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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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...

por Vieira do Mar, em 25.04.07

Quando a figura de Salazar

ganhou aquele concurso idiota na RTP, eu até me ri, com os coros indignados que então se levantaram: que Portugal isto e que aquilo, que os portugueses, órfãos, resignados à sua sorte, só tinham o que mereciam, e que ah! e que oh!. Sempre me pareceu que meia dúzia de mecos da extrema-direita, da direita, ou nem tanto (apenas gente com um estranho sentido de humor), tinham desatado a votar à estúpida só para chatear a esquerda e baralhar as cartas do politicamente correcto. Afinal, bastava telefonar. Grande palhaçada, portanto, para gaúdio de uns poucos, uma vez que a esquerda (e todos os anti-salazaristas em geral), feitos parvos, morderam o isco e correram a mostrar-se chocados e horrorizados com uma votaçãozeca meio aldrabada num programa medíocre de televisão, que metia no mesmo saco figuras totalmente díspares, sem qualquer nexo ou fio condutor.
Nas nossas escolhas (quaisquer que elas sejam) tem de haver um nexo entre as opções que fazemos e o que é preterido. Num concurso, esse nexo entre os vários participantes tem de ser unívoco: várias pessoas passam por uma mesma prova, de idêntica natureza, e que ganhe o melhor (ou o pior, consoante o tipo de concurso). Ora, nesta excrescência televisiva, não havia nada disso; os talentos eram vários e apontavam em direcções diversas, numa lógica obstrusa: visionários, poetas, ditadores, ditadores wannabe (Cunhal, por exo.), reis, gente simplesmente boa (Aristides de Sousa Mendes) e políticos tout court (o Marquês), tudo no mesmo saco. Pouco ou nada em comum, portanto. Nenhum critério uniformizador que os colocasse na mesma linha de partida; apenas um molho de gente que, de uma forma ou de outra, terá influenciado os diversos rumos de Portugal, por assim dizer.
Ora, se formos pelo critério da "influência", ou seja, de como uma só pessoa pode conduzir um país numa ou noutra direcção, talvez Salazar tenha sido, de facto um grande português: durante décadas, manteve o país mergulhado no obscurantismo (cultural, político e social) e nas sopas de cavalo cansado, deixando o país perder de vez (porque já desde mil oitocentos que o vinha a perder…) o comboio do desenvolvimento, que então se vivia no resto do mundo civilizado. Salazar trancou o país por dentro, negou-se à descolonização e lixou esta merda toda durante muito tempo. Ainda hoje nos ressentimos disso: no espírito provinciano e mesquinho que nos cumprimenta todos os dias a cada esquina, nos complexos de inferioridade, no saudosismo bacoco de quem só se queixa e não tenta fazer melhor, na herança da violência doméstica (a família, a família, tudo pela família…) e do alcoolismo quase endémico, e na falta de vontade e de coragem para a intervenção cívica, por exemplo.
Salazar, infelizmente, foi um português de monta, sim senhor, porque, em meados do século XX, quando os outros países já tinham televisão a cores e se começava a pensar em mandar o Homem à Lua, ele mandava gente para o Tarrafal e assava-os na frigideira, mandava miúdos para o mato matar pretos, assassinava os opositores políticos e mandava a pide entrar pelas casas dentro de cidadãos cumpridores e trabalhadores, confiscando-lhes Kafka e Mark Twain, enquanto pairavam, negras, as ameaças de detenção, os sustos de morte.
Salazar teve o grande mérito de estruturar o medo à escala nacional. Isso faz dele um dos grandes de Portugal. Uma grande bosta, mas grande. Porque o maior português pode sempre querer dizer o português que mais nos fodeu o juízo, ininterruptamente, durante mais anos, e que mais nos afastou das coisas boas e importantes que, entretanto, aconteciam no resto do mundo. Portanto, de certa maneira, vistas as coisas de um certo prisma, quem votou nele até tinha razão, mesmo sem a querer ter.
O que vale é que, como dizia eu hoje ao meu filho mais novo, "Um dia ele caiu de uma cadeira, ficou doente e morreu; depois veio um velho parecido, embora um bocadinho menos mau, até que os portugueses se fartaram de morrer na guerra, de não poder ler os livros que queriam e de ter de ir a Espanha beber Coca-cola, e mandaram uns soldados correr com aquela canalhada toda e, depois de algumas confusões em que todos queriam o poder, puseram as pessoas a votar e a escolher quem queriam que mandasse nelas, e a ler e a comprar o que lhes apetecesse. E a beber muita Coca-Cola."

E pronto. Por estas e por outras é que hoje corri meia Lisboa só para comprar um cravo vermelho e ando com ele ao peito - mesmo dentro de casa, até quando vou à casa de banho fazer xixi.


A propósito, ler este post da Tati, de que gostei muito.

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