá para lá e de lá para cá, recolhendo aquele lixo de que as pessoas se podem livrar, porque algum fica sempre com elas, dentro delas.
Falam alto, atirando com as palavras ao tímpano do outro,  como se isso facilitasse a mútua compreensão de quem fala línguas diferentes. Dizem exactamente o mesmo, mas não o sabem, querem ambos salvar o Amor. Não te entendo, não entendo o que queres, não percebo de que me acusas. Fazem silêncio quando o camião passa, num ronco pesado que enche os prédios e acorda crianças e velhos com asma, de sono leve como passarinhos. Calam-se olhando para o chão, enquanto os homens da noite gritam obscenidades uns para os outros, se não dormimos, vocês também não, arrastam baldes e puxam manivelas, para avançarem lentamente cinco metros até à porta seguinte,  deixando um rasto de vingança e de mau cheiro. Afastam-se progressivamente, e as duas pessoas naquela casa, momentaneamente aliviadas no seu próprio silêncio, sabem que é  altura de retomar a refrega. Já nem se lembram bem porque discutiam, mas sabem que era muito importante, decisivo para o futuro de ambos, e que por isso não o podem deixar a meio. É fácil o recomeço, têm ambos ressaibos armazenados de sobra, é só meter a mão no saco e tirar, como aquelas as rifas em que sai sempre prémio.
Ela, recém mudada para o novo cubículo. A divisão onde se encontram é um amontoado de sacos abertos, roupa pelo chão, cama desdobrável, um edredão enrodilhado, cigarros espalhados, copos vazios, velas acesas no soalho seco, pó e muita escuridão, que nem lâmpadas comprou. Na cozinha, uma máquina de café, o único electrodoméstico, para o retemperanço das noites mal dormidas e mal fodidas. Só o café lhe permite a intrusão do dia, que recebe sempre a contragosto, faça favor de entrar. Na banheira sem cortinas, senta-se para tomar banho e não molhar o chão, e ali fica, perdida, com o chuveiro a arrefecer-lhe lentamente a pele inerte, que o esquentador é velho e mal funciona, os olhos parados nos azulejos de refugo que reflectem o nada que lhe desfaz as entranhas.
Ele tem muito por onde pegar, e sabe-o. Compara-lhe o desarrumo exterior com o seu íntimo, iguais, os dois: sem propósito, sem eira nem beira, ela indiferente ao que é, despenteada por fora, amarrotada por dentro, desbaratada, suja, destrutiva. Nem toda a inteligência do mundo a pode salvar do amontoado de lixo em que se enterrou. Rebola-se nele, compraz-se, afasta-se cada vez mais da beleza, do amor que devia ter por si mesma e pelo que tem de seu, destrói-se. Porquê?! Se o Amor que ele tem por ela é tão puro e luminoso que deveria ter o poder de a arrancar dos mortos? Quero ajudar-te, diz-lhe com singeleza e compaixão.
Complexo de enfermeira, pensa ela. Outro que me quer salvar, que pensa que o Amor é maquinaria pesada, uma empilhadora para me elevar do chão, ele na cabina a cerrar manípulos, para a esquerda, direita, abaixo, acima, a levar-me onde quer. Amor, deixa tudo comigo que te levo aos céus, eu trato de ti, fecha os olhos e descansa, estás descompensada. Olha-o com o desdém que se reserva aos ignorantes. O inferno são os outros, Sartre, meu amigo, mas tu e a Beauvoir é que sabiam: um cá, outro lá. Mas ele nunca leu nada de Satrte. Aliás, não leu nada de nada. Seria fácil picar por aqui. E daí, talvez não: se não se sente falta do que nunca se teve, como criar nele uma precisão dolorosa, uma sensação de incompletude? Outro caminho, outro caminho.
Pelo rebordo frio da janela aberta atira a beata para o outro lado da rua, esbaforando para o interior do quarto, apenas para o irritar. A lua cheia rompe o encarnado vítreo do copo barato em equilíbrio, iluminando-o poucochinho,  como uma vela de chá. Lentamente, pega na garrafa e enche-o com precisão científica. Pousa a garrafa no chão, não tem mesa. Depois, com um piparote certeiro, o copo cai para o passeio, estatelando-se num tilintar de horas mortas e almas fragmentadas.
