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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

o homem que coleccionava mulheres sem rosto

por Vieira do Mar, em 24.01.10


 

Só gostava delas de longe, inexpressivas e com um cheiro que se limitava a adivinhar-lhes,  opacas, como as via nas fotografias que elas lhe mandavam, sempre no seu melhor ângulo, o esquerdo, ou o que lhes fazia o nariz mais pequeno, as mamas mais saídas, as pernas mais longas, o sorriso mais atrevido, o cabelo mais claro. Tinha-as em todo o lado, como um marinheiro  as tem em cada porto, separadas dele às vezes por centenas de quilómetros, outras, por apenas centenas de metros,  distâncias que ele sabia não serem para ser superadas nem vencidas: a fantasia não era para resolver, mas para nela persistir, o espaço que criara em volta de si mesmo, um resguardo. Não tinha caixas cheias de fotografias porque  este conto é no presente e estamos na era digital. Guardava-as em pastas no computador, onde juntava textos e imagens, emails e posts, históricos de conversações em que as conseguira levar sempre um bocadinho longe demais, na exposição íntima, na delação, na expectativa. Coleccionava tudo o que elas tinham para lhe dar, bocadinhos das suas vidas, relíquias de todas as suas partes: menos dos rostos. Nunca soube nada de texturas de peles, se secas se oleosas, nem da ligeira miopia da primeira, do hálito a tabaco de uma terceira, ou do sorriso demasiado aberto de uma quarta, que  deixava ver a prótese no lugar do molar. Criava com elas uma relação de falsa intimidade, contava-lhes coisas como se a contragosto, desmembrava segredos no bocal do telefone, ao correr de um texto. Tornava-se  um amante louco que as comprazia, que as comia à canzana com as palavras,  mantendo com elas uma relação de cuja superficialidade apenas ele se apercebia. Elas achavam tudo perigosamente profundo, a fazer-lhes cócegas na alma, quem sabe o prenúncio de uma vida diferente, nada a que estivessem habituadas, um desvario cauteloso, se existe tal paradoxo. Ele sabia que nada daquilo lhe aquecia ou arrefecia a vida, era apenas um modo de calafetar o tédio que teimava em escapar-lhe pelas noites e de fugir da única mulher cujo rosto não podia evitar.  Atrevia-se até à voz delas, telefonando-lhes, criteriosamente, embora fazendo parecer do seu acto um devaneio do momento. Algumas dessas vozes enlevavam-no de verdade, comoviam-no, até. Roucas, nervosas, meigas, carentes, seguras, zangadas, às vezes despoletavam nele a vontade real  de conhecer as bocas de onde provinham, talvez até as experimentar, às bocas. Sem perigo. Ele não lhes queria os rostos porque uma cara que não se conhece, que nunca se tacteou, cheirou, prescrutou, é uma tela em branco. E uma tela em branco é imaginação e distância, é descompromisso e todas as possibilidades em aberto; é segurança, enfim. Ao princípio, elas acreditavam e correspondiam,  até ao momento em que ele, virando o bico ao prego no jogo de sedução, lhes começava a dar a entender que o assédio partia delas, que partira sempre delas, e declinava-as educadamente. Ele nada tinha para lhes dar, mas elas insistiam em receber. Por isso, estas histórias acabavam sempre mal. Algures lá quase para o fim era costume elas chorarem, confusas, as lágrimas a cairem-lhes pelos rostos que ele nunca quisera conhecer, secas à pressa com as costas das mãos que ele nunca quisera agarrar. Um dia, elas resolveram vingar-se. Há muito tempo que desconfiavam umas das outras, haviam detectado já vários padrões de comportamento comuns,  repetidos, que sabiam esvaziados de qualquer valor primordial. A dada altura, ele mimetizava-se a si próprio, falho de imaginação e entusiasmo, e tornara-se fácil percebê-lo. Juntaram-se todas a bateram-lhe à porta. Iam excessivamente pintadas, as feições propositadamente marcadas e carregadas, para que ele reparasse em cada sobrancelha delineada, em cada madeixa perfumada, em cada boca pintada. Apesar de algum ressaibo, iam calmas e confiantes,  com aquela serenidade que apenas se encontra na antecipação de uma vingança bem sucedida. Com um bocado de sorte, ao se deparar com aqueles rostos em todo o esplendor das suas imperfeições, poderia entrar de tal forma em pânico que ficaria cego, ou ter um ataque de coração. Ou, melhor ainda, morrer de vergonha. Desprevenido, talvez à espera de alguém de família, de um fornecedor, abriu-lhes descontraidamente a porta. Elas  metralharam-no com pupilas e retinas e pestanas, sorrisos de menta,  dentes um bocadinho tortos, narizes sardentos e finos, bocas grossas. Tropeçavam-se, para garantir que ele via uma e cada uma delas. Mas, afinal, onde é que ele estava, porque não o  viam?!  Espreitavam umas por cima das outras, encarrapitadas na sua própria curiosidade, à espera de lhe reconhecerem as feições, o sorriso que as encantava ao telefone, os olhos verdes das fotografias de colégio. Havia em definitivo alguém à frente delas mas... nada. Olharam-se confusas, sem lhe encontrarem qualquer expressão, fosse de reconhecimento, de medo, de surpresa. E então repararam: quem não tinha rosto era ele -  nem boca, nem olhos, nem nariz, queixo;  era uma cara em branco, sem altos ou desníveis, um rosto bidimensional. Não havia ali entrada nenhuma para a alma, apenas   uma superfície plana, sem cicatrizes ou marcas de vida, sem rugas,  quase transparente. E ali ficaram, uma data de rostos enjeitados e impecavelmente maquilhados,  boquiabertos a fitar o vazio. Durou poucos segundos:  é sempre rápida, a noção do desperdício. Deixaram-no agarrado à porta, sem sequer se apresentarem nem lhe dizerem quem era quem e foram juntas ao café da esquina conhecerem-se melhor, afinal, nunca se haviam visto umas às outras, apenas intuído, pela maneira como ele parecia escrever para mulheres sempre diferentes. A noite caía na cidade, e as maquiagens iam-se derretendo-se sob as luzes fortes da pastelaria e o calor das conversas, trazendo a descoberto olhos pequenos e pestanas curtas, sinais escondidos, lábios finos e cabelos em desalinho. Nem por uma vez falaram no homem sem rosto. Mas, nessa tarde, fizeram-se grandes amizades.
 
imagem daqui 

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