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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 26.04.06
da série "Ah! É tão bom ter um blogue - II"


A TVI é uma puta feia, daquelas com a ganância estampada no rosto, que não disfarça nem a quilos de base. Há uns tempos, pretendeu aumentar as audiências dos Morangos com Açucar através da infantilização dos conteúdos. Talvez para disfarçar, pôs no canto superior a bolinha que avisa ser a coisa para maiores de dez anos. No entanto, quase todos os miúdos aí a partir dos seis e não-sujeitos-a-um-regime-caseiro-marcial, espreitam ou vêem aquilo: a singeleza dos diálogos e a trama apalhaçada, comprovam-no. O actor que morreu funcionava como um contraponto dos personagens principais, mais sérios, uma espécie de Tambor no Bambi, de preguiça na Idade do Gelo, de burro no Shrek, de Dragão na Mulan, and so on. São personagens mais pequenos que, à conta dos disparates que fazem, captam a simpatia do público e aligeiram o dramatismo, quando o há.

Ora, parece que a puta já tinha gravado algumas dezenas de episódios quando se deu o acidente. De uma forma pouco menos que desavergonhada, um representante qualquer da dita, talvez um dos seus chulos, veio à televisão dizer que os episódios em que o miúdo falecido entrava seriam todos emitidos porque era o que ele de certeza quereria, com toda a sua alegria de viver. Uma psicóloga veio apoiar a tese, afirmando que até seria bom, como forma de alertar os jovens para o perigo na estrada, bem como para os pais aproveitarem para explicar a morte aos mais novos. Tradução minha: gastámos demasiado dinheiro nisto para agora deitarmos tudo fora, portanto, papem lá os episódios com o miúdo mais a sua alegria de viver.

Já eu, que não sou psicóloga, mas dotada de algum bom-senso de criatura atenta, digo que não pode ser bom, os miúdos verem todos os dias entrar-lhes casa dentro uma pessoa que sabem que morreu de forma tão trágica e que lhes lembra algo tão triste, a fazer palhaçadas para os pôr a rir. Perante tamanha incongruência, e como não sabem como lidar com tal paradoxo, escolhem virar as costas ao programa e inventam outras coisas para fazer; onde antes existia entusiasmo e prazer, nota-se agora um nítido desconforto, por mais explicações que nós, pais, lhes demos. A série perdeu a piada e eles perderam a vontade de a ver.

Se eu acho que deveria ser tabu, a questão da morte do rapaz? Não, mas nunca passar sobre ela como cão por vinha vindimada, como está a fazer a TVI, num desrespeito total para com os seus espectadores mais novos. Que fizessem uma homenagem ao rapaz, que pusessem os colegas a falar dele, talvez um episódio best off. Depois, mandavam-no para o estrangeiro com uma bolsa de estudo, fazia-se um luto rápido e gravavam novos episódios, erradicando-o completamente da trama: uma trama que se quer leve, pois é emitida às 18 horas da tarde, para miúdos e jovens que chegam da escola.

É duro, o esquecimento forçado, a obliteração total do personagem e, por via disso, do actor falecido, enquanto pessoa? Pode ser que seja. Mas é de entretenimento que estamos a falar. E há interrogações demasiado pesadas que não devemos permitir que os nossos filhos carreguem diariamente sobre os ombros quando, supostamente, estão em frente à televisão para se divertirem, num momento que se quer de alienação (e independentemente de juízos de valor sobre a qualidade intrínseca da série e da minha atitude não censora: eles gostam, vêem e pronto, disso já falei aqui).

Ou seja, sob a capa hipócrita da perpetuação da memória do coitado do rapaz, a TVI poupa uns cobres e impõe diariamente aos miúdos uma tristeza com que eles lidam da única maneira que sabem: virando-lhe as costas. Era bem feita, era, que tamanha venalidade e falta de sensibilidade fossem o fim da merda do programa. Eu gostava, confesso. É que não se faz.

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