Voltemos atrás, em câmara lenta. Ela encolhe o polegar e prende nele o dedo do meio, que dispara como uma mola; a unha vermelha, destratada e lascada na ponta, acerta no vidro com um som seco; o copo cai, derramando o líquido e depois rebola, rebola pelo parapeito até se sumir no vazio. Façamos de conta que demora uma eternidade a cair, a cair, a cair.
Ela sorri azeda, quando o vê a correr e a olhar para baixo, esgazeado. Algumas janelas dos prédios em frente abrem-se, entre o alarme e a curiosidade. Poisam neles olhos censores; algures no prédio, um bebé acorda e chora. O caniche do vizinho de baixo, um rapaz de borbulhas que ouve electrónica e que  lhes bate com a vassoura no tecto quando ela se vem, desata a ladrar.
Foi mais que suficiente. Ele, mente analítica, ponderosa, racional; habituado a desbastar os sentimentos como se meadas de lã; a classificar, armazenar, catalogar.  A ter tudo no lugar próprio, até as suas maiores dores, arrumadas num canto seguro, que tira uma a uma só quando a ocasião o exige, desdobrando-a e exibindo-a para logo a guardar outra vez, canto com canto, como naperões de enxoval.  Ele, convicto de que tudo sabe e prevê, que ela para si não tem mistérios, está apenas descompensada, é isso!, e ele vai tratá-la, fix you.
Ele, que tudo isso, não aguenta. Não aguenta o elemento desruptor, imprevisível, estapafúrdio, sem qualquer sentido, que acaba de presenciar. Que lhe gritasse, chamasse nomes; que chorasse, amuasse, lhe batesse; que se calasse, de olhos vazios como na banheira sem cortinas, a fitar o soalho  carcomido pelo bicho.
Mas a sua cabeça, formatada apenas para as hipóteses possíveis, não fora capaz de antever o pequeno gesto dela, não anunciado, incabível no catálogo das suas loucuras, para ele tão certas como os fiscais da emel a rondarem-lhe diariamente o carro pelas nove da manhã.
Va a correr à cozinha, pega na vassoura e na pá, atira-se ao rés do chão empurrando-a para o lado e põe-se diligente a apanhar os cacos, sabendo que, tal como eles os dois, não se voltarão a colar. E, por entre vizinhos  de pantufas, queixosos de tanto fornicanço e gritaria, gargalhadas e desespero, bater de portas, beatas que voam, danças de madrugada com grunge a sair de uma harman que estremece paredes, extra woofer, tum tum tum, vai-te foder, fode-me já, hahaha!, pede desculpa: desculpe, não volta a acontecer, foi um acidente...
Sobe por fim a escada estreita e torta, equilibrando os vidros na pá, e entra-lhe em casa devagar, corroído e calado, partindo o cabo da vassoura contra o fogão, num golpe seco e único. Olha para trás e, pela porta aberta, vê-lhe a nuca em arco, abandonada aos seus dedos que tremem. Bebe de um trago o resto do vinho na garrafa e fuma um cigarro pela primeira vez em muitos anos;  as portas vão-se fechando, o bebé geme baixinho e o caniche nervoso enrosca-se nas pernas imberbes do dono. Os chinelos são dispostos ao pé das camas, milimétricos, e  a ordem comunitária é temporariamente reposta.
Mas, no 1º B daquele bairro de Lisboa, onde se instalou a premissa da loucura, uma mulher toma um duche frio agachada sobre si mesma, numa banheira de esmalte amarelecido pelo tempo, enquanto o sol da manhã espreita pela pequena saída de ar sobre a sua cabeça; e um homem põe duas camisas e uma escova de dentes dentro de um saco, atabalhoando-se porta fora, evitando pisar a mancha de tinto seco na calçada, sabendo agora que as gavetas onde guardamos os demónios se abrem sempre por dentro.
 

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