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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

o verdadeiro post do dia da mãe (com outras coisas à mistura)

por Vieira do Mar, em 03.05.11

 

O que vivi nestes últimos dois anos, três anos, dava para uma vida inteira. De bons, excelentes, e de maus, péssimos momentos. Quando tomamos uma decisão nem sempre temos noção das consequências a médio e a longo prazo que a mesma pode ter na nossa vida e na dos outros. Perdi imensas peneiras e, ao me ver na posição de certas pessoas que antes criticava, aprendi a não ceder ao pré-juízo imediato, ao facilitismo moral. Continuo irredutível em certas posições e há princípios que sempre defenderei com unhas e dentes, mas estou claramente mais soft, mais compreensiva com as fraquezas humanas. E, paradoxalmente, mais forte. Porque o que não nos mata torna-nos mais forte, é um facto. Este intróito para dizer que não entendo porque, a cada vez que se dá uma picardia (por exemplo) na net, ambos os lados insistem em mostrar que são mais felizes, melhores, com vidas imaculadas de desgostos, de depressões, de perdas. Isso é particularmente notável nas conversas de mulheres. As outras gostam sempre de mostrar que, se nos metemos com elas (mesmo quando o que acontece é o inverso), é porque não temos vida própria, somos uma desgraça no amor, estamos sozinhas, umas pobres coitadas, vá. Ao contrário, elas são absolutamente felizes, têm companheiros perfeitos, vidas profissionais preenchidas e são pessoas importantes nos círculos onde se movem, pelo que o que nos move é o ressaibo e a inveja. O problema é que toda a gente diz e faz o mesmo, o que afecta a credibilidade das declarações. Ninguém admite, sim, meto-me contigo porque disseste uma coisa que me fodeu e não, não tenho nada melhor para fazer, estou na ressaca da minha última relação falhada, o meu trabalho é uma merda e ao menos falar mal de ti distrai-me das diatribes do chefe, das nails roxas da colega do lado a baterem no teclado e dos queixumes da hipocondríaca do outro lado. Sim, sinto-me frustrada porque a vida não me correu como queria, porque estou desempregada, sofri uma depressão e andei meses encharcada em comprimidos, porque às tantas não conseguia adormecer sem um gin tónico no bucho e meia dúzia de lorenins. Ninguém é pior por ter sofrido, tal como ninguém ganha aos outros por ser feliz. Ao contrário do que afirmam esses livros de treta da auto-ajuda e da motivação pessoal, a felicidade é geralmente fruto de um belo acaso, em que coisas boas se conjugam na nossa vida: encontramos a pessoa certa, realizamo-nos como mães, gostamos do trabalho que fazemos, temos amigos que valem a pena, somos apreciados e reconhecidos pelo nosso semelhante. É claro que temos de fazer por isso, a coisa não vem ter connosco de mão beijada, mas o mérito nunca é todo nosso. Conheço pessoas maravilhosas a quem aconteceram coisas terríveis. E vice-versa. Isto para dizer que desconfio sempre dos gabarolas da vida perfeita, que a usam como arma de arremesso. Embora me lembre que, em tempos idos, eu mesma o fazia. Mas, lá está: anos passaram, uma torrente de vida abateu-se sobre mim e aprendi que, mesmo quando estou feliz, é feio atirá-lo à cara dos outros. Quando não estou, e se o faço à mesma, é apenas patético. Por isso já não o faço. E aprendi ainda que isso não me enfraquece, antes pelo contrário: a honestidade  é um upgrade de personalidade (além de ser obviamente uma forma de poder): hoje, neste exacto momento, posso não ser mais feliz nem andar a pular alegremente pelos campos da vida, mas sou uma pessoa melhor. E mais bonita do que quando tinha trinta anos. Sim, juro, é verdade: estava bem mais gorda nessa altura, pois tinha o corpo saturado de bebés e dos excessos amorosos e alimentares que celebravam alegremente aquela vida toda que jorrava subitamente de mim (além de que nós, arruivadas sardentas, disfarçamos bem as rugas).  :)

(foto minha)

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