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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

ah e este foda-se... quem diria.

por Vieira do Mar, em 14.09.09

 

Os Vermes dos Dias Iguais

 

"Combinaram encontrar-se no cartório, que ficava exactamente por cima da conservatória onde, um mês antes, um velho de voz enrodilhada e articulações rangentes lhes decretara o divórcio e ela vomitara o almoço aos pés da funcionária que assessorava o acto. Desta vez, porém, segurara o estômago com um jejum prolongado e apresentava-se calma, decente, vá, de sapatinho de salto e saia travada, a emanar respeitabilidade suficiente para aquietar qualquer desconfiança negocial da contraparte. Ele chegou-se-lhe de gravata às riscas, fato completo e corte de cabelo à barbeiro de bairro, as patilhas demasiado compridas e acertadas à navalha, reparou ela, a transpirar honestidade, confiança e força de trabalho por todos os poros, na sua pose habitual de vencedor nato. Encontraram-se à entrada do prédio, ambos atrasados (o mesmíssimo atraso, ao minuto, não: ao segundo!), já os promitentes compradores fungavam e o notário arfava de calor e impaciência, desculpem, desculpem, aqui estão os nossos bê-is (nossos, não, o meu e o teu, pensou ela, num daqueles preciosismos desnecessários de alma xupa-limões, arrepiada e amarga que só visto), estado civil? casada, ai desculpe, divorciada, é que ainda não me habituei. Ele sentou-se ao lado dela, afastando-se uns precautos dez centímetros, espaço contentor, não era o que querias?, o squiiiiiich das pontas das pernas da cadeira, a riscarem o soalho sob o peso dele e a arrepiarem a pele dela, e o sobrolho franzido do velho, que ajustou os óculos e começou a ler a escritura. No entretanto, ela a reconhecer-lhe o perfume e ele a topar-lhe o tom ruivo das madeixas e a extrapolar os motivos, porque raio já não estás loura?, ambos demasiado próximos, demasiado tristes, demasiado frágeis, afasta-te, vá!, não era isso que tu querias, distância? então chega-te para lá, olha para outro lado, não me inspecciones como se tivesse piolhos, primeiro outorgante; e tu não me cheires dessa maneira que mais pareces uma cadela de focinho alçado, a farejar-me, segunda outorgante. Mantiveram o diálogo telepático durante toda a leitura, como dois miúdos de escola, colegas de carteira que passassem a aula a empurrar-se e a acotovelar-se, a ver quem cai primeiro, não fui eu senhora professora, foi ele, ele é que começou tudo! Às tantas, ela compôs um ar urgente e fingiu ler mensagens no telemóvel, vês? estou muito ocupada desde que nos separámos, repara bem!, enquanto lhe media as patilhas pelo canto do olho e lhe espreitava a nuca imóvel, imóvel inscrito na matriz coiso e tal, a cabeça dele virada para a rua, sito na rua não sei das quantas, lote xis, rés do chão, e ele a acreditar na farsa , no chão, sim! conseguiste, estou no chão, arrasado, buldorizado, espalmadinho de tanta saudade e ciúme. Quando chegou a altura de assinar, passou-lhe para a mão a caneta que ela lhe oferecera três natais antes e trocaram cheques, sorrisos e apertos de mão com os novos donos do apartamento que fora deles, prometendo-lhes que, atéao fim da semana, o limpariam dos destroços do naufrágio do seu casamento. Foi ele quem pagou os emolumentos devidos e requisitou duas cópias certificadas da escritura, a puta da escritura (uma para ela). Desceram juntos até à rua, concentrados no tum tum tum síncrono dos passos matraqueados nos degraus. Despediram-se de vista baixa, fingindo ignorar o pestanejo aflito do olhar do outro, SOS!, três curtos, três longos, três curtos, SOS!, e viraram-se as costas num rompante de sevilhanas, rua acima um, rua abaixo o outro. Chegado à esquina, ele tirou o bê-i do bolso para o guardar na carteira, mas saíram-lhe dois: dois documentos de identificação, agarradinhos ao outro, a filiação dele colada na fotografia dela. Respirou de alívio, finalmente, tinham chegado os meios de salvamento, os marítimos, os terrestres, os aéreos!, pelo que poderia dar início à operação de resgate. Virou-se num pé, como um bailarino num soustenu desequilibrado e desencabrestou rua acima, a chamar por ela, exibindo o documento como se fosse um colete insuflável e ela se estivesse a afogar, já a ouvir violinos e a ver ao longe uma luz que a chamasse. Quase esbarrou nela, que descia, lebre-de-corrida, com a caneta dos três natais anteriores na mão, a gritar por socorro e preparada para lhe disparar um verilaite no estômago. E ali, no meio da rua e a meio caminho um do outro, respirando-se boca-a-boca, pensaram poder de facto resgatar aquele amor naufragado, sem saberem que um Amor, quando se descostura e rompe, não há desfibrilhação nem manobra cardíaca que o valha, e que o deles há muito que estava morto e decomposto, a servir de alimento aos vermes dos dias iguais que, à espreita nas esquinas dos prédios que lhes lançavam sombra por sobre as línguas molhadas, aguardavam o momento de se banquetearem de novo, num festim vampiresco. "

 

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