Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 12.12.07
Sob o nome pomposo de “ensaio”,

Maria Filomena Mónica (MFM) assina, na Revista Atlântico deste mês, um artigo sobre o universo das revistas cor-de-rosa, e no qual abundam números, comparações e mais números, numa abordagem superficial, típica de quem tem tanto nojo da coisa que lhe pega de pinças e a olha de longe. MFM debita uma série de banalidades, como a de que aquelas vendem "(…) imagens à volta das quais os leitores cristalizam sonhos (…)”, destinando-se a “(…) quem tem uma existência de tal forma oca que as “celebridades” são o único centro de interesse”. Aliás, poderia estar aqui a dissecar o artigo todo e a desfiar pérolas atrás de pérolas, como esta: “Em vez de pensarem nos filhos desempregados, nos maridos que as enganam, nos bairros onde vivem, nos transportes que utilizam, na curvatura da espinha a que são forçadas no trabalho, no tédio dos dias sem fim, as mulheres (…) sonham com gente bonita a viver entre candelabros que nunca se apagam”. Quer-me parecer que as operárias que curvam a espinha não terão dinheiro para gastar em revistas e que o conceito de tédio não será o que melhor se aplica aos seus dias, mas que sei eu. E já nem falo da desastrada tentativa de justificar porque, apesar da análise crítica que pretende fazer ao meio, também ela própria já apareceu por diversas vezes nas ditas revistas, que (claro) só a difamaram, as imprestáveis (será que MFM nunca ouviu falar no direito de resposta?). Mas o pior fica para o fim, com esta frase fatal: “As revistas cor-de-rosa podem distrair os leitores, mas jamais os consolarão, porque o consolo exige a verdade e não é esta que lhes é oferecida”. Nada de mais errado, credo: o consolo que estas revistas fornecem reside, precisamente, em estarem suficientemente longe da verdade para se tornarem apelativas. E não o são só, nem necessariamente, para quem tem vidas de merda: todos temos uma cabra voiyeurista dentro de nós, a saltar para que a deixemos sair, e uma bela e sumarenta revista cor-de-rosa permite que a dita escoiceie à vontade e se liberte, o que é bastante saudável. Pois é. Eu, não só leio revistas "cor-de-rosa", como as compro: são um belo interregno no exercício da minha profissão, feita de dramas humanos, raciocínios intrincados e palavras difíceis. E mais: quando o café da manhã se estende caridosamente a um galão e uma torrada, também marcham o 24 Horas e o Correio da Manhã. Tenho, obviamente, os meus limites, que são todas as revistas que só falam de novelas… pela simples razão de que não vejo nenhuma e não sei do que estão a falar. Mas voltemos ao artigo. O problema de MFM nem é tanto o de acertar ao lado (que acerta), mas mais o de não perceber (ou fingir não perceber) a realidade sobre a qual está a escrever. Parece a crónica de alguém armado em boi a olhar para um palácio e a fazer questão de não saber exactamente o que aquilo é. Ora, para se falar com alguma propriedade da questão, é preciso que, de alguma forma, se aprecie, mesmo que ao mesmo tempo se despreze, ironize e se goze.

Em primeiro lugar, quem compra uma revista cor-de-rosa tem sempre maldade no corpo (uma maldade crua e por polir, de manicura da Trafaria), um olho treinado para adivinhar os podres e uma má-língua em estado natural. O máximo conseguido por MFM, coitadinha, é uma boca (ui!) sobre Luís Filipe Menezes, “(…) o qual descobriu uma namorada na pessoa da eng.ª Maria Teresa Moas, a responsável, na Câmara de Gaia, pelo Departamento de Circulação Urbana e Transportes. A senhora tanto circulou que acabou por transportar o chefe.” (rir, portanto).

Segundo, o aspecto da fidelidade, fundamental para se perceber a constante atracção do fenómeno: eu, para poder constatar com um certo e indisfarçável triunfo que a elsa raposo está gorda, tenho que saber que ela já foi mais magra. E mais gira. Não vou, como é óbvio, gastar um euro e tal só para lançar um olhar acrítico sobre a figura da senhora, quando a vejo de abalada para Angola com o "namorado" e a dizer barbaridades como a de que vai fazer um grande "sacrifício" pelos filhos. Não: eu, atenta ao historial de miséria da criatura, sei que ela tem 3 filhos pequenos dos quais não tem a custódia. E que teve vários "abortos naturais", que não se cansou de carpir publicamente, de forma desbocada. Pensamento imediato: se acreditasse N´Ele, diria que Deus, às vezes, até sabe o que faz. E depois, rir-me-ia interiormente. Ou exteriormente, se tivesse alguém ao lado com quem partilhar a lúgubre chacota.

Este fim profilático, inerente às revistas cor-de-rosa, escapou completamente a MFM. Ou seja, que aquelas servem essencialmente para nós, mulheres (e alguns maricas) destilarmos o nosso fel natural contra as outras mulheres, sem chatearmos ninguém à nossa volta. É uma forma de podermos deixar em paz as amigas, as irmãs e as vizinhas e de com elas convivermos mais ou menos pacificamente. Até porque, felizmente, as ditas "colunáveis", quando não são objectivamente feias (as brasonadas são-no quase sempre, é um regalo), vestem-se-mal; já quando são giras e até têm bom-gosto, ou são burras ou não sabem representar, ou não sabem fazer nada na vida e subiram na horizontal. E não me venham com tretas: esta má-língua, não poucas vezes injusta e despropositada, é, de facto, consoladora. Quero lá saber de sonhar com "candelabros"! Eu divirto-me é a ver as mais recentes queimaduras químicas na cara do castelo branco, o qual, todo contente, se acha de novo com "pele de criança", chamem-me nomes. As revistas cor-de-rosa funcionam, para as mulheres, como os jogos de guerra para os homens: já que não podem sovar o vizinho, dar um tiro no chefe ou abalroar o carro do gajo que vai ao lado no trânsito, resolvem as pulsões agressivas na playstation3, e todos ficamos felizes. MFM, com os seus preconceitos de classe (operária = inculta; burguesa rica = inculta; eu = culta), limita-se a debitar clichés (talvez até com uma certa candura, admito) e passa completamente ao lado deste aspecto fundamental, que é o do apaziguamento momentâneo - mas eficaz - da cabeleireira invejosa que todas temos dentro de nós. O seu maior pecado foi, no entanto, o de me ter maçado de morte com tanta e desnecessária conversa.



A propósito, ler, aqui, uma perspectiva diferente, mais interessante e ainda por cima de graça, sobre a questão (é que paguei quatro euros pela menamónica, tenham lá paciência…).

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2005
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2004
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D