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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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...

por Vieira do Mar, em 18.07.06
a osteoporose das palavras



Ultimamente, as palavras soavam-lhes esburacadas e as conversas surgiam minadas pelo vazio mais elementar. É certo que as meras conveniências lhes saíam certinhas e em fila-para-o-pão, umas atrás das outras, respeitosas e educadas; mas as frases sobrantes (e que eram todas as outras) traziam sempre um significante a milhas do significado. Um olábomdia que era disparado como um fodasseaindaquiestás, um adeusatéamanhã que era mais um hojedurmonosofádasala, ou um vouchegarmaistarde que soava a nãomapetecejantarcontigo.

E assim por diante, lá iam vivendo os seus ritmos solares, separados por crateras de repente vazias e regendo-se ambos pelo mesmo dicionário de significados ocultos, incapazes de verbalizar o rancor ou o que fosse que lhes corroía os ossos. Nunca chegaram a perceber como a borda se esboroara e haviam mergulhado naquele buraco negro aberto no meio do chão da sala de estar; um buraco que era o oposto do amor, a anti-matéria, a anti-carne ; que era, no fundo, o contrário do ser qualquer coisa. Falavam-se enquanto olhavam para a televisão, para o jornal ou para as paredes, alheios à ausência das respostas que não pediam; utilizavam-se de um léxico reduzido, forretas em adjectivos e esparsos nos verbos (fui. vou. cheguei. saio. fico. demoro. telefono. durmo.), assim satisfeitas as necessidades básicas da fala e assegurados os serviços mínimos do convívio matrimonial. À greve das palavras juntara-se a greve dos toques, dos cheiros e das cumplicidades, numa paralisação geral que reunia todos os sindicatos do sector amor e indústrias adjacentes.

Nenhum soubera ao certo quando a doença começara e por qual deles se disseminara primeiro, contagiando depois o outro com a virulência de uma febre hemorrágica. Talvez depois daquela última discussão em que ambos tinham gritado um bocadinho mais alto e dito coisas um bocadinho mais imperdoáveis do que as do costume; sim, essa! em que resolveram arriscar o arremesso de duas ou três verdadezinhas de pouca monta, demasiado parecidas, no entanto, com granadas de mão: só fazem estragos quando as sacamos do bolso, lhes puxamos a cavilha e as atiramos com o fim de rebentar alguma coisa. Teria sido isso? Ou teriam apenas gasto as palavras (como dissera o poeta) naquela puta manhã de desgoverno? Não sabiam. Certo é que, finda a guerrilha e o rastejo no mato conjugal, haviam se remetido ao silêncio. Apenas. E uns dias foram chamando os outros, baixinho, de assobio, péantepé, como quem não quer a coisa e passa de manso pelo corredor, à noite, até chegar à cozinha sem acordar ninguém.

Um dia, a propósito de um recado que ele trazia para ela, foram obrigados a se atentarem de novo, olhos nos olhos, eu-emissor-tu-receptor, e ali se retomaram, pegando-se onde se haviam largado, no embalo das palavras que lhes chegavam e lhes pousavam na língua, como as primeiras andorinhas nos beirais, primeiro nervosas e envergonhadas e, depois, em bandos, às revoadas, milhares de asas conversa fora. E, num ápice, como se engolissem litros de leite de uma vez e se atestassem de ferro e cálcio por toda a vida, curaram-se do que os minara por dentro, sem bem se aperceberem de que, por todas as palavras que haviam dito a mais, haviam sofrido o correlativo calvário das palavras a menos, num superavit que redundara em déficit, e que a sobrevivência do que tinham juntos era apenas uma questão de equilíbrio natural, como acontece com qualquer espécie animal.

Porque o amor, como todas as coisas periclitantes no limiar da sobrevivência, é uma bailarina em pontas, um trapezista, um bêbado que se poupa a testa ao candeeiro de rua, um beija-flor num ramo em dia ventoso; e esta coisa do bem-querer-até-não-mais-poder, ora lhe dá de frente ora empurra de trás, tanto puxa daqui como empurra dali e, quando chega acolá, já está outra vez de partida. Porque o amor (embora eles não o soubessem) éuma balança antiga de mercearia com todos os seus contrapesos de ferro: neste prato, quinhentos gramas de conversa, no outro, cento e cinquenta de silêncio; para quatrocentos gramas de abraços e cinquenta de chupões no pescoço, cento e vinte gramas de tédio e trinta e cinco de coisas que nunca deveriam ser ditas.

E foi então que, nesse fim de tarde, depois de esmiuçado o recado até à sua improvável minudência, numa riqueza descritiva seguramente não prevista pelo mandante de coisa tão simples, se ofereceram um quilo de paixão avassaladora, entremeado por duzentos e cinquenta gramas de filmes no sofá, cem de riso à toa e setenta e cinco de interjeições e expressões idiomáticas, no caso, perfeitamente dispensáveis.

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