Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 07.09.06
o outro na vida deles




A vivência do espécime masculino típico* no interior do lar conjugal (tirando a parte boa, que é o aprimorar-se em brincadeiras várias nas quais dá vazão ao complexo de Peter Pan) é deixar peúgas e cuecas penduradas no varão dos cortinados, o suplemento de domingo no bidé, o prato com os restos de comida na mesa e o tampo da sanita levantado, mal reparando no pó acumulado no topo dos armários, no lixo à cabeceira da cama, nas manchas de pasta de dentes no espelho da casa-de-banho, nos cinzeiros por despejar e na sujidade acumulada nas lâminas de estore.

Esta criatura autóctone não se preocupa igualmente por aí além com o calcário na máquina de lavar, com os quadros tortos na parede nem, muito menos, com a desconformidade entre o padrão das cadeiras e o dos cortinados. Quando chega a casa (para além da brincadeira que ressalvei supra, notem!) quer a comida na mesa, o colarinho da camisa engomado e o comando da televisão na mão: o resto pode ser-lhe mais ou menos agradável, mas é-lhe acessório.

Por isso, companheiras, amigas, palhaças, não se deixem enganar: um homem, quando debruça a sua máscula atenção sobre as amostras de tecido que vos trazem, a vós, no limbo da indecisão e diz, convicto, preferir as flores roxas aos quadrados azuis, está a mentir. Bom, não será bem mentir: o que se passa é que, confrontado com uma opção estética que nada lhe diz nem lhe acrescenta, ele faz mentalmente um undolitá e seja o que deus quiser, meia bola e força e lá vai alho.

E isto porque, na verdade, a maior parte dos gajos não querem saber para nada da cor do sofá nem da largura do friso do azulejo da cozinha. Consoante o estado de necessidade em que se encontram, fingem-se interessados e participativos nas escolhas domésticas porque: a) gostam genuinamente de nós e não nos querem magoar com o seu desinteresse; b) não querem que fiquemos aborrecidas porque pretendem qualquer coisa de nós (hipótese não necessariamente cumulativa com a anterior), c) quanto mais depressa fizerem uma escolha, mais cedo deixamos de os chatear para que eles se possam debruçar na manutenção e melhoramento daquilo que, de facto, lhes interessa: o carro.

Esta relação inversamente proporcional entre o desvalor da casa e o valor do carro é transversal à sociedade e aplica-se a todos os felizes possuidores de uma pilinha, de uma casa e de um carro, independentemente do seu lugar na cadeia alimentar.

O carro é o castelo de um gajo. Os putos, que em casa bem que podem andar a limpar as mãos lambuzadas de bolycaos à parede da sala, não têm ordem de tocar com um dedo que seja no painel de instrumentos do carro. A dedada na pintura, o roçar de coisas nas portas, o comando que não abre à primeira, os buracos nas estradas... são verdadeiras facadas. Comer dentro do carro é proibido e, quando não o é por motivos de força maior (como uma longa viagem), lá vão eles espreitando pelo retrovisor a cada dez segundos, temendo pelas migalhas e pelos restos de sumo nos interstícios dos seus bem amados estofos.

Se, quando saem de casa, fecham a porta com estrondo, quando entram no carro, fazem-no com delicadeza para não o ofenderem com brutalidades desnecessárias. Aliás, remoem rancorosamente e em surdina contra quem nele entre e deixe cair a porta com demasiados decibéis e displiscência e sem o necessário temor reverencial. Se, no supermercado, não sabem distinguir um sonasol para a loiça da cera para o chão, já na secção automóvel conhecem todos os detergentes para estofos (em pele e tecido), os polidores para o capô, os abrilhantadores (para cromados e vinil) e as tintas reparadoras em spray e nada de falsas camurças, que para puxar o brilho como deve ser, só das caras e verdadeiras.

Capazes de ressonar a noite inteira enquanto o filho recém-nascido se esgoela ao colo da gaja-mãe, saltam esbaforidos da cama a meio da noite só para se certificarem de que o carro está trancado ou de que não foi assaltado. Podem esquecer-se de pagar o condomínio e a autárquica, mas têm sempre o selo e a inspecção periódica em dia e os níveis dos pneus e da água nas medidas exactas (se não têm, stressam e infernizam-nos o juízo, culpando-nos do facto).

Embora concordem geralmente com as nossas opções estéticas (ver supra), dentro do carro são uns ditadorzinhos e não permitem, sequer, que escolhamos um desodorizante-penduricalho em forma de pinheiro, tem que ser o do volante da Ferrari.

Não sabem em que gaveta do seu próprio quarto se guardam os toalhões de banho mas, no porta malas do carro, têm sempre um stock considerável de toalhinhas e toalhetes para o caso de serem precisos, que isto nunca se sabe, pode acontecer um acidente, uma criança a bolsar, umas gotas de suor ou um convidado inesperado.

Hesitam seriamente em deixar que o conduzamos, ao seu castelo, mesmo que tenhamos de os levar de urgência ao hospital pois estão a sufocar com um pedaço de bife atravessado na garganta, e choca-os profundamente o estado de abandalho em que nós, gajas, geralmente temos os nossos; aliás, encaram cada pacote de bolachas entornado, chupeta caída, biberão virado, marca de batôn no tablier ou monte de roupa amontoada no banco, como uma ofensa pessoal, uma espécie de afronta à ordem natural do universo. No fundo acham-nos umas porcas desmazeladas a quem deram pérolas e que melhor estaríamos se fossemos de autocarro.

E nós, parvas, desconfiadas porque o gajo chegou atrasado e, na maior parte das vezes, ele ficou mas foi a polir a consola, a sintonizar o rádio, a endireitar a antena e a catar noddys dos intervalos dos bancos, enquanto resfolega de indignação.

Assim é, companheiras: muitas vezes, a outra na vida dos nossos homens não é um avião nem tem necessariamente uma boa rodagem, embora também tenha um motor.





*Atenção! Este texto retrata o homem comum, o bonus pater família, ou seja, o homus namoradus ou casadus há anus - o que exclui, automaticamente, o homus casadinhus de frescus, o homus demasiadus sensibilis e os psicóticos anti-germes que limpam as dedadas dos copos saídos da máquina e que adormecem a murmurar rosebud.


(também na SOCA)

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2006
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2005
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2004
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D