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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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...

por Vieira do Mar, em 08.09.07
a saga dos macaine
(em actualização)


McCann & CO.

SIC, sexta-feira à noite. A entourage dos McCann, não obstante os últimos dramáticos desenvolvimentos (ou, se calhar, por causa deles), continua exímia no manobrar da opinião pública. Agora, que Kate foi constituída arguida e o marido seguiu o mesmo caminho, apelidam de "ridícula" a actuação da P.J., confidenciando que aquela se encontra "aterrorizada" perante a possibilidade de ser "condenada por um crime que não cometeu". Uma vez mais, os McCann adiantam-se e determinam a agenda informativa, criando factos "noticiáveis". Ao insinuarem que a polícia os acusa de terem morto a filha, matam dois coelhos de uma cajadada: aparentando coragem e frontalidade, afastam especulações e avançam com uma informação que, mais cedo ou mais tarde, alguém avançaria por eles e, por outro lado, afirmam-se como vítimas, usando para o efeito a indignação familiar, tentando assim recuperar a empatia perdida com o público. Ao mesmo tempo, denigrem o trabalho da polícia, questinando indirectamente o curso da investigação.

Um exemplo disto é o suposto "facto" veiculado por um dos familiares, de que a polícia teria oferecido um "acordo": em troca da confissão, Kate apanharia uma pena de apenas dois anos. Ora, isto mostra que nem sequer os trabalhos de casa fizeram como deve ser: ao contrário do direito anglo-saxónico (com o plea bargain), o nosso não permite "acordos" prévios; nenhum condenado passa sem julgamento e nenhum julgamento está definido à partida, muito menos, qualquer pena. Resta acrescentar que nunca a polícia teria poderes para oferecer fosse o que fosse: num caso desta importância, a situação processual dos McCann passa obrigatoriamente pela iniciativa do Ministério Público, que ordena a investigação e lhe define o rumo. A polícia, investiga e dá conta a este dos resultados de tal investigação, ponto.


A "acusação" de homícídio.

Mas, na verdade, a que "acusação" se referem eles, os McCann & Co.? Como podemos saber se foram constituídos arguidos por existirem suspeitas de que terão morto a filha? Não sabemos, embora seja isso que querem que pensemos. No entanto, tal apenas significa que existem indícios de que terão praticado um ou mais factos criminalmente ilícitos, sendo que o espectro de crimes possíveis não se esgotará, obviamente, no homicídio. Pode ter a ver com um comportamento negligente (por exemplo, relacionado com o facto de terem deixado as crianças sozinhas, o que, face à lei portuguesa, pode configurar crime) que tenha contribuído para o desaparecimento da criança, mas não ser "O" facto em si mesmo.

Conclusão: não presumir que o casal está indiciado (e não "acusado", facto que só se verifica com uma acusação formal e escrita, por parte do Ministério Público) pela prática do crime de homícidio da filha. Isso, pelas razões que expus, é o que os McCann querem que se pense.


A Medida de Coacção aplicada.*

Foi-lhes aplicado Termo de Identidade e Residência, a medida menos gravosa. Parece-me que percebo porquê (explicarei mais tarde, se tiver tempo e paciência).

adenda: não vale a pena, o advogado de turno na SIC já o explicou: caso a imputação tenha sido por um crime negligente, não há lugar à aplicação de medidas mais gravosas como a prisão preventiva, só aplicável em caso de crimes dolosos (ou seja, intencionalmente praticados). No entanto, e ao contrário do que disse aquele, tal não acontece em relação a todas as medidas: poderia ter-lhes sido aplicada a medida de "obrigação de apresentação periódica" (por exemplo, semanal, nas instalações da P.J.) se se tivesse pretendido obrigar o casal a ficar em Portugal. Não foi essa a estratégia, não sabemos porquê, esperemos para ver.


O "Directo" de sexta.

O directo da SIC foi uma vergonha. A histeria com a iminente saída de Gerry pela portinhola da PJ de Portimão, foi um triste momento de jornalismo. "o carro está ligado", "Gerry macaine vai sair", "afinal não vai", "espera-se a qualquer momento", "desligaram o carro", "apagaram as luzes", "é agora", "afinal não foi", e aquela abécula de jornalista a repetir ad nauseum "macaine", "macaine", "MACAINE!", sem ninguém que lhe explicasse que o nome das criaturas não leva nenhum "I", pelamordedeus... Uma desgraça.


O povão.

O povo, como sempre, inculto, ignorante, sedento de sangue, manobrável, manipulável. À entrada na PJ, Kate é indecentemente vaiada e apupada. Para além do óbvio comportamento de matilha, ressalta à vista que a aparente frieza e o auto-controlo do casal são estranhos e antipáticos à efervescência do sangue latino, mais confortável no dramalhão do que na sobriedade: se não arrancam cabelos em público, se não gritam e se babam e batem no peito, então, mataram a filha.


Os comentadores.

A não adiantarem nada de jeito porque, como o resto de nós, nada sabem da investigação e pouco sabem do resto. O inefável Moita Flores (MF), auto-denominado "criminologista", diz que é preciso ter "muito cuidado" porque "ser arguido não é ser condenado". Pois. E estar morto é o contrário de estar vivo.

