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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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...

por Vieira do Mar, em 02.05.07
Dos cães perigosos.



Volta e meia, ouvimos notícias sobre cães que atacam pessoas, matando-as ou deixando-as muito feridas. A minha posição sobre isto é simples: já tive um cão que todos na família adoravámos e que mandei abater. Um rafeiro alentejano do tamanho de um burro que, até ao dia em que começou a rosnar baixinho e a mordiscar as canelas das visitas, parecera apenas um abrutalhado meigo e bem disposto. Por precaução, começámos a fechá-lo num espaço vedado quando vinham pessoas de fora e a não deixar as crianças rebolar com ele pela terra, não fosse o bicho chatear-se, vá lá a saber-se porquê. Ficou cada vez mais enraivecido, a atirar-se a mim, ao dono e a tudo o que mexesse. Nunca soubemos ao certo qual o mal que o atacou, nem de onde lhe veio aquela loucura, mas também não ficámos à espera para saber; não, quando tínhamos três crianças em casa, duas, mais pequenas do que o dorso do próprio cão. Foi doloroso, mas fez-se o que tinha de ser feito, não arriscámos.

Isto para dizer que não entendo, juro, quando vejo as pessoas a condicionarem a sua existência e a das suas crianças (quando não as crianças dos outros), ao comportamento dos animais, que tomam como certo. Como aquelas famílias que têm doberman e rottweilers que são uns queridos, SE as crianças não gritarem muito alto, SE não fizerem movimentos bruscos, SE não estiverem na presença de estranhos, SE… Ou, então, aqueles que afirmam taxativamente que um cão bem ensinado, que reconheça o dono, independentemente da raça, não é agressivo (a não ser que o dono o queira).

No primeiro caso, é pura e simplesmente absurdo: aquilo que deveria ser uma relação de prazer – o convívio com o animal – transforma-se numa tirania de condicionantes. Ter uma relação com um animal sob condição é um fardo desnecessário, além de sujeitar as pessoas que com ele convivem a um perigo gratuito. Porque, uma coisa eu aprendi, nestes anos todos de convívio com bichos e, em especial, com cães: eles são imprevisíveis, e negar esta realidade, ou é estupidez ou é arrogância (ou as duas coisas juntas). Nunca podemos prever ao certo o que pode despoletar um sentimento de medo ou de raiva e a resposta de um animal (mesmo que supostamente "treinado"), sob a forma de um ataque.

No segundo, é mais ignorância do que outra coisa, negar que certas raças detêm características mais agressivas do que outras e afirmar que não existem raças "más" mas, sim, donos que não sabem educar. Posso não apresentar aqui provas científicas (que as há) mas, parece-me de simples bom-senso que, se certos cães têm um maxilar que abre e se fecha como o de um pequeno esqualo, é natural que tenham uma maior apetência para morder e que, quando o façam, seja com violência, provocando geralmente grandes estragos. A minha pequinois rodas baixas é um doce, mas, se lhe desse para aconchegar canelas com os dentinhos, não viria daí grande mal ao mundo, atenta as suas estatura e força (e, mesmo assim, se mordesse, muito provavelmente a cadela não seria minha…). Agora, ter em casa um doberman, por exemplo, à mistura com crianças? É cá de uma irresponsabilidade, que faz favor. Podem jurar-me que é a criatura mais meiga do mundo, um querido, o melhor que pode haver para os petizes... até um dia – que pode nunca chegar, é certo, mas até um dia. E só esta possibilidade traduz um risco que eu não percebo estarem algumas pessoas dispostas a correr.

Portanto, se existe hipótese de escolha, se eu posso ir a um canil ou apanhar da rua um rafeiro eternamente agradecido, ou se posso ter um retriever bonacheirão, um cão pastor, um buldogue, para quê meter na cama dos meus filhos um rottweiler, um doberman ou um dogue alemão? Para quê arriscar-me a que, num acesso de fúria mal medida, inexplicável (são sempre inexplicáveis, já repararam?), as crianças possam ficar sem a cara?

Tal como o maralhal delinquente da Quinta das Conchas, as criaturas que, geralmente, têm este tipo de raças, são movidas pelos complexos de inferioridade, por puro exibicionismo, ou pela sensação de poder que têm, ao parecer aos outros que dominam a fera. Exibem o animal como uma arma ou um segurança privado, um prolongamento da sua "força" e das suas pilinhas. O chato é que, de vez em quando, saltam para as notícias episódios dramáticos com algumas raças de cães (quase sempre os mesmos: os que referi supra) que põem a nu a irresponsabilidade e a miserável cagança dos donos, ao acharem que os dominam e que sabem tudo sobre eles. É parvo, é triste e, muitas vezes, acaba mal.

Acho que ter um animal em casa deve ser uma fonte de amor incondicional, de brincadeira e de prazer e, nesse sentido, sim - acho que os animais estão lá para nos servir, a nós e aos nossos. Egoísta? Talvez, mas não me faz sentido, adquirir voluntariamente um monte de preocupações e de margens aleatórias, para mim e para os meus.

Sou, aliás, ainda mais fundamentalista, mais papista que o papa: apesar de adorar cães e de não me importar nada que um deles venha desencabrestado rua fora, me cheire o rabo e me lamba as mãos, percebo que exista quem não goste. Mesmo os mais meigos, os mais tontos, os manifestamente inofensivos, não deveriam andar soltos na rua. Aquela conhecida frase, "não tenha medo, ele não morde", que todos nós já ouvimos numa altura ou noutra, desperta em mim uma irritação desmedida. Eu não sei se o cão não morde e não me interessa: posso simplesmente não gostar que me fareje e lamba; não sei se está vacinado, se está limpo; posso ir com o meu cão pela trela e não me apetecer vê-los a engalfinharem-se, posso ter um medo irracional ou posso ser alérgica... Não são só os cães perigosos que circulam livremente graças à imbecilidade dos donos; os outros, por vezes, também; traduzindo-se estas amplas liberdades, antes de mais, numa enorme falta de respeito pelo espaço contentor de terceiros.

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