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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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...

por Vieira do Mar, em 08.01.08
os desgraçados das quatro da manhã


Pronto, agora é que é: passei a engrossar as fileiras dos desgraçados que, encolhidos nos assentos do carro e a fungarem de sono, aguardam a saída das discotecas dos filhos adolescentes que não têm idade para ter carta nem maturidade suficiente para irem com os amigos para casa. Sou, portanto, mais uma daquelas pobres coitadas que têm inteligência para perceberem que é melhor dar-lhes alguma liberdade que nenhuma (para que não lhes aconteça o que acontecia às meninas de antigamente quando se livravam das freiras), mas não a inteligência suficiente para conseguirem delegar nos outros o transporte da criança, o que tem como consequência nunca acalmar o pito antes das quatro, cinco da manhã. E esta pouca inteligência que me sobra é tão, mas tão, limitada, que nem confio nas mães das amigas da miúda para a trazerem - algumas bem mais idóneas que eu - e, muito menos, nos pais, nos avós, nos tios ou nos táxis. Feita parva, acho que tenho que ser EU a estar lá às quatro da manhã, a cheirar-lhe o bafo. Basicamente, uma totó meio grogue, a tentar perceber se a roupa está toda no lugar, se a voz não lhe cambaleia, se está bem-disposta e se correu tudo bem. O que é um exercício um bocado espúrio (se cheirar a álcool ou a tabaco, faço o quê, hã? um drama?). Bom, mas isto para vos dizer que somos um grupinho digno de pena, acreditem. Para ali estamos, alguns de nós de gabardina sobre o pijama, à espera da saída das crias, quase sempre umas ingratas de má-cara porque queriam ter ficado mais uma hora porque “agora é que aquilo estava bom”. Os bocejos gigantescos, o ar desinfeliz e os quatro piscas ligados, são o santo e senha dos pais das três da manhã. Ou dos das quatro da manhã (por enquanto, pertenço à primeira leva, a dos que têm filhos entre os 13 e os 15). A hora combinada para a recolha - 3 da manhã - é tramada, porque não é carne nem é peixe e requer preparação prévia. É que não sei se estão a ver: sexta-feira, podre de cansaço, fui jantar fora e tal mas agora estou mortinha por aterrar no sofá ou no colchão. Mas não, não posso. Quando olho para o relógio já é meia-noite, daqui a duas horas tenho de estar a pé: se ponho o despertador não acordo. O terror de as crias poderem ficar na rua entregues a elas próprias e sujeitas aos selvagens da nite, leva-me a espetar palitos nos olhos e a submeter-me, nas duas horas seguintes, a uma espécie de tortura chinesa: a do ping ping infernal dos minutos. Lá para as duas, não aguento e cabeceio; até costumo sonhar um bocadinho, com pastagens verdes e bois e assim, até o despertador do telemóvel me fazer saltar o coração na boca, dando-me vontade de vomitar. Podem crer que, no momento em que me faço à estrada, estou mais bêbada do que um presidente russo; se a polícia me mandar parar, tenho a certeza que acuso qualquer coisa. Mau, muito mau. Só tenho uma coisa a dizer, sinceramente: obrigada, pai.

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