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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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o mito urbano das tampas de plástico e das cadeiras de rodas

por Vieira do Mar, em 22.02.10

Não há casa portuguesa que não tenha um exemplar; pode ser um frasco, uma caixa, um saquinho pendurado ou pudicamente escondido: tal como, nos anos setenta,  os quadros com o menino da lágrima, os naperons sobre os televisores ou os acessórios têxteis onde perigosamente se combinavam castanhos e laranjas, hoje não há cozinha lusa que não albergue o recipientezinho onde se vão guardando as tampas de plástico dos pacotes e garrafas para, mais tarde, serem supostamente trocadas por cadeiras de rodas para os delas necessitados. É um exercício colectivo de caridade, feito de muito consumo, tempo e paciência. Parece que são precisos quilos e quilos daquilo para se conseguir uma cadeira, uminha só. E quem as consegue? Quem as dá, em troca das tão ciosamente guardadas tampinhas, esse novo acessório kitch? Alguém já as viu, às preciosas cadeiras de rodas, tão penosamente angariadas, anos e anos de compais, sumois e coca-colas de litro? Na verdade, ninguém. Toda a gente tem uma irmã de uma prima de um tio que..., mas nunca ninguém assistiu à troca verdadeira entre A e B, toma lá quilos de sacos cheios disto, passa pra cá uma cadeira, toma lá uma cadeira. Os rumores agigantam-se: segundo uns, são precisos apenas cinco quilos para o milagre das rosas ocorrer; segundo outros, menos de cinquenta não chegam. Também no que respeita às entidades envolvidas não existe consenso definitivo, variando estas entre as misericórdias e vários hospitais.  Mas, o que mais me intriga é: quem é que vai de casa em casa recolher as tampas e as entrega no sítio certo? Temos que ser nós a ir entregá-las? Porque eu ando há anos nesta faina recolectora,  sendo que o saquinho parece nunca subir significativamente de nível (e olhem que tenho a casa cheia de adolescentes perdulários e sequiosos); portanto, alguém se deve encarregar de, periodicamente, as ir buscar e as fazer chegar ao sítio certo. Gnomos? duendes? penates? Eu não sou: limito-me a recolher tampas há anos em saquinhos (matando assim qualquer hipótese de ter uma cozinha-design), mas nunca comprovei qualquer resultado do meu esforço inglório; aliás, tenho a certeza de que nunca terei passados dos cem gramas de armazenamento total, o que nem para uma roda deve dar. De qualquer modo, sempre me apazigua a consciência individualista em pequenas doses homeopáticas, pois não há nada como contribuirmos para o bem da humanidade, enquanto achamos que diminuímos a nossa pegada ecológica no planeta. É um bocado como aquela história que correu há uns anos por aí: o cenário e a ocasião variavam (tanto era na marginal, como na Malveira da Serra), bem como os intervenientes, mas a ideia-base era sempre a mesma: um casal/grupo de amigos vinham à noite numa estrada, eram mandados parar por um desconhecido/desconhecida (o género também variava) e estranhamente instados por uma força interior a dar-lhe boleia. A determindada altura do caminho, e perante várias tentativas para, debalde, tornar o pendura minimamente comunicativo, este avisa com um ar espectral o condutor: cuidado com aquela curva, foi ali que eu morri!. Os ocupantes olham espantados para ele e bam!, de repente já lá não está ninguém. Com o susto, despistam-se, sendo que uns morrem e outros ficam em coma. Também então não havia quem não tivesse uma prima dum irmão duma tia que conhecera pessoalmente os envolvidos (ou um familiar dos envolvidos, sempre dava mais jeito para a credibilidade na propagação da estória), e que lhes contara a cena num misto de aparvalhação e horror. Eu, quando a minha sogra me contou que se tratava do filho e da namorada de uma colega de trabalho, e em sendo a minha sogra uma pessoa séria, acreditei piamente. Uns tempos mais tarde, soube que até houvera um realizador principiante (ou não) que fizera um filmezinho sobre a coisa com actores amadores e o botara na net, no seu site, e resolvi falar disso no meu blogue pessoal, então aberto a comentários (a minha ignorância era atrevida). E foi através destes  que percebi que cada pessoa tinha a sua versão para algo que não passava de um estranho mito urbano, uma aldrabice involuntariamente disseminada pelas mais honestas e insuspeitas pessoas. Aliás, e voltando às tampas, uma edição recente do Correio da Manhã comprova o mito,  através de uma notícia patética e deprimente (sim, já sei, nunca receberei o prémio Laurinda Alves): um pobre rapaz deficiente aparece na foto com os progenitores, acompanhados de um saco gigantesco de tampas e tampas e de plástico (quilos!) que, ao que parece, ninguém quis trocar por uma cadeira de rodas: deram-lhes tampa (mais uma, portanto). E eu, que na verdade não acredito em seres pequeninos e faxineiros,  tenho uma tese: acho que as tampas entram de alguma forma directamente nos cofres da Valorsul, essa máfia do entulho e da reciclagem que recebe imenso dinheiro do estado só  para o país parecer mais ecoverde. Mas essa já é outra estória.

 

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