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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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make up sex with my blog

por Vieira do Mar, em 05.11.12

 

 

Downton Abbey é a série do momento. Caiu no goto de muitos, em especial dos quarentões saudosistas (como eu) de Bridshead Revisited ou Upstairs, Downstairs, antigas séries de época que, pela sua minuciosa reconstituição, excelentes actores e boas histórias (a primeira, baseada no excelente romance de Evelyn Waugh), foram no seu tempo uma pedrada de bom gosto no charco dos kits, macguivers, e séries de god cops/bad cops que inundavam o ecrã (nada contra, vi-os todos). Uma espécie de livre-passe para a dita intelectualidade portuguesa, que tinha vergonha de admitir que via televisão, esse ópio do povo. Hoje os tempos são outros, há séries americanas excelentes, mas o flair nostálgico que suscita o modo de vida da nobreza inglesa de outrora continua a fascinar: ele é a paisagem, o labrador, os rituais familiares e sociais, os diálogos irónicos e subtis em vez de uma boa peixeirada à americana no gueto, a rígida distinção de classes e a invariável mistura delas, porque afinal somos todos humanos, embora em teoria saibamos bem qual o nosso lugar. No todo, Downton Abbey é uma boa série, mas não tão boa como Bridshead, por exemplo, com o seu universo desviante e a premissa de devassidão moral que se escondia nas boas maneiras à mesa. Isto tudo para dizer que, sendo intrinsecamente de boa qualidade, corre o risco de se tornar insuportável devido a factores externos, como o merchandising que se está a gerar à sua volta. Pelo menos para quem, como eu, gira no universo facebookiano. Ele são t-shirts, banda sonora no itunes, livro de crónicas, aplicações várias (uma, por exemplo, permite explorar o palacete, divisão a divisão), calendários, DVD´s, com imagens e frases dos personagens favoritos, análises psicológicas dos mesmos, escolha o seu, encomende já, iadaiada. Se falarmos, por exemplo, de Family Guy e do personagem Stewie (quem não sabe temos, sinceramente, pena), num dichote ou pose perversos, tudo bem, tem um piadão e queremos comprar a t-shirt (ou não): faz sentido, pelo contexto. Neste caso, não bate a bota com a perdigota. Há um enxerto de contemporaneidade consumista que retira à série parte da sua magia, que é fazer-nos acreditar que houve em tempos um mundo em que as pessoas eram de facto assim, viviam e falavam assim. Se nos querem impingir a Lady Violet (uma condessa uptight mas espertíssima) numa t-shirt e fazem pools para votarmos se o mordomo Bates é ou não o "culpado" (até há uma petição que se pode assinar para que seja libertado!), se colocam fotografias desfocadas para adivinharmos quem é, uma série de época que se quer levada a sério passa a um reality show a fingir, cujos produtores querem é sacar-nos dinheiro, aproveitando-se da nostalgia romântica em que nos deixamos levar a cada episódio. Quanto a mim, tem um efeito contrário: ao ser bombardeada com as supostas complexidades da personalidade de uma criada e com a cara de um lord pespegada numa caneca, entro na realidade que é o séc. XXI, perco o interesse, e a televisão deixa de servir o seu propósito de alienação e de viagem no tempo, durante a hora que dura cada episódio, para se tornar o mero veículo de um negócio bem esgalhado. Só falta mesmo um jogo para a playstation em que os personagens ganham pontos com o comentário mais espirituoso ou fleumático e se agridem, sei lá, com luvas de pelica ou guardanapos de linho.

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