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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

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puta de merda

por Vieira do Mar, em 01.09.09

O miúdo largou a mão do pai e desatou a correr escada acima, a alegria a soltar-se dele e a chegar primeiro. A mãe já o esperava à porta e abraçou-o, gulosa, lançando um olhar triunfante a Pedro, que subia devagar, como se cada degrau o puxasse para o centro da terra. Olá, disseram-se friamente, mais ela do que ele, cujo tom era antes cansado, como que de capitulação ou, pelo menos, de resignação. Correu tudo bem, está entregue, disse-lhe, escondendo um tremor que lhe roubou de súbito a firmeza natural da voz. Está mesmo tudo bem, não te aleijaste?, perguntou a mãe ao miúdo, rodando-o sobre si próprio, apalpando-lhe os ombros, mexendo-lhe nos cabelos, fingindo ansiedade. Não mãe, estou bem, mas tinha saudades tuas, confirmou, abraçando-a com mais força. Ela olhou vitoriosa o ