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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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...

por Vieira do Mar, em 25.10.06
os homens e o choro das mulheres



Para a maior parte dos homens*, uma mulher a chorar é algo de desconfortável, um espalhafato desnecessário e constrangedor. Olham-nos receosos e desconfiados, como se assistissem a um freak show, tipo, o disparo dos anões-bala ou a dança da mulher barbuda. A choradeira feminina é algo que os incomoda e repugna mas que, ao mesmo tempo, os fascina, pela estranheza (indiferentes, nunca ficam). Por vezes, o embaraço é tal, que chegam a sorrir desajeitadamente, como aquele público nos espectáculos dos fura dels baus, não sei se estão a ver.

O facto de olharem para nós como uma aberração prende-se com uma total falta de empatia, que é de génese cultural: um homem não chora, portanto, não sabe o que isso é. Pelo menos, não sabe o que é o esgoelanço desesperado, o arrancar de cabelos, o arrojanço pelo chão de uma mulher em regime de choro convulsivo. Falo, obviamente, de mulheres normais, não daquelas atrofiadas que têm a mania que são ladies tanto na cama como na mesa e que gostam de alardear um recato hipócrita ao estilo matrona amish.

Mas, portanto, dizia eu, os homens não se arrastam habitualmente pelo chão deixando atrás de si um lastro de baba e ranho como os caracóis, logo, não entendem porque as mulheres o fazem e porque não se controlam. O que nos conduz ao ponto dois: Como não entendem, desconfiam. Acham sempre que a gaja, para se estar a dar a tanto teatro, quer qualquer coisa ilícita em troca e está determinada a obtê-la, atento o esforço de pulmão. O aumento da convulsividade do choro é, portanto, directamente proporcional ao pé atrás e inversamente proporcional ao montante de pena que ela acha que ele devia sentir. Vendo-lhe os olhos a ficarem do tamanho de ovos, a maquilhagem esborratada e a expressão cada vez mais esgazeada, ele vai ficando assustado e a pensar “Ná... Isto é fita, só pode”, “Fosga-se!, mas o que é que ela pretende???”, o que nos conduz ao ponto três: o ele querer pôr-se dali para fora o mais depressa possível e que a cena acabe rapidamente, pois sente-se claramente em território desconhecido, que não domina.

Ora, todas nós sabemos que isto das crises de histeria, dos ataques de nervos e das manifestações de desgosto em geral, têm o seu timming – neste campo, nem sempre as rapidinhas funcionam. A tristeza e o desespero pedem tempo para se poderem espraiar e desenvolver na sua plenitude: têm um calendário a cumprir. Com o início do confronto pedem-se explicações que, obviamente, nunca satisfazem; por esta altura, ainda somos capazes de verbalizar as nossas emoções de forma coerente, embora caminhemos rapidamente para o descontrolo. De seguida, vem a choradeira e as recriminações e o gajo que é culpado de todos os males do mundo, mais do mal de não saber reconhecer que é culpado.

A dada altura, o cansaço pelo esforço físico dá lugar a uma certa resignação, que logo se esfuma quando os vemos aliviados com o nosso silêncio. Porque nós não os queremos aliviados, era o que faltava!, queremos que eles penem, e vai de fingir que é dor a dor que deveras sentimos, como dizia o poeta. E eles penam: não porque sintam qualquer simpatia para connosco, não porque nos entendam a dor nem porque se sintam arrependidos do que quer que seja – penam porque querem bazar dali para fora, sentem-se presos numa teia moral entretecida com fiozinhos de culpa e, ao mesmo tempo, sentem-se aldrabados, mesmo que nos fitem com olhinhos de beagle.

Ou seja (e a propósito de beagles e de prisões): estamos presas por ter cão e presas por não ter. Se nos aguentamos à bronca e engolimos as lágrimas, mantendo a altivez de uma dama vitoriana, com os olhos a todo o tempo dentro das órbitas e um discurso racional e coerente, quase desinteressado, é porque somos frias, não damos valor à “relação” e não nos importamos. Se largamos o sofrimento que temos cá dentro e desatamos a abrir ao estilo tragédia grega (porque já não aguentamos, porque desta vez foi demais…), somos umas histéricas de pouco nível e, ainda por cima, com uma agenda.

Por isso, olhem, minhas amigas, não se coíbam e esgoelem-se à mesma que eles, de qualquer forma, não entendem nada. Não entendem, designadamente, que a nossa choradeira desenfreada é a hemodiálise das relações amorosas falhadas, já que é através das lágrimas, do ranho, da baba e das perdas de xixi (sim, aquela incontinência súbita quando retesamos o abdómen entre soluços), que os expurgamos do sistema.



* É claro que o meu universo representativo não é o gajo sensível que gosta de carpir em uníssono com a sua gaja e que, com algum esforço, até atinge um tom de falsete; eu é mais na onda dos camionistas licenciados, que são a grande maioria da espécie com que me cruzo.

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