Domingo à noite, continua o disparate em directo: MF diz coisas como "o processo penal" é “contar uma história”, que há que acabar com esta “presunção de inocência”, e que agora ficámos com um “cadáver por descobrir” e "mais nada". Só lapalissadas, especulações, conversa de café (haja paciência). Razoáveis, os restantes comentadores, aprendeu-se qualquer coisa.

P.S. Costa Ribas, a seguir o caso desde Inglaterra, é uma mais-valia para a SIC (experiente, calmo e com um refrescante sentido crítico, sem perder de vista a objectividade).


A minha opinião.

O casal inglês é-me manifestamente antipático. As respostas ensaiadas de ambos, o óbvio domínio exercido por ele sobre ela (embora ela aparente ser psicologicamente mais forte), o show mediático profissional que montaram e a manipulação da opinião pública, chocam-me a sensibilidade e o pudor a afastam-me do que seria o sentimento normal e previsível: a solidariedade (enquanto mãe) e uma imensa pena por um drama tão grande lhes ter caído em cima. Passo ao lado das "amostras de sangue" que supostamente foram encontradas, de saber de quem era o sangue, como lá foi parar, etc: tudo não passaria de especulações, sendo que não tenho a menor dúvida de que já há várias semanas que se sabe o resultado dos exames pedidos e que os alegados "atrasos" não passaram de poeira para os olhos da opinião pública. Nós não sabemos nada. E, se calhar, é assim que deve ser. Porque, pelos vistos, quanto mais informação vier a lume, mais informação é distorcida, manipulada e cozinhada, a contento de uns ou de outros. E isso, diz-me a minha experiência nestes casos (que, garanto-vos, não é assim tão diminuta), é um grande obstáculo para se chegar à verdade. Que deveria ser o mais importante, certo?


Adenda (segunda-feira): Por uma questão de coerência e de bom-senso, sobre certas coisas faço de conta que nada sei, que nada li. Faço, por exemplo, de conta que não li que os pais foram indiciados porque cheiravam a sangue e a cadáver. Faço de conta que, para a PJ, seja normal e previsível que, numa casa de férias com miúdos pequenos, haja “vestígios biológicos” dos mesmos: joelhos esfolados, lábios cortados e restos de sangue, de betadine, de algodão e de pensos rápidos, no lixo ou pelos cantos. Faço de conta que a PJ também teve em consideração que o “cheiro a cadáver” que os cães terão encontrado na roupa da mãe não sai com a lavagem e se pode transmitir pelo toque e pelo manuseamento de coisas, e que ambos os arguidos são médicos e lidavam, por isso, com a morte no seu dia-a-dia. Faço de conta que a PJ tem uma explicação para o facto de o dito “cheiro” ter aparecido numa carrinha alugada pelo casal 25 dias depois do desaparecimento da filha e que não presuma que estes, enquanto atraíam a atenção do mundo sobre si mesmos, escondessem o cadáver, à espera de se poderem livrar no mesmo. Faço de conta que a PJ não é estúpida nem desleixada, que a história está mal contada pela imprensa e que o facto de os pais, para além do ordálio que é terem perdido a filha, estarem a ser sujeitos à acrescida tortura de serem suspeitos pelo homicídio da mesma, não é fruto de uma investigação irresponsável, que se encontra à deriva. Sim, eu faço de conta que não é nada disto. Tem que ser.


Adenda II, segunda à noite: Os McCann sentem-se a "salvo" em Inglaterra e passam ao ataque, criticando desabridamente as autoridades portuguesas e contratando, por cerca de mil dólares/hora, o advogado que impediu a extradição de Pinochet para Espanha. Entretanto, e tal como afirmei supra, já há muito que se sabia serem de Maddie os vestígios biológicos encontrados na carrinha, tendo as inquirições/interrogatórios do casal sido feitos no pressuposto deste mesmo conhecimento (ter em atenção que "vestígios biológicos" não significa, obrigatoriamente, "sangue"). É o fim do estado de graça: independentemente da sua culpabilidade ou não, os McCann estão longe, são adversários de peso, têm muita influência (são íntimos dos trabalhistas) e declararam guerra. E a nossa Justiça terá que se esforçar muito para a montanha não parir um rato e para Portugal não acabar (como muitas vezes acontece) alvo da chacota e do desprezo por parte do resto da Europa. Sim, isto é assim de grave.


Prós e Contras

No programa "Prós e Contras", que se antecipa aos tribunais e promove o julgamento em praça pública do casal (com o título inacreditável de "São os McCann culpados?), os inefáveis do costume, que nada acrescentam. Interessante, porém, a intervenção do psiquiatra forense espanhol que "desmonta" (com algum bom-senso mas cientificidade duvidosa, é certo) o comportamento em público do casal - segundo ele, revelador de um pacto de silêncio culposo. Ah! E a Fátima, não esquecer a Fátima, que está a alucinar um bocadinho, com aquele ar de generala desbocada, credo.

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