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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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a senhora dona

por Vieira do Mar, em 12.05.11

Era fininha, fininha como um espeto, duas pernas que se esfumavam dentro de uns jeans apertados, o ar atarantado como o de um pássaro preso e um filho adulto, esquizofrénico, do qual era o único sustento e suporte. Trabalhava a dias por necessidade, parece que em tempos tivera uma vida boa que perdera e, pela aparente dificuldade em se colocar lado a lado com os outros, alguns supostos pergaminhos. Quando conheceu a patroa, uma doutorada sem peneiras e sem filhos, que mais facilmente escrevia um ensaio sobre as moléculas do ácido desoxirribonucleico, do que passava uma blusa a ferro, poucos anos mais nova do que ela, tratou-a pelo nome próprio. O primeiro nome. A patroa deixou passar, viu-a perdida numa casa tão grande para uma só pessoa, é o primeiro dia, se calhar não ouvi bem. Chamou-a, senhora dona Cristina (como tratava todas as mulheres com quem não privava e às quais não conhecia título especial), disse-lhe quais os principais afazeres,  porque da lida da casa o que sabia resumia-se à house made uma vez por semana, à lavandaria que ia a casa e à fast food ao domicílio enquanto perdia a vista ao ecrã do mac a investigar coisas difíceis de pronunciar e, de quando em vez, a espreitar sites porno onde aliviava a solidão nocturna e se investigava por dentro. Dia seguinte, novas instruções. Está bem, Margarida. Segunda vez, e a senhora dona bem sabia quem ela era, uma erudita, uma quase professora, Mestre, já Doutora. Nunca puxara dos galões, nunca. Só nos meios académicos, quando incorrera no erro de seduzir um aluno, um finalista que já se achava doutor, repetente, que se preocupava mais com o rugby do que com as aulas, mas de conversa estava ela então farta. Nenhum queria mais do que aquilo que teve, ou talvez ele quisesse, porque, quando se cruzavam nas escadas ou nalgum evento académico, segredava-lhe coisas ao ouvido ou piscava-lhe o olho, atestando perante terceiros uma familiaridade que rapidademente se dissipou com um valente chumbo numa oral por ela presidida. Mas, recapitulando. Aqui estava ela, a Margarida, com a senhora dona. Nos primeiros dias, e como, apesar de ser fraca de corpo, até limpava bem, evitou diálogos directos a fim de não confirmar as suspeitas e ter de lhe dizer qualquer coisa. Seguida do despedimento, claro, porque estas coisas não se ensinam nem se aturam. E uma ressabiada em casa, ainda por cima com necessidades e a achar-se brasonada, começava-lhe na lingerie e acabava sabe-se lá onde, a ir ao cheiro do que um dia tivera. Porque não era uma questão de pedantice. Vejamos. Tinha a ver com o significado da inversão de papéis, pouco saudável, patológica, anormal. Uma falta de respeito perante quem ela respeitava. Por exemplo, a senhora dona nunca deixava o relógio, os óculos, o telemóvel e a carteira na casa de banho social, onde devia fazê-lo, como as outras antes dela. Pousava-os na mesa da cozinha, bem no centro, como que a ocupar provisoriamente um espaço que não era dela com os seus pertences. Margarida sabia que a senhora dona trabalhava para outras amigas (aliás, havia-lhe sido recomendada por uma delas), espalhou a estória e as amigas, cada vez que se referiam a ela perante a senhora dona diziam a Dra. Margarida isto, Dra. Margarida aquilo. Nada resultava, orelhas moucas. Um dia, resolveu pô-la à prova e chamou-a. Sim, sraaaaa.hammm...seeee nhor a Margarida? Percebeu que aquilo andou ali a mastigar no interior da criatura, mas que, por altivez, estupidez, ou defeito na língua, não se convencia a dizer o famigerado doutora, como se fosse uma blasfémia. Margarida virou-se para ela com o melhor sorriso do mundo. Senhora doutora Cristina, preciso que volte a limpar as banheiras que ficaram sujas. A senhora dona arregalou os olhos para o lado contrário e por instantes parou-lhe no peito o coração onde se convencia que corria sangue azul, mas não se desmanchou e rapidamente lhe retorquiu, Está bem, Margarida, fungando bem alto como se fosse alérgica aos títulos académicos. Margarida nunca pensou que ela tivesse o atrevimento. Olhou-lhe para os ossos ilíacos que lhe furavam as calças, para as mãos desenhadas a veias, os caracóis desgrenhados, o olhar que desafiava a parede e soltou uma gargalhada que era raivosa, embora não parecesse. O raça da anoréctica altiva dera-lhe uma abada, e das grandes. Senhora Doutora Cristina, continuou a sorrir-lhe, vai levar um aumento, pois acho que não lhe ando a pagar o que merece. Engoma-me os colarinhos e os punhos das camisas de seda como ninguém, isto só as criadas de antigamente! E, já de saída, preparada para chumbar meia dúzia de desgraçados nas orais do dia pela afronta da empregada, virou-se para trás e rematou, numa voz doce: e limpe a sanita em profundidade, por favor, os meus intestinos não têm andado nada bem.

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