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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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you eat potato and i eat potato *

por Vieira do Mar, em 20.01.11

 

As pessoas não mudam. Esqueçam: não mudam. Nem por amor, nem por dinheiro, nem mesmo por outra imaterialidade ou materialidade qualquer: não. Podem largar a pele, encarnar noutras, metamorfosearem-se, temporária, provisoriamente, só por um bocadinho, às vezes vidas inteiras, mas não mudam. A natureza está nelas a ferro e fogo,  como se nascessem com a fé ou com a falta dela. Normalmente, é o amor que as demanda: o outro exige-lhes nada menos do que a perfeição; idealizarem-se parceiros durante meses e anos tem depois destas coisas: só queremos do bom e do melhor. Além de acharmos que a tanto temos direito, o que é totalmente verdade. Tornamo-nos tirânicos, comportamo-nos como novos-ricos com o nosso amor, fazemos-lhe exigências absurdas, assim tipo mandar o empregado do restaurante equilibrar a flute do champanhe na ponta do nariz. E depois, somos contraditórios, tal a nossa arrogância de amadores: queremos as coisas à nossa maneira, independentemente da vontade do outro, embora lhe perguntemos se está bem assim, numa aparência de democraticidade que comove. Só para que o outro, seguindo as regras do jogo senão lixa-se,  diga que sim, que está muito bem. Mas também não pode ser um assentimento a roçar o submisso, o imediato submisso, que assim perdemos o respeito e o outro lixa-se à mesma. A coisa tem de ser de tal forma hábil que pareça que aquelas duas vontades se encontram por acaso no firmamento e puf!, delas saíu uma determinação comum inabalável. Já a oposição frontal e desafiadora pode ser fatal, daí que o não querer o mesmo que o outro quer tem que ser uma ideia largada devagar, como um lais de guia suavemente a desfazer-se enquanto o barco aquece o motor e se afasta no silêncio das águas escuras. Primeiro, lançar a dúvida razoável, antes de contra-argumentar; ver a hesitação fermentar no outro, apanhar o flanco desguardado e acrescentar mais um ou outro senão, fazendo-o sempre crer que a dúvida brotou expontaneamente da sua argúcia e raciocínio e não que lhe foi subtilmente incutida. Assim se vão mantendo os equílibrios do mundo, os do amor e os outros. Com base na mentira, no compromisso, no jeitinho, no carrega ali e empurra aqui, no aguenta além. Isto é assim porque as pessoas são todas diferentes umas das outras, logo querem coisas diferentes: para si e dos que as rodeiam. E não mudam. Mas como se querem e se precisam e se amam e  ficam doidas se umas sem as outras, querem moldar-lhes os contornos às suas próprias curvas,  brincar aos deuses, portanto. A harmonia, sobrevalorizada, é sempre uma elevação momentânea que prolongamos artificialmente em nome das harmonias posteriores, das mais-valias que contamos vir a obter. Existem apenas flashes de entendimento total, como se por segundos abarcássemos o outro todo. Mas noventa e nove por cento do tempo andamos aos papéis, a fazer força para que os outros nos agradem e os outros, que nos sintamos agradados, tentando não nos arrependermos da escolha que fizémos, a atrofiar os sonhos. Mas o mais extrordinário disto tudo é que, com toda a inteligência que nos foi dada mais o instinto de auto-preservação com que fomos dotados (esse de nos enfiarmos em conchas para não sofrer, de nos armarmos até aos dentes ao primeiro sinal do armagedão emocional, de chamarmos à colacção todas as más experiências de vida) voltamos sempre a cair no mesmo: uma e outra vez, a tentarmos mudar quem queremos que encaixe assim ou assado nas nossas vidas, empurrando-o até passar pelo buraco da agulha da nossa aprovação. Quando bastaria olharmo-nos e  vermos em nós o maior exemplo de que não mudámos, nem por nada nem por ninguém. Apenas fingimos por uns tempos. É por isso que sacar  um juramento com o fito de inibições futuras, ou seja, à base de condições de facere e de non facere, é o acto menos humano e mais violento que podemos impor ao outro.

 

* let´s call the all thing off (faz de conta que, no vídeo, Fred Astaire dança no gelo com Ginger Rogers. maravilha)

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