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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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por Vieira do Mar, em 12.04.13

Sai de casa dela à pressa; desprendem-se num beijo fugidio, que já lá não está e ainda as bocas juntas. Ele entra no elevador e já é outro. Atira-lhe um aceno rápido e foge com a mão antes que a porta se feche, olhando-se no espelho para se saber apresentável, compondo a alma desalinhada e a gravata torta. Sai para a rua e é já o profissional, o amante obliviente, a pegar pelos cornos a vida que escolheu para si. Deixa-a pela casa a apanhar do chão as réstias de ambos,  insatisfeita e mal amada, embora tenha esboçado um sorriso doce quando ele saiu, como se fosse a mulher a encaminhá-lo para mais um dia de trabalho, até logo querido. Vai à janela fumar um cigarro, o cheiro dele ainda nos dedos que leva aos lábios, confusa com a rapidez a que o mundo, mais uma vez, se moveu sem sair do lugar. É sempre o mesmo. Um café, a conversa de circunstância, dois amigos sem vestígio de qualquer sensualidade latente, nenhuma provocação sexual, nada.  Só quando se aproxima a hora de ele se ir embora é que cedem à urgência e passam de interlocutores civilizados a seres gulosos e primitivos. Sem preparo nem aviso. Só então o tempo lhes urge, selvagens. Ela fuma. Dois minutos e ele já distante, noutro continente. Nunca lhe diz nada, depois, num perverso paradigma emocional. Um dia? Uma semana? Um mês? Vai ser como ela quiser. Ou ele, às vezes. Sente uma inquietação directamente proporcional à violência com que trava e engole o fumo até à beata, que larga quando esta lhe queima os dedos. Revê-o a lavar-se à pressa, a pedir-lhe uma toalha da casa de banho enquanto ela, ainda na cama, ajeita as rendas da combinação e se toca entre as pernas húmidas, sem tesão nem intenção, apenas porque espera. Segue-o enquanto ele se veste, com olheiras de carneiro mal morto, ofuscada pelo sol da manhã que teima em tirá-los do escuro onde deveriam ficar para sempre. Não deviam nada. Cai-lhe uma alça como um bater de pestana, olha para os pés, escolheu o verniz errado, solta-se-lhe um fio de cabelo emaranhado. Pensa no beijo maldoso com que ele lhe entrou em casa, de revés, ao canto da boca: um prelúdio de promessas que não pretendia cumprir. Azar. Sente-se estranhamente fria, nada lhe dói, anestesiada ainda. Acaba de sorver o terceiro cigarro e telefona-me. Tem a voz calma, vagamente jocosa.

- Sofia?, pergunta-me.

- Oi! Estás bem?

- Sim, mas vamos almoçar outro dia.

- Porquê?

- Porque hoje não fiquei triste e vou ficar a pensar no porquê disto o dia todo.

- A pensar nele, queres tu dizer...

- Não, não é isso, desta vez foi diferente.

- …

- Nesse caso, liga-me logo à noite quando te cansares de chorar.

- Ok.

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