Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
ferida rasgada

Era o único homem que a fazia chorar. Tudo nele a comovia, a desconcertava, a mobilizava para o afecto exagerado, a paixão assolapada, o beco sem saída. Havia ali qualquer coisa que não a largava e que a exasperava, como uma criança birrenta que insistisse em ir no sentido contrário. Levava-a ao nó na garganta, às vezes mesmo às lágrimas, com apenas meia dúzia de sílabas, tal o desespero que ela continuava a sentir no seu discurso aparentemente articulado. Não era de todo o homem que mais amara, aliás, não sabia se o amara, sequer, mas algo nele a emocionava e lhe doía, como uma ferida rasgada, uma aflição na noite, embora não conseguisse identificar exactamente o quê: se o desencanto, que ele insistia em alimentar de uma esperança irracional; se o carinho que derramava sobre ela quando estavam em sintonia; se a loucura que vadiava por ele e que abafava desajeitadamente, convicto de que  só a normalidade lhe permitiria a decência perante os seus pares.



escrito na areia por Vieira do Mar
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