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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 13.09.06
estertores franciscanos*


"Lembro-me de ter visto na televisão um programa, em que uma gralha, equilibrada no braço de um semáforo que atravessava a via rápida, num momento calculado, deixa cair no asfalto uma noz que tem no bico e vê-a ser esmagada pelo pneu de um carro que passa. Depois, num ruminar estratégico digno de um Júlio César às portas da Gália, a gralha espera que o sinal fique encarnado e mergulha em voo picado para o chão, recolhendo apressadamente os bocados esmagados da noz. Recordo-me de uma outra que, em cativeiro, olha com olhos de ver um tubo de vidro estreito em cujo interior é colocado um cesto pequenino com comida. O cesto tem asa e tudo. Em cima do tubo, na horizontal, está um arame fino e direito com cerca de vinte centímetros. A gralha olha para aquilo e pensa, imagina, coloca hipóteses, xacáver. Primeiro, pega no arame com o bico e introdu-lo certeiro no tubo, mas não consegue sacar o cesto. Tira o arame, pensa mais um bocadinho, huumm, voa com ele no bico até ao poleiro, preso a uma parede comfissuras, e enfia-o num pequeno orifício. Empurra-o com o bico até lhe curvar a ponta em forma de anzol, retira-o, voa de novo atéao tubo, espeta com o arame por ali adentro e engancha a parte retorcida na pega do cesto, puxando-o para cima. Come o que estava lá dentro, ufana de se ver tão esperta.
Enquanto engole mais uma garfada de bife do lombo, recorda os chimpanzés, capazes de interiorizar um léxico superior a sete mil palavras e que, carregando nas letras de uma máquina, compõem frases como eu quero água (assim mesmo, com sujeito, predicado e complemento directo), gosto de ti ou estou triste. Sim, esses mesmos, que encarceramos nos zoos para gaúdio das nossas criancinhas, e que embalam os seus bebés, atrás das grades, como nós as embalamos a elas (parecendo, até, que também lhes cantam ao ouvido). E as formigas? que, em África, constróem formigueiros gigantes dotados de sistemas de ar condicionado cuja sofisticação é digna de um open space no centro de Manhattan.
E a minha cadela? Uma pequinois gentil que um dia se travou de amores por uma ninhada de gatinhos órfãos com empenho tal que ela, que nunca havia sido mãe, encheu as maminhas de leite e alimentou-os a todos até lhe terem o dobro do tamanho. Ainda hoje, quando brigam com o outro cão cá da casa, preto e grande, ela atira-se-lhe ao focinho atéque ele, esparvoado com tamanho arrojo, desiste dos seus intuitos trucidantes e mastigadores. E lá acaba a lamber os gatos, como uma mãe que seca as lágrimas do filho com as costas da mão e lhe sussurra pronto, pronto, já passou.
Também já vi um polvo a desatarrachar um frasco com os tentáculos e a abrir a fechadura de uma porta de entre várias, aprendendo que era aquela que lhe permitiria sair (ou entrar). E bastou-lhe uma única vez , sem estímulos repetidos ou qualquer outro engodo pavloviano, uma única vez, caraças!, e o bicho ficou a saber para sempre qual era o caminho da liberdade. E aquele mistério dos elefantes, que vão todos morrer ao mesmo sítio, e o das baleias, que se suicidam aos molhos de encontro à praia, e o dos golfinhos, que derramam ternura sobre crianças doentes e as ajudam à cura, sem nada pedirem em troca.
Por tudo isto, lamento não me conseguir livrar do pé para a mão de tantos milénios de escravidão à voragem carnívora que os antepassados me inscreveram no ADN, e de me vergar amiúde ao peso de uma gula que me deixa à mercê de um bom bife do lombo com molho à café.
Às vezes, no entanto, sou atacada pela calada da noite por estertores franciscanos e dou por mim a pensar que isto de comer animais mortos que são quase meus irmãos e que de mim diferem, apenas, por milionésimos de ADN, é assim como que uma espécie de canibalismo e que, para além de os comer, ainda os destrato com aquela sobranceria própria dos humanos, o que não está nada bem.
O prólogo é sempre o mesmo: determinada, a cada ataque sorrateiro de culpa, acabo na fila d´Os Tibetanos e finjo proveito, embora quase vomite com a consistência espumosa do tofu e do seitan. Ao fim de uma semana de jejum vegetariano a experimentar todas as receitas de massa e batata com courgettes que me aparecem nas revistas femininas, começo a ter sonhos eróticos com bitoques e alheiras de caça, de preferência com ovo a cavalo, e capitulo.
Não sem deixar de admirar profundamente quem o consegue, diga-se. Acho, aliás, que um vegan convicto se encontra num estádio superior da existência: mais perto da perfeição, de Deus ou seja lá do que for que represente aquele todo místico em que muitos acreditam (e que tem a obrigação de ser bem melhor que a mera soma das suas desgarradas partes). Mas eu por aqui continuo, no meu limbo moral privado, resignando-me à ideia de, na reencarnação seguinte, vir a este mundo sob a forma de uma aranha peluda, nojenta e potencialmente espezinhável logo na primeira semana de vida.
Não obstante esta fraqueza assumida, intuo facilmente que somos todos muito estúpidos e que, se não conseguimos deixar de os fazer sofrer para nosso prazer (nos matadouros, nas touradas, na caça, no circo), ao menos que não estejamos tão contentes com a nossa presunçosa superioridade no pódium da cadeia alimentar e tão convencidos de que somos muito mais espertinhos do que eles, os animais, essas bestas irracionais que sobreviveram ao dilúvio na arca flutuante de um velho lunático, apenas para se reproduzirem e nos servirem. 
Porque (quem sabe?) talvez as preguiças gostem de sexo tântrico e por isso demorem horas a assegurar a sua descendência; e talvez os leões, bichos gregários por natureza, tenham problemas com a sogra e já não a possam ver à frente; e os ursos, quando hibernem, sofram de claustrofobia e depois tenham pesadelos; e os pinguins, todos iguais e aos milhões, tenham crises de identidade; e os salmões, tenham tendências depressivo-suicidas e por isso venham morrer rio acima; e as baleias, saibam de facto cantar , e algumas de entre elas sejam prima donnas com direito a privilégios especiais de diva e a camarote individual; e as coelhas só tenham orgasmos múltiplos e por isso fodam tanto; e os gatos sintam um profundo desprezo pelos humanos e por isso não os olhem quando eles os chama; e as formigas não gostem de estar sozinhas; e as toupeiras sofram de agorafobia; e os cães se comportem como groupies à beira da histeria porque nos adoram e quando crescerem querem ser como nós, as pessoas, os seus maravilhosos donos.
Quem pode garantir que não seja assim? Quem? 
Talvez que o universo em que se move esta Terra onde nos encontramos mais não seja do que um grão de poeira reflectido na retina de um grilo e, este, um habitante microscópico de um outro planeta, em órbita numa galáxia diferente e encaixada num universo muito maior. Portanto, embora aí apanhar do chão um bocadinho de humildade, dessa que anda por aí espalhada, que todos espezinham e ninguém quer, assumir a nossa ignorância no que respeita a esta merda toda e ter algum respeitinho, designadamente, pelo grilo."


*algures em 2005

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