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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 18.07.06
no aeroporto



Ele esperava, mãos nos bolsos, mãos fora dos bolsos, os dedos ao correr da bainha do casaco num samba trôpego de caixa de fósforos; os olhos olímpicos, a sprintar a sprintar, no placard das chegadas, para cá para lá, para cá para lá, delayed, on time, cancelled, delayed, on time, arrived, arrived. Gastara já o maço que não fumara, nunca fumara, que jeito lhe daria, agora, um viciozito, um andarilho, um apoio qualquer, para os sentidos em alvoroço que lhe tricotavam a pele de galinha.
Haviam passado três meses. Três meses, apenas, e os olhos dela sabia-os castanhos porque conhecia a cor castanha, que era a do chocolate derretido nas mãos daquele miúdo colado à mãe desatenta, que também esperava alguém (Ou, se calhar, esperava, como ele, os contornos esbatidos de alguém). Mas, na verdade, não recordava os olhos dela, esquecera as especificidades dos rebordos exteriores, o palpebrar afirmativo, as pestanas loquazes; esquecera-se dos segredos escondidos naquele pestanejar altaneiro, de quem olha do cimo da torre da Igreja a paisagem ao redor, em óbvio conluio com as cegonhas residentes e abarcando todas as coisas. Sabia que eram castanhos e que eram olhos, os dela, nada mais. Hesitava igualmente na cor dos cabelos... cedeu à tentação de espreitar a foto tipo passe, que dormia e ressonava num recanto da carteira, não podia ter-se esquecido, caramba! Algures entre o ruivo e louro, queimados pelo sol, um molho de trigo tardio, por colher, seria natural, o tom dos cabelos dela?Que absurdo, tanto tempo juntos e nunca se lembrara de lho perguntar... Cheiravam bem, cheiravam sempre bem e ele sabia a quê, mas não conseguia reconstituir-lhes o odor, como florista constipada que cheirasse uma rosa. As mãos eram compridas, sim, espera, mas os dedos eram curtos, então, decide-te, mãos compridas e dedos curtos? Olha, que se lixe.

E, de repente, lá estava ela, arrived, assim, escarrapachado, a piscar, no placard, e pronto. Face à inevitabilidade do reencontro, deu-lhe o pânico, quis fugir, faltou-lhe o ar; inspirou fundo, limpou-se do suor que lhe cascateava pelo corpo mas escapou-se-lhe um fio salgado, que escorreu vértebras abaixo. Como haviam tido a veleidade de achar que um oceano entre eles, durante alguns meses, seria coisa pouca, um mosquito fraquinho a picar em vão a pele de um amor que eles pensavam endurecido, resistente às nódoas, curtido pelos anos?

Que ingénuo fora. Onde estava agora a imagem dela, onde? Quem era aquela do lado de lá do vidro da alfândega, à espera das malas onde trazia consigo as memórias dos meses que eram só dela e que não eram dele? Traria dentro de alguma a cor dos olhos de alguém, um pestanejar corrido ao sabor de beijos roubados? E escondido na necessaire, entre a a água de colónia e o creme de noite, traria o cheiro palpável dos cabelos de quem? E dentro do livro que viera a ler no avião, a marcar a página, estaria a lembrança perfeita de uma outra mão, com dedos medidos a regra e esquadro? Talvez. Talvez a distância, afinal, não consolide nem prove nada, talvez seja filha da mãe e se de finja amiga e depositária de tesouros, mas de facto nos impeça de nos desvelarmos e de acarinhar o que está longe.
Pronto, estava decidido: a distância era, sim, o maior de todos os males, o inimigo declarado, mas a distância física, mesmo, aquela feita de passos em sentido contrário, aquela que transforma íntimos inseparáveis em estranhosinimigos, costas com costas, contando e andando, um, dois, três..., sempre a contar e sempre andar , cada vez mais longe um do outro, até se esquecerem das razões pelas quais se queriam bater e se esfumarem no nevoeiro matinal sob o peso da lonjura.

