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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 18.07.06
de noite na cama *




Os dois de carranca aviada, costas com costas (coisa aí de meio centímetro), numa simetria perfeita se vista de cima, das alturas. De olhos pousados no escuro, simulavam a respiração regular de um sono há muito despejado nos sonhos: o fito não era convencer o outro de que dormiam de facto, mas sim de que o outro percebesse que o desprezo era tal e a vontade de estar ali tão pouca, que antes fingir que dormiam do que correrem o risco de serem incomodados. Era pela necessidade de lho fazer ver, a ela, que o pé dele balouçava fora da cama, propagando o movimento em ondas pelo colchão e que a mão dela se abria e fechava, agarrando o escuro da noite e obrigando-o a sentir a deslocação de ar. Prolongada que fosse por muito mais tempo a ignorância do outro e um deles desataria certamente a assobiar...

Uma melga zumbiu algures e logo as mãos dele se encontraram num plás! inesperado a mílimetros do ouvido dela, assustando-a de morte. Mas ela arrumou sob a língua seca o filhodaputa!que quase lhe fugiu e manteve-se imóvel sob os lençóis, ele esperando em vão o derrame de ofensas, como quem espera a passagem de autocarro em dia de greve.

Depois ela fungou, fingindo alergia ou constipação súbita e a seguir esticou a perna, acometida de uma falsa caîmbra, simulando o abafo de uma dor que não sentia, esperando assim gerar nele uns fiapos de simpatia ou um derrapanço na compaixão. Nada.
Ele afastou-se alguns milímetros ainda mais do calor dela, resolvendo mostrar-lhe que afinal estava acordado, ela com aquele maldito pigarreio e o esticar de perna, que maçada, e acendeu a luz. Manteve um ar misterioso enquanto via as horas, como que a dizer-lhe que era muito importante saber as horas porque talvez aguardasse com ânsia o momento de qualquer coisa que ela não sabia porque não lhe respeitava, apagou a luz com ar satisfeito e acondicionou novamente o corpo na posição fetal, aproximando-se das costas dela com o cuidado e a precisão de um capitão de navio numa aproximação àamurada do cais, mantendo os anteriores cinco milímetros, numa acostagem perfeita.

E ela, inquieta com o cheiro a derrota que invadia o quarto, marreca de saber que perdia sempre, nestas medições de força bruta por entre os lençóis, resolveu esforçar-se um bocadinho mais. Abriu a luz, ala para a casa-de-banho e vai de porta fechada na cara dele. Esperou meia dúzia de segundos (poucos, se não ele perderia o interesse e adormeceria de boca aberta, a ressonar para o tecto os cansaços do dia) e cama com ela, para onde se atirou com estardalhaço suficiente para lhe assegurar a vigília por mais um bocadinho. Pretendeu calcular mal a distância e aterrou com uma perna em cima da anca dele, que simulou um enfado-quase-nojo, descartando-a de modo urgente enquanto ela se afastava, como que queimada pela pele dele. Acabaram a pantomima apartados mais meio centímetro, que agora no total já perfazia um.

Segundos depois, ele levantou-se e ela pensou, pronto, vai para a sala e eu fico aqui acordada, e agora?, plano B!, plano B!, colou o ouvido ao colchão e sentiu os pés dele descalços a reverberarem-lhe no peito, queres ver que vai mesmo? não acredito, por favor não vás!, ele saiu do quarto, fechando-lhe a porta atrás de si e ela a engolir um grito, obrigas-me a levantar, sabes que detesto portas fechadas, levantou-se para abrir a porta e deu de caras com ele, fui buscar um copo de água, justificou-se, ah! para a próxima não me feches a porta, sabes que eu não gosto, desculpa não me lembrei, pumba!, mais um ponto de avanço, sacana, e deitou-se fingindo saciedade, que não preciso de mais nada para um soninho descansado.
Derrotada, ela ajeitou a almofada num agoraéqueé, a raiva desvastando-lhe a flor da pele, acelerando-lhe as sinapses e o bater do coração, pum pum pum, queresverqueogajoaindaouve e, rendida à evidência do desprezo dele, fechou os olhos, decidida a dormir a sério. Mas logo lhe sentiu o pé, tremelicando-lhe no tornozelo e suspirou, lávamosnósoutravez.

E então, perante a súbita consciência da infantilidade bacoca e do ridículo daquela valsa de vontades no escuro, daquela tola semiótica de colchão, atacou-lhes o riso. Mas um ataque daqueles sérios, repescados das entranhas e fisgados para fora com a força e a perícia de um pescador de espadarte em dia sim. Atravessados pelo pânico, engoliam o ar às golfadas, para dentro! para dentro!, mas era tarde de mais: a cama desatou num estremecimento incontrolado e ele era cabeceira, colchão, ombros, gargantas, pescoços e mãos, num terramoto de riso que rebentou as escalas, de mercali, de richter e o diabo a sete. Escorreram-lhes lágrimas cara abaixo, cuspiram-se gargalhadas na cara um do outro e, noestertor da alegria que se lhes vazava por todos os poros como bexigas furadas, misturaram-se-lhes pernas, bocas, pés, bacias, externos, cabelos, lágrimas e fluidos vários.

Escusado será dizer que adormeceram abraçados e acordaram tarde que se fartaram, dia seguinte.


* de uma canção de Caetano Veloso

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