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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 02.12.05
(sei que estás aí)


Estás aí, sei que estás aí: porque disfarças e desconversas e assobias marchas e hinos para o ar, como quem não quer a coisa, se eu sei que és tu, esse ser ínfimo de olhar esquivo, fato cinzento de mau corte e expressão rubicunda, que se esconde atrás das centenas de arquivos amontoados, onde guarda a informação catalogada sobre mim. Sei que vives para relativamente pouco: para me releres os pontos finais, subentenderes frases simples de direcção única e para me dissecares as palavras, as horas e a anarquia dos meus rituais, debaixo de uma luz potente de halogéneo, das que alumiam um estádio inteiro. Fica aí, fica, de nariz colado ao ecrã, feito lupa de aumentar, a rasgares os meus céus com os teus olhos de radar, em busca de um sinal da minha loucura, do meu perdão, do meu esquecimento, do meu jantar de ontem ou da copa do meu soutiã (que gostarias que fossem os teus dedos abertos).Estás à vontade: usa os teus contactos privilegiados, cobra favores, promete mundo e fundos; pespega-te ao que escrevo como um fóssil jurássico, bebe os programas que vejo, os livros que leio, as músicas de que gosto, aproxima-te mais e mais e depois afasta-te, que isto queima e eu mordo; são dois à bailarina, três à tesoura, quatro à caranguejo, quantos queres?, afinal, o rei manda e o rei és tu, não querias mais nada, rei das tatuagens laváveis, das mal-amadas que suspiram por um émulo teu, dos espiões imperfeitos, dos amanuenses, dos coleccionadores de borboletas e dos condóminos do prédio em frente, que não têm janela indiscreta. Não passas de uma máscara, com pretensões a imiscuir-se nas glândulas sebáceas alheias e eu, em querendo, basta-me esfoliar-te com energia, mas, afinal, é Natal, e a caridade também se mede por aqui, portanto, podes ficar, que eu deixo. Passeia-te, pisa-me as palavras com as tuas botas cardadas de soldado-vigia, marca-me o ritmo das frases com o passo do teu andar, enjaulado e nervoso. Fica, que eu deixo, é época de perdão, apesar dessa tua estranha mania de, com meia dúzia de palavras calculadas, encantares os incautos e construíres barreiras de estrada com que provocas desastres de automóvel no gelo. Aposto que cortas meticulosamente as unhas e sacodes com asco cada grão de pó que se te deposita no colarinho. Pois fica sabendo (nunca o escrevi aqui) que às vezes deixo crescer as minhas como garras e depois pinto-as de roxo e roo-as até ao sabugo, num ataque de fúria ou saudade; e que deixo que o pó se me cole à entrada das narinas, pois não espreito o cimo dos armários; e que acarinho os ácaros e nunca espirrei alergias mas, se um dia tal me acontecer, serás o primeiro a saber, prometo avisar-to por mail: enviar-te-ei o ranho e os perdigotos em ficheiro anexo. E digo-te mais: que me rodeio de camadas e camadas de pó, onde escrevo letras ao acaso com as pontas dos dedos, tentando em vão formar palavras com o teu nome dentro.

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