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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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o sonho sem trela

por Vieira do Mar, em 27.11.12

Tivera um sonho estranhíssimo. Sonhara que era uma marginal, talvez adolescente, que saía de casa às escondidas com propósitos prevaricadores, embora indefinidos. Lembra-se de um assalto, de fumar charros com a seita num cais à noite, de ouvir o mar a bater contra o molhe velho de cimento e ferro, o tom alaranjado da ferrugem a aparecer, acicatado pela lua cheia, enquanto o resto tudo negro, caras em esboço, risos intermitentes. Lembra-se do sexo com outra mulher dentro de um volkwagen carocha, que por acaso era um das suas melhores amigas da adolescência, não sabe qual. Estava sentada sobre ela no lugar do passageiro, e era uma mulher-homem pois enterrava-se na outra, embora o seu prazer fosse de mulher: uma explosão concêntrica que se esvai, difusa, até ao ponto mais afastado de si, como uma pedra que cai à água formando círculos cada vez mais largos. Isto pensou ela mais tarde,  pois não sabe como se manifesta o prazer no homem, apenas o imagina mais concentrado no membro do que nos recantos menos diagnosticáveis do corpo. Depois, o cenário mudou. Estava na casa dos pais, havia muita gente e ela era responsável por tudo. Por uma estranha razão, daquelas que só existem nos sonhos porque não se sabem, viera muita gente para almoçar, inclusive o seu patrão que, afinal, era amigo do seu pai. Como se a emancipação feminina não existisse, todos clamavam pelo almoço e ela, aflita por cumprir os seus deveres, sai à rua levando o pequeno cão nos braços e, de repente, está numa espécie de charcutaria atulhada de gente, onde todos se empurram para serem atendidos no talho. Na espera, solta o cão e este desaparece. Durante uma eternidade de sonho, segundos na realidade,  procura desesperadamente o bicho debaixo das cadeiras, das mesas, dos armários, gritando o nome dele acima do sururu da multidão. As emoções sucedem-se: a culpa, a aflição, o desespero. Lembra-se de pouco mais, excepto do barulho e da multidão crescentes; da culpa e vergonha de falhar com o almoço e da sensação de o cão lhe ter ido para sempre. Foge-lhe a terra dos sonhos debaixo dos pés e acorda com o coração na boca, de olhos esbugalhados para o outro lado da cama onde o cão dorme, impávido e indiferente ao turbilhão emocional da dona. Ela arrasta-se pelos cobertores até o alcançar e abraça-o, quase esmagando o seu pequeno corpo, arrancando o bicho de um sonho que provavelmente apenas metia campo, margaridas e a perseguição de borboletas. Estrafega-o e ele debate-se, assustado pela urgência furiosa daquela pessoa que habitualmente o protege dos medos. Levanta-se e, sempre de bicho contra si,  vais aos quartos ver se está tudo bem, como uma freira aos dormitórios e constata que os filhos e os amigos dormem pesados, uma multidão de sábado à noite que sempre cracha no chão livre da casa. Psicanaliza-se rapidamente, apaziguada a onírica perda, e percebe o apelo da delinquência tardia e de deixar as responsabilidades para trás: cereais às sete da manhã, picar o ponto às nove, o flirt respeitoso com o colega do lado, a tia dos amigos dos filhos, a cozinheira de caserna, a chófer dos sábados à noite, o tailleur, o avental. Ficara-lhe, no entanto, uma coisa por explicar: ela, um homem de violência penetrante num carocha desconhecido e o prazer de mulher com uma mulher da sua infância, as virilhas ainda molhadas enquanto estrafega o canito. Mas isso ficaria para depois. Agora, era os cereais com leite e passeá-lo à rua. À trela, desta vez.

 

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