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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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and a partridge in a pear tree

por Vieira do Mar, em 19.11.10

Hoje passei pelo colombo e parei para admirar a parafernália natalícia que eles sempre montam na praça central. O pinheiro gigante, as casinhas do pai natal com os duendes, as renas, etc. Fiquei absolutamente chocada quando espreitei para dentro de uma das casinhas. Em vez das coroas de azevinho por cima da lareira, das meias penduradas e do cadeirão do pai natal, prateleiras e prateleiras cheias de artigos dos patrocinadores : garrafas de óleo fula e de azeite oliveira da serra. Por todo lado da "instalação" viam-se os logos dos produtos. Aquilo meteu-me nojo, não sei bem porquê. Eu, que sempre fui pelos simbolos pagãos do natal, que sempre alinhei pelo consumismo desenfreado, pelas luzes dos chineses, pelas pilhas de presentes aos pés da árvore gigante e excessivamente enfeitada, tive uma espécie de epifania quando vi os miúdos a serem guiados por gnomos escanzelados pela casa do pai natal para apreciarem prateleiras de óleo fula. E concluí que este tipo de festa, assim, como nós a vivemos, não faz sentido nenhum. Cada vez presta menos e os miúdos estão a crescer neste espírito, com a nossa benção. E isto não tem nada a ver com aquela vexata questio sobre o que é ou não o verdadeiro espírito do natal, como se os católicos quisessem açambarcar só para eles a magia, digamos assim, da quadra. Não interessa se o menino jesus ganha ao pai natal, ambos podem ser imensamente vazios de significado, tanto um como o outro. Porque o problema está aí: na importância que se dá aos símbolos, ao exterior, ao vazio, ao colorido das luzes, ao nada. Daí à comercialização indecente desses mesmos símbolos e ao esvaziamento total da substância da quadra e dos valores da família e da solidariedade, vai um passinho. Se pensarmos bem, a história pagã é parva e, nestas encenações dos centros comerciais, os miúdos mostram desconforto ao colo do suposto pai natal, gozam com os ridículos duendes com os seus barretes de sinos e com as renas que mais parecem animais embalsamados com problemas de motorização. Além disso, a maior parte das decorações são pirosas, excessivas e inutilmente despesistas. No entanto, e por paradoxal que pareça, o natal para mim é mais importante do que nunca. Ainda não comprei presentes, caguei nos presentes, nem sei se vou comprar, para os miúdos haverá seguramente racionamento, mas para eles é na boa, não são exigentes. Quero é tê-los comigo - ou com o pai, mas sabendo que estão felizes, embora um bocadinho divididos, é inevitável -, quero ter o meu pai e a minha mãe e a minha prima-quase-irmã, e as tias e a avó de noventa e muitos anos e cozinhar para todos eles um festim divinal. E estarmos todos juntos, mesmo os que nos faltam, à volta de uma lareira verdadeira. Somos uma famíia dividida e disfuncional como quase todas, por isso é sempre uma reunião forte, dolorosa e alegre ao mesmo tempo, dura pelos que não estão, conflituosa e pacificadora. Que no fim nos deixa exaustos, preenchidos, aliviados. Mas é por isso mesmo que, ao contrário do que dizia o outro, não é natal todos os dias e muito menos quando um homem quiser - e amen for that.

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