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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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...

por Vieira do Mar, em 18.07.06
time sharing




Aquilo fora um erro, um tremendo erro. Haviam decidido não vender a casa de férias, partilhá-la à semana, primeiro tu, depois eu, assim os miúdos sentem menos, está bem, mas quando chegar com eles não te quero ver por lá, já sabes, tira as tuas coisas todas, não quero os pêlos do costume a boiar no ralo nem a tampa da sanita levantada e muito menos a máquina atafulhada com loiça seca, quero tudo impecável, está bem, estábem, não te preocupes, e podemos levar outras pessoas, afinal, somos livres de o fazer, sim, mas temos que ter cuidado com os miúdos, cuidado, claro, claro, há que ter a certeza, de quê?, bem, de que a pessoa que trazemos connosco é, pelo menos, uma relação estável, para não os traumatizarmos, aos miúdos, pois, sim, está certo, pois, tens razão, então, fica assim combinado, uma semana a cada um.

Mas, mal metera a chave àporta e logo o vislumbre das paredes brancas lhe gritou aos ouvidos que aquilo fora um erro. Gritava-lhe tanto, mas tanto, aquele relance do que fora tão vivido a dois (depois a três e por fim a quatro), que quase a ensurdecia, como uma frequência baixíssima que apenas ela ouvisse, um apito inaudível que enxotasse um animal indesejado.

Os miúdos, esses, correram por ali dentro, aliviados pelo fim da tensão que supusera a troca de mãos do dia anterior, a deslarga do pai seguida do agarranço da mãe.

A separação havia sido amigável a bem das crianças e a cordialidade entre ambos amaciara-lhes a queda, mas a aparente normalidade soçobrava sempre naqueles momentos de troca, de transvase, quando passavam de um para o outro. Porque era então que elas se apercebiam de que os pais já não se sentavam lado a lado no sofá da sala, e que já não lhes bastava dar um golpe de rins para aterrarem no colo de um ou do outro: agora, cada sessão de abraços precedia minuciosas negociações e cada carreirinha de beijos obedecia a uma estratégia previamente planificada (uma maçada um tudo nada dolorosa, como uma picadinha de insecto).

E a vida lá ia seguindo, quase sem mossas, e ali estavam eles outra vez, com a mãe na casa da família, no mesmo sítio onde haviam estado com o pai toda a semana anterior e com a mesma mãe, na semana anterior àanterior. Era um bocadinho estranho, só isso, um bocadinho estranho, esta coisa de se revezarem nas brigas e nos afectos e de terem de contar a mesma história duas vezes, mas era bom na mesma, afinal, férias eram férias e a praia estaria, como sempre, à espera deles, sem nunca os desiludir (ao contrário de certas pessoas).

Ela viu-os disparados na direcção dos quartos e deixou-se ficar para trás, arrastando os pés e as memórias, que entretanto lhe explodiram à frente dos olhos como um fogo de artifício, daqueles gigantescos de comemoração centenária. Correu as paredes vazias e atentou nos contornos empoeirados onde antes haviam estado, emolduradas, imagens de dias mais felizes, retiradas de comum acordo porque desprovidas de sentido, à luz do estado actual das coisas lá deles. Nada de pessoal, haviam-se pedido, nada que nos lembre sorrisos, passeios, nem amores a quatro e muito menos a dois, como uma casa que se alugue a estranhos. E assim fora: entrava na sua própria casa como uma inquilina, a apalpar os cheiros e as formas.

Decidira-se a dormir no sofá da sala, que a ideia de se deitar na mesma cama onde, dias antes, ele havia quase de certeza estreado acrobacias de amor, não lhe era por enquanto suportável (devia ser mais bonita do que ela, mais nova, mais alegre, a outra...). Precisaria, no entanto, de usar a casa de banho, para o que teria que atravessar o quarto de casal (de que casal?). Tirou toalhas lavadas e a necessáire da mala de viagem que fora de ambos (agora demasiado grande, demasiado vazia) e entrou, evitando a visão da cama que guardava tantos suspiros e silêncios embrulhados, planando sobre o soalho e sustendo a respiração como quem atravessa um pântano sulfuroso. Quando aterrou por fim na casa-de-banho, o cheiro a ele atingiu-a como um insulto, uma ofensa grave, rasante e demolidora; poderia relatar, com a minúcia de um técnico forense, que partes do corpo dele haviam andado por onde e a fazer o quê.

Olhou para o espelho e viu reflectido nele o desconforto triste por se sentir ainda a metade de qualquer coisa (só um braço, uma perna, um só olho, meio nariz...) e apenas os risos de satisfação dos miúdos no quarto em frente a impediram de correr dali para fora, fechando as portas todas atrás de si, a cadeado, a sete chaves, a ferrolho e aldraba de castelo.

Nessa noite, depois de um pedaço de pizza mal engolido num espaço sobrelotado e de duas voltas a uma feira de artesanato mexicano made in china, depois de adormecida a excitação infantil à custa de promessas de praia, abancou sorrateiramente no sofá da sala, com um lençol por cima das pernas e o comando da televisão na mão, de costas para o corredor e disposta a ignorar a verborreia sussurante do passado que se fazia ouvir dentro dela, como burburinho de mercado por janela entreaberta. E foi então que, a meio de um episódio das marésvivas, o mais novo lhe apareceu à frente num queixume estremunhado de sede e, ao vê-la ali deitada, lhe perguntou por entre bocejos, mãe, porque é que tu e o pai, agora, dormem sempre sozinhos no sofáda sala, quando nos trazem para a casa de praia?

E, no escuro, ela sorriu, vá, anda lá que eu dou-te um copo de água.

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