Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 18.07.06
erro de casting



Hoje, convence-se de que </font>não o viu porque não o quis ver, apesar da vigorosa certeza, martelada dentro dela por uma convicção marceneira, de que, no seu campo de visão, não se encontrava ninguém que correspondesse à ideia que fizera dele.
Relembra o momento como se fosse o ainda. Alheia aos mistérios da semiótica escondidos na escrita críptica de Umberto Eco, balança o olhar entre as transparências do gin tónico (amolecido pelos minutos a mais), as espessuras do rio à sua frente e os gestos voláteis dos que chegam e se vão sentando. Abre e fecha o livro ao ritmo do próprio pêndulo que lhe deu o nome, ajusta os óculos escuros à cana do nariz com uma urgência distraída, emudece com a língua os lábios secos da espera e vira-se de quando em vez para a porta da entrada, não vá ser surpreendida enquanto finge que não se surpreende.

Ele jura-lhe que sim, que esteve lá, que a fitou intensamente, que se corresponderam por segundos através das lentes escuras com protecção UVA; ela garante-lhe que não, que varreu a superfície de todas as mesas, de todas as cadeiras e seus ocupantes, como a luz de um farol varre a superfície do mar numa noite sem lua, mas não, não o viu. Decerto ele não fora, haveria um engano qualquer. Ele insiste, confuso; confirma-lhe a presença invisível, descreve-a, e ao seu movimento pendular; fala-lhe das suas mãos a braços com o copo de gin, do livro emaranhado de letras a fazer de mero adereço, e do rio ( corrente de propósito acusador, pensa ela, que lhe aponta o dedo à passagem e lhe torce o nariz de desdém).

Enquanto lá está, a ela às tantas (e embora bafejada por uma maresia ventosa), falta-lhe o ar e mirraram-se-lhe os pulmões, como se Lisboa à beira Tejo mais não fosse do que um gigantesco elevador encravado entre andares; ganha-lhe terreno uma impressão levezinha de pânico, muito leve, só as pontas dos dedos do pânico, melhor, só a ponta do dedo mindinho do pânico, a roçar-lhe a nuca e as palmas molhadas das mãos, enquanto o estômago se lhe emperra na tentativa de centrifugar o meio gin engolido sem fé.

E pronto, o arremedo do medo afia-lhe a atenção como a ponta de um lápis e aguça-lhe os sentidos, e ela, dotada de uma súbita super visão e talvez de outros poderes, separa-se de si mesma e, pairando sobre as águas do rio emfrente (que lhe franze as sobrancelhas), observa, analiticamente, a apneia pendular que domina aquele corpo que lhe é exterior, ora debruçado sobre a mesa, ora a girar sobre si próprio. Vê-se sentada à mesa, desgarrada, desfazada e fora do contexto daquilo tudo; fecha os olhos, cede aos murmúrios do rio (que corre em baixo num tom de censura) e recusa-se a olhar à volta e para além de si própria, dando por finalizado o tempo de antena do faz-de-conta.

Porque é nesse momento - nesse exacto momento - que se abate sobre ela a consciência de a sua presença ali resultar de um flagrante erro de casting, do qual se teria decerto apercebido mais cedo, não fora o barulho das luzes e aqueles arrepios todos colados à pele, decalques da ideia que fizera dele.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2006
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2005
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2004
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D