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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 21.09.06
no excelente Miniscente,

Luís Carmelo entrevista Luís Graça, um escritor/ensaísta de 43 anos, e conduz-nos numa viagem pelos meandros fascinantes do pensamento de um intelectual sobre ... blogues. Embora aconselhe vivamente a leitura de toda a entrevista (não saltem a parte das "senhoras que escrevem poemas", nem aquela onde ele revela orgulho na extrema originalidade que foi criar um blogue de insultos com o nome Ganda Ordinarice), não resisto a transcrever aqui parte das respostas do entrevistado, a saber:

"Os blogs são a prova mais evidente que o 25 de Abril falhou num capítulo fundamental: a Educação. Porque se a Educação tivesse triunfado, a Liberdade de Expressão seria uma coisa perfeitamente natural nos blogs. Ora, há muita censura nos blogs. Sei por experiência própria. Já fui vítima disso. Assisti a um debate na livraria Almedina (Atrium Saldanha, Lisboa) e pude constatar como algumas senhoras assumiam um blog como coutada privada, onde as críticas são mal aceites. Achavam perfeitamente natural que se apagasse um comentário, apenas por poder ser "desagradável" ou "má onda".Falamos de pessoas na casa dos 30 anos. Que deviam compreender as regras da Liberdade de Expressão."


Ora bem. Uma dessas senhoras na casa dos trinta que assumem o blogue como uma coutada privada, era euzinha. E digo já que isso da coutada privada, por acaso, é verdade: não há dúvida que gosto libertar por aqui espécimes autóctones, como sejam escritores/ensaístas, de lhes conceder umas horas de avanço e de, depois, lhes dar caça. Dá-me um grande gozo. Também é verdade que estou na casa dos trinta e ainda bem que o Sr. Luís Graça reparou (é um alívio: temo sempre que me achem mais velha, é uma nervoseira que nem vos digo).

Bom, mas, portanto, depreendo que o senhor ache que eu e a Rita (as duas "senhoras" presentes na Almedina), por sermos mais ou menos contemporâneas do 25 de Abril, tenhamos a especial obrigação de interiorizar, com muita força, o conceito de "liberdade de expressão" no seu sentido absoluto, ou seja, como uma grande rebaldaria.

Ora isto, para mim, não faz sentido. o Sr. Luís Graça parece não entender que, por alturas do 25 de Abril, a minha querida Rita estava mais preocupada com a introdução aos sólidos e eu (uns aninhos mais velha, verdade se diga), mais preocupada com os mistérios do ABC (a preparar-me para um dia mais tarde poder desancar alegremente em escritores/ensaístas) do que, propriamente, com as conquistas da liberdade.

No mínimo, isto demonstra uma fraca psicologia: é natural que tenda mais para o excesso, quem já viveu no defeito, na precaridade. Os meus pais, por exemplo, chateados pela PIDE até à medula, são hoje infinitamente mais liberais e compreensivos para com a livre expressão da boçalidade, do que eu. Para eles, que não podiam ler alto um poema de Neruda, qualquer forma de liberdade é boa, mesmo aquela que não presta. Habituada a presenciar o esbanjamento dessa mesma liberdade em cretinices várias, eu, ao pé deles, sou uma porca fascista reaccionária. Tenho, do conceito, uma noção restritiva, refinada e lapidada pelos disparates dos outros que sou forçada a engolir. Aliás, é uma maçada, que por causa do 25 de Abril, tenha que gramar com o que pensa o Sr. Luís Graça. E, pior que isso, que não haja ninguém que me amarre as mãos e me impeça de estar aqui a perder tempo com ele, mas enfim.

Porque, no fundo, vejamos: é o facto de eu achar que a Liberdade de Expressão deve servir, essencialmente, para actividades construtivas, que me impede de chamar burro ao sr. Luís Graça. Pois não: nunca o faria (não insistam).

Mas também não me vou dar ao trabalho de lhe explicar porque é que a minha liberdade, como qualquer direito fundamental, tem correlativos certos deveres para com os outros, que não estão obrigados a aturar-me. E que a censura, perante a boçalidade alheia, não é censurável. E que ter uma "coutada privada" também é um exercício de liberdade. Não, não sou eu quem lho vai explicar, porque, nestas coisas, é mais ou menos como tentar fazer mudar de ideias a quem defende que o Bush é que teve a culpa do 11 de Setembro: não só não convencemos ninguém, como ainda nos irritamos e ficamos com dor de cabeça.

Mas então, perguntam-me vocês, se não é para contraditar o senhor nem para lhe chamar nomes feios (já disse: não insistam), para quê chamar a atenção para a entrevista? Se não vai haver sangue, o que é que aquilo interessa? Bom, na verdade, o que eu queria mesmo era mostrar-vos esta parte, que achei deliciosa:

"Mais curioso: alguns bloggers que têm blogs sobre sexo, com linguagem crua e humorística, são os primeiros a praticar a censura. Exemplo: corrigi de forma divertida uma profusão enorme de erros ortográficos nos comentários. As minhas correcções foram apagadas e recebi um mail a explicar-me que era chato corrigir os erros."

Dei por mim a pensar nesta pungente confissão. Pungente e enigmática. Que terá o sr. Luís Graça querido dizer, exactamente? Que quem escreve sobre sexo dá mais erros porque, compreensivelmente, está com a cabeça noutro lado? Que, na cama, dois é bom, mas três (se contarmos com o sr. Luís Graça) pode ser demais? Que quem usa uma linguagem "crua e humorística" tem menos pejo em mandar pastar um corrector ortográfico indesejado que faz pop up como um virus? Que o sr. Luís Graça é, na verdade, a famosa e misteriosa personagem Deniz Costa, o terror das caixas de comentários? Achará o dito senhor que quem escreve sobre sexo deveria obrigatoriamente aceitar e incorporar no seu blogue os comentários boçais dos energúmenos pervertidos que surgem como fungos sempre que o tema é... sexo? E porquê? Será porque, no fundo, na cabeça do Sr. Luís Graça, um texto cru sobre sexo está mais perto de poder/dever ser censurado do que um outro sobre lavores femininos e que, por isso, a censura exercida pelo/a autor/a do mesmo lhe surge como um paradoxo maior? Será que, no fundo, o Sr. Luís Graça é um moralista disfarçado? Sim, será?...

Posso bem ser uma trintona ingrata e mal-educada que passou pelo 25 de Abril a recitar a tabuada do dois, a beber ucais de chocolate e a tirar macacos do nariz, mas hoje reconheço-lhe, pelo menos, este mérito: o de me provocar um grande desinquietação cá dentro, sei lá, assim uma espécie de formigueiro agradável, o conseguir, através de uma exegese interpretativa mínima, ficar mais perto do pensamento dos grandes homens.

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