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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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" and you may tell yourself this is not my beautiful house"

por Vieira do Mar, em 27.06.11

Dividiram os bens comuns, ela contrariada, disposta a atirar com tudo para os confins de um tribunal. Nada adquirido na constância do matrimónio, tudo dado, oferecido para o bem da família, do casal e dos netos, por um pai e avô embevecido e ingénuo. Ele a querer vingar-se do descarte, a aproveitar-se dos pontos fracos, do desgaste da contenda, do ponto final posto por ela, sem razão aparente que não a falta de amor e de tudo, excepto do silêncio em excesso. Motivo pouco, diziam todos,  para acabarem vinte anos de associação maioritariamente proveitosa. Mas, dizia eu, ele a querer vingar o descarte rápido, definitivo, que não admitia retrocessos. Quis metade de tudo, assim, divididinho com direito a tornas e tudo para as contas darem certas. Entre outras coisas, ficou com a quinta. Um olival de três terrenos, numa encosta, para o qual ela desenhara, em noites de insónia acelerada, uma casa, as divisões, as medidas exactas em papel milimétrico, com epifanias de arquitecta, às vezes de engenheira.  Terraços, muros de pedra, piscina, balneários, garagens, jardins, canis, estufa de inverno, tertúlias para as noitadas com os amigos. Escolheu os materiais um a um, a madeira das escadas, os azulejos da cozinha e casas de banho, percorreu os antiquários e comprou a prestações os melhores móveis, LCD de muitas polegadas, colecções de pratos antigos, de meninos jesus, de figuras de presépio, os quadros que trouxera de havana. Toalhas novas, louças, talheres, uma surpresa a cada vez que uma mesa era posta e ele orgulhoso, sem saber de onde tinham aparecido tantas coisas bonitas, a incitá-las aos amigos como coisas suas. Cá fora, a pequena piscina desenhada por ela e os balneários pintados com trompe l´oleil, as hortênsias rosa coladas à pedra, pujantes sob a sombra da nespereira centenária. Os azulejos antigos que encontrara em demolições, espalhados pelo muro, as treliças de madeira por onde soçobravam glícinias roxas, a horta roçada por ele e depois acarinhada por ela, com regas a horas certas. As refeições de domingo, os grelhados no alpendre em família e, de inverno, o pargo no forno ao calor da lareira. As paredes pintadas por ela, com heras no topo a toda a volta, as gregas, cachos de uva, limoeiros. Os vasos da toscânia com as siccas à porta, as heras enterradas junto aos muros a taparem-lhes o branco sujo de ano para ano. O amarelo vivo das paredes, os tectos forrados a madeira, os candeeiros da companhia do campo e a cozinha, o seu reduto, com uma bow window directamente para a zona de jantar feita por medida, à sua medida. E, na horta, os tomates em cacho, as alfaces, as courgettes descomunais, as couves. No campo, os oregãos frescos.  Assim que ela lhe pediu que saísse, ele, alegando não ter tecto, abancou na quinta. Crianças pelo meio, olha, que fique por lá, ao menos continuam a ter  fins-de-semana de liberdade, elas adoram aquilo. E assim foi. Ela nunca mais lá entrou excepto quando ele, magnânimo ao fim de vários meses, a deixou ir buscar as antiguidades que lhe tinham saído do couro e comprado a prestações quando era solteira e ganhava pouco. Trouxe tudo o que conseguiu, mas deixou lá muito mais de metade. Foi o único sítio onde alguma vez se sentiu em casa, porque o construiu degrau por degrau, pedra sobre pedra. Aquela terra, onde enterrava os braços até saírem lagartas gordas que faziam o festim das galinhas poedeiras, era sua. Até cimento pôs entre tijolos, mãos que nunca tinham feito uma cama até se casar. Encheu dois camiões de mudanças, deu uma reviravolta ao carro no pátio e saíu portão fora, parando uns metros mais à frente onde se desfez em lágrimas de dor, de uma dor quase insuportável, como se lhe tivesse morrido alguém,  mas não se desfez  do passado, e muito menos dos tomates doces da horta, das pinturas, das hortênsias, da glicínia, do salgueiro à porta do quarto, das lavandas a delimitar a relva, da nogueira com as melhores nozes do mundo, onde baloiçava um banco para os miúdos. Conduziu com dificuldade até Lisboa, a amiga a consolá-la, a chorar mais do que ela, imaginado-lhe a dor, a insuportável dor. Mas ela sabia que o pior estava para vir. Meses passaram, um ano, ano e pouco. Hoje, outra ocupa-lhe a cozinha e faz passar pela bow window o almoço de domingo que os filhos comem a cada quinze dias. É ela que trata da horta e lhe apara as hortênsias. Que recebe os amigos comuns como a anfitriã perfeita, que sobe e desce as escadas de faia debruadas a limões, que dorme no quarto pintado com heras e se despe e veste no vestiário à sombra do trompe l´oeil. De tudo, o menos é mesmo o dormir na cama que foi do casal. Esse espaço estava vago havia muito tempo, mesmo antes da separação, e fora pela vontade de não o ocupar que ela perdera tudo o resto. Não as coisas em si, não são as coisas que se perdem,  mas o tempo e o sonho pespegado a elas. Há gente que não entende isto.

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