Lixada, esta coisa da lonjura. Dos quilómetros entre. Nunca deixem que lhes digam que não é assim, que um verdadeiro amor resiste a meses, a anos e a quilómetros a fio. O tanas, é o que é. Porque os amores nunca são um só, são dois, três, vários, e solidificam uns sobre os outros: se, quais arqueólogos, os desenterrássemos a todos, cavando para baixo e na vertical, e se os datássemos com carbono como ossadas, veríamos que se encontram em camadas sobrepostas de mil-folhas, agora um, depois o outro, que cobre o primeiro, um terceiro, que enterra o segundo, e por aí fora.

É que a nossa natureza, carente e voraz, espreita sempre por uma aberta para ferrar o dente e não está para grandes esperas nem solilóquios de ausência.. Os braços pedem abraços, as pernas pedem encostos, beliscões e entrepernas, os olhos gritam por queixos, unhas pintadas e pontas de narizes queimadas pelo sol, o sexo demanda línguas, mãos, arrepios e outros sexos, enquanto a cabeça demanda tudo isso e muito mais.

O Amor é fácil, é um gajo dado, oferecido, está sempre disponível, faz-se promoção, vende-se com desconto, é de quem o apanhar. É planta baratucha, atrofiada em vaso de plástico, das que dispensam estufas e resistem a geadas, pedindo gotinhas de água e bocadinhos de luz. Que o que o Amor almeja, no fundo, é apenas fotossíntese. Fotossíntese e basta: toma lá, dá cá, troca por troca, estás bonita, já sabes da última? vamos almoçar? despe-me as cuecas, faz-me uma massagem, senta-te aqui, fiz-te uma torrada, hoje não quero, a tua mãe é uma chata, beija-me a nuca, vamos ao cinema, não me interrompas, abre as pernas, muda de canal, queres sumo ou cerveja? hoje passeias tu o cão, dá-me uma massagem, já leste isto? amanhã vamos de férias, trouxeste-me o que te pedi?

Olha, é ela, está ver se me vê, parece diferente, não percebo se para melhor ou pior, não lhe vou dizer nada, será que me reconhece?Enquanto ele fingia inspeccionar, com interesse de antropólogo, o cromatismo dos trajes da queniana que o circundava com o seu perímetro de cintura alargada, ela vislumbrou-o e, topando-lhe a farsa, aproximou-se dele e murmurou-lhe um psst ao ouvido direito. Ele virou-se, num surpreendido quase perfeito (não fora aquela antecipação de um milésimo de segundo) e abriu o rosto num sorriso de boas vindas de guia turístico com letreiro ao pescoço. Abraçaram-se circunstancialmente, deram-se dois beijinhos na cara, ele pegou-lhe no carrinho que lhe transportava as malas e dirigiram-se ao parque de estacionamento, calados.

Não a conheço, já não sei quem é. Hesitou no que fazer. Às vezes, pensou, mais vale depositar uma nova camada sobre a anterior e começar de novo, porque o nosso eu antigo, quando cristaliza no que faltou ou houve a mais, não permite retomas nem acrescentos. O que quer que tenha existido antes, está enterrado para datação futura, essa é que éessa. Pousou o carrinho, olhou para ela, sorriu-lhe de verdade, com os olhos todos, fixou-lhe as pálpebras para todo o sempre (pensou-o então) e disparou-lhe, com a solenidade própria de um desconhecido, Olá, prazer em conhecer-te. Ela percebeu-lhe o esquema, a manobra, o reviralho, o génio da ideia, a intenção e a perfeição de tudo aquilo e retorquiu, Olá, o prazer é todo meu. E ele, Queres jantar comigo? Ela, Terei de consultar a minha disponibilidade de agenda.

Explodiu-lhes, então, um fogo de riso de artifício que lhes abriu, ziiip!, como um fecho de correr, o peito até então oprimido pelas memórias esquecidas que ambos haviam passado o dia a catar no pó, como duas galinholas tontas, e lá foram, descobrir-se, num estranho blind date.

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