Muitas vezes os outros só têm a importância que nós lhes damos. Enquanto os conhecemos mal - ou não os conhecemos de todo - permitimo-nos com eles todo o tipo de excessos ou de cerimónias: afinal, somos nós que os construímos. Talvez por isso custe tanto a largar alguém que um dia idealizámos. Não interessa se o imaginámos a pender para os defeitos ou, ao invés, para as qualidades; muito menos interessa se o edificámos à nossa medida ou se, pelo contrário, nos deu mais jeito pensar que nunca caberia em nós. A verdade é que moldámos aquela pessoa às nossas necessidades da altura: de algum modo ela serviu-nos, colmatou falhas, preencheu buracos. Temos ali um ser desconhecido em toda a sua glória, cuja personalidade desenvolvemos no laboratório da nossa cabeça, e que se agiganta em nós a cada pedacinho mais que achamos que sabemos sobre ela, a cada peça do puzzle que acrescentamos. Depois, uma necessidade dolorosa, física, resulta dessa confabulação: uma precisão danada, que advém do facto de termos criado um monstro à nossa medida. No fundo, é uma outra versão de nós próprios, daí querermo-lo com um desespero egocêntrico e circular. Quase nada consegue romper a seriedade de uma fixação desta natureza, nevrótica, concentrada em si mesma, fantasista e desfasada do real. A não ser quando a nossa criação se humaniza, ao se tornar risível, gozável, ao apalhaçar-se involuntariamente perante nós. De repente, surge um ligeiro desprezo a permear a obsessão e há uma dúvida que se instala - e que sucede à certeza vibrante que até então nos minou por dentro. Que isso nos mate a sede e nos cure da doença, não sei, mas ameniza em muito os sintomas.
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