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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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célia, a drama queen

por Vieira do Mar, em 03.09.10

A Célia tinha uma particularidade: era-lhe difícil acabar com as relações mesmo depois de acabadas, de kaput, de over and out, de ponto final, parágrafo. Guardava-lhes sempre, no mínimo, o número de telefone e traços de memorabilia: uma florzinha no meio de um livro, um cartão, uma peça de roupa deles  esquecida numa gaveta, e nunca estava mais de dois, três meses, sem lhes dar sinal de vida. Jogava em várias frentes, a Célia, não como forma de acautelar uma qualquer solidão desprevenida mas porque era uma sentimentalona esperta (ou uma espertalhona sentimental, como preferirdes). A dada altura arranjou um advogado separado de facto, desses do crime, que não recebem honorários em dinheiro mas em bens que os clientes têm interesse em fazer desaparecer. O dito usava gel no cabelo e tinha um barco, um iatezito com alguns anos em cima, mais para o lado da traineira do que para o da lancha rápida, apesar dos dois motores honda enganarem bem. Um dia, estavam todos a entrar no barco: ele, ela e os filhos dela do primeiro casamento, quando aparece o ex-marido a passear-se-lhes no cais, sabe-se lá por alma de quem. E era ela a gritar-lhe do passadiço, Oh Alberto, anda connosco dar um passeio, estão aqui os teus filhos!.Perante o entusiasmo dos miúdos e o ensimesmamento do advogado, pessoa discreta fora da barra dos tribunais apesar do gel, o Alberto lá foi, passar o dia em família mais o apêndice endinheirado. Consta que uma semana mais tarde, a Célia e o ex ter-se-ão encontrado outra vez por acaso num café ao lado do emprego dele e que, por entre um folhado de carne e uma chamuça deslavada, acabaram a desmoer os salgados em casa dela, a rever posições e a fumar a xixa que ela havia trazido de uma viagem a Marrocos com o advogado, uns meses antes, mas que este, homem de leis e de cautelas, nunca se atrevera a experimentar. Despediram-se de manhã com promessas de reencontros futuros ao sabor do destino, porque assim era a Célia. Guardava fotografias e bilhetes: de cinema e de concertos pop, e escrevia a lápis num cantinho o nome do namorado (ou ex-namorado) com quem assistira aos mesmos, não fosse a memória atraiçoá-la. Havia dias em que sentia que ainda gostava deste; outros, um bocadinho mais daquele; e às vezes achava que gostava de todos ao mesmo tempo. Então divertia-se a construir mentalmente o Homem Perfeito, retirando bocadinhos simpáticos de cada um deles e colando-os numa só personalidade e num só corpo. Uma vez apaixonou-se por um alegado vegan, uma criatura de tez escura e frases feitas, adaptadas livremente do imaginário budista, que prometiam noites infinitas  de sexo tântrico. Envolvida no suposto misticismo oriental da criatura (cujo bronze afinal  era da margem sul e tinha silva por apelido) e por um estado zen que lhe fazia bens aos nervos e lhe baixava a tensão (que andava sempre nos picos), comprou panos tingidos com que encheu o tecto do apartamento, forrou a sala de calendários budistas, baixou a iluminação, espalhou incenso pelas divisões e pespegou com shiva e ganesh nas paredes do quarto. Quem lá entrava, descalçava os sapatos. Deixou de comer carne e passou aos verdes. E foi assim que, a dada altura,  num restaurante tibetano em Lisboa, onde almoçava com o seu rapaz do meco (a quem invariavelmente pagava as repulsivas necessidades materiais que este, contra sua vontade, sentia), reparou que na mesa em frente se encontrava o advogado com uma miúda de vinte anos que lhe levava o tofu à boca. Aquilo baralhou-lhe os sensores amorosos e Célia sentiu-se dividida entre fingir gostar do seitan que engonhava na boca e do sumo de tubérculo com que o ensopava, ou atentar melhor e ter pena do ar desconsolado do advogado, que ela sabia todo dado aos prazeres animais - e aos da carne em particular. Prazeres, aliás, que ela em tempos bem conhecera, mas que havia muito não provava (o caso da tarde familiar no barco não dera lá muita saúde à relação, em especial quando o ex bebeu as sagres todas com que o advogado enchera o mini freezer, feito surra). Bom, resumindo, Célia logo tratou de fazer olhinhos ao advogado, descaradamente. Duas voltas à casa de banho ao mesmo tempo e nessa noite, horas mais tarde, comiam os dois um belo bife de lombo numa brasserie conhecida de Lisboa, lambuzando-se com proteína animal  e fazendo planos para acabarem a noite lambuzando-se como animais. Mas a  brasserie tinha um bar e, quando se preparavam para passar aos digestivos e ele lhe ia contar como o barco se havia afundado no próprio cais por modos misteriosos, aparece-lhes à frente um barman que ela havia conhecido numa discoteca manhosa do cais do sodré e que lhe servira tantas caipirinhas que ela acordara toda nua numas águas furtadas lá para os lados da Graça - e onde voltaria a acordar nos dias seguintes, porque a nossa Célia era sensível ao movimento artístico e aos seus derivados, e se havia águas furtadas alguém acabaria a pintar, a esculpir ou a declamar qualquer coisa. A cena durou pouco, não porque ele fosse um cepo no que toca a sensibilidade (que por acaso até era), mas porque a despachou num ápice, uma vez que podia ter pitas novas todas as noites. Célia nao levou a mal: guardou-lhe o número do telemóvel, os pauzinhos com que mexia as caipirinhas e as bases de copos do bar: tudo com o devido carinho mas alguma indiferença, pois tinha discutido à seria com o ex por ele não pagar a pensão aos putos e a briga fora tão feia que acabariam fechados em casa dele por três dias numa de make up sex, embora ela dissesse que se haviam reunido para  "negociações". Mas, voltando à noite do advogado, escusado será dizer que este perdeu para as caipirinhas, tendo Célia fugido com o barman pela porta de serviço uma vez terminada a função, embora não sem guardar carinhosamente a factura dos bifes de lombo. Afinal, alguns meses mais tarde e acabaria por se atracar por uns tempos a um gestor de conta. Para já, porque achava que este tinha um porte parecido com o do advogado, pois também usava gel de modo ligeiramente mafioso. Tinha ainda uns olhos parecidos com os do primeiro marido, a estatura do barman e era morenaço como o outro; no fundo, eles eram todos parecidos, como não os amar a todos e a cada um deles? Nunca acabava definitivamente, a Célia. Guardava sempre bocadinhos de amor para uma noite de chuva, prevenia-se de carinhos e de posições favoritas, não fosse o diabo tecê-las que a gente nunca sabe o que nos traz a esquina seguinte. Era a rainha das despedidas ardentes e dos reencontros apaixonados, uma equilibrista emocional que, apesar dos arquivadores de bilhetes e dos índices quase onomásticos com os petit nons que dava às pilas que lhe iam passando pelas mãos,  sofria de uma desarrumação mental e de uma superficialidade amorosa que confundiam tudo e todos com todos e tudo. Superficialidade, essa, que compensava com um fidelidade da qual se orgulhava porque a considerava perene, embora alternada no tempo e no espaço, claro. Uma excelente personagem para um livro, a Célia: complexa, interesseira, vivaça, sem escrúpulos, carente, imprevisível e com um manancial tal de homens à sua disposição, que daria para encher vários capítulos de fornicações entrecruzadas, tão de moda nos romances de hoje em dia. Mudava-lhe era o nome.

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