© sofia vieira
E de vez em quando o reverso, o drama, a destruição, a ventania. Os braços abertos que a deixam fugir, que a empurram para os confins da estrada, e ela a esparramar-se no asfalto, à mercê de qualquer coisa, de quem quer que seja, azaramboada, morta se o arrependimento matasse. Ele a rainha do drama, a fúria do gigante, a insensatez, o desvario, o fim tantas vezes anunciado, o abrigo precário, o sopro do coração. Ele, os cacos que ela apanha do chão e que varre com parcimónia doméstica, o chão que desinfecta com lexívia; os sacos de plástico com os despojos de guerra dos quais ele se desfaz a horas mortas, para que os vizinhos não saibam que o mundo acabou, ponto final, parágrafo. Entre ambos, um silêncio que mortifica, deambulante, uma desconfiança hostil e a certeza de que tudo é nunca, que o que foi já não volta, maldito o dia em que te conheci, esquece-me, odeio-te, morre. A posição fetal e quieta na cama que não mais se desengonça nem descabela, a escuridão onde o mar não entra, o queixume silencioso, a dor rouca, o fado vadio, as malas aviadas à porta, a saída intempestiva que ela ensaia e ameaça, que coreografa vezes sem conta, só para ver se ele a impede. E ele, que umas vezes lhe barra o caminho e que outras, nem por isso.
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