Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

a viagem

por Vieira do Mar, em 30.07.11

 

Mete-se no carro, com destino definido, o errado, como sempre. Sem cds nem ipods para se sintonizar com o que lhe vai na alma, escolhe uma estação de rádio ao acaso. Mas só lhe calham canções de amor, de amor impossível, de amor fácil, não me deixe só, muda; angie i still love you baby, muda; somewhere beyond the sea, somewhere waiting for me... muda; esteve nisto meia hora, talvez fosse do balanço da lua, boy meets girl, it´s friday i´m in love, my heart will go on, muda; every breath you take, i don´t wanna close my eyes i don´t wanna fall asleap, un-break my heart, say you love me again. Muda. Descobre que se havia tornado cínica. Sem dar por nada. Assim, num repente. By by love.  Fica-se pela TSF a ouvir um ministro atacar a oposição. Ou talvez fosse o contrário. E depois umas explicações sobre economia em que se esforçou por entender porque lhe iriam ao subsídio de natal. Finda a viagem, e nada do que os analistas de serviço haviam debitado lhe ficara na memória. Talvez se fosse de dia, a objectividade calorosa do sol opera milagres, vemos as coisas como elas são, lemo-las melhor: a sabedoria é luz. Pára na estação de serviço e fuma três cigarros seguidos. A TSF passa agora a sua música favorita de nina simone, a que condensa o amor em estado sólido, wild is the wind. Traga-a mais fundo do que aos cigarros, é a sua forma de se render. Mas ao menos perde para a nina simone, e não para um qualquer lionel ritchie ou uma celine dion. E poderia sempre alegar que não fora por causa do amor que se espalhava pelas teclas do piano,  mas por ser uma versão que nunca ouvira, em que a própria tocava como se lhe doesse e que ela  não era nenhuma autista musical, por favor. Pisca os olhos para que não lhe fuja uma lágrima traiçoeira, carrega no acelerador  e segue para o seu destino errado, de onde sairá pior do que entrou,  careca de o saber, mas sem ideia de porque insiste na viagem. À sua volta, as sombras adensam-se e deixa de ligar ao que lhe devolve a rádio. Cínica ou não, lembra-se de Pessoa, numa estranha inversão de papéis,  Mas cada um cumpre o Destino, Ela dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino, Pelo processo divino, Que faz existir a estrada. A angústia a acariciar-lhe o pescoço, o vento a querer despertá-la do torpor do erro, debalde. Acende um cigarro no carro, um perigo, o carro abana enquanto se distrai com o isqueiro, está quase a chegar, a velocidade devolve-lhe a cinza, que assenta no apoio de cabeça; atrapalha-se como de costume e resolve mandar o cigarro fora. Hora das notícias. Mortes, gente doida, políticos aldrabões, escândalos internacionais. Nada de novo. Pensa em voltar para trás na saída mais próxima, como sempre lhe acontece a dois terços do caminho. De nada vale, segue em frente como se telecomandada. No oceano pacífico (pensa ela, que ouviu entretanto o canto das baleias) jamie cullum armadilha-a, fatalmente,  mortalmente,  com all at sea. Like a warm drink it seeps into my soul Please just leave me right here on my own Later on you could spend some time with me If you want to All at sea. Tal como o príncipe da estória, ela rompe o caminho fadado. Não só é cínica, mas ainda lúcida o suficiente para saber que o que faz, fá-lo sem qualquer outro propósito que não o facto de ter de o fazer, instigada pelo destino, o desafio, a falta de lógica, a incongruência. Descarta outras hipóteses porque, lá está, é cínica.  Desliga a rádio e embrulha-se no silêncio sem qualquer tipo de fé. Tem pressa de chegar, talvez para mais depressa se poder vir embora. Conclui que nunca o saberá, tudo depende sempre de tantas pequenas coisas. Mínimas, minúsculas, repetidas à exaustão, inúteis coisas. A encruzilhada sem saída é normalmente o fim do caminho, como naqueles filmes de terror em que os adolescentes são caçados um a um, sem fuga possível. E essa é a única coisa de que tem a certeza, quando alcança a via verde a desafiar com velocidade muito excessiva a estreiteza da passagem. Sem fuga possível. 

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2006
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2005
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2004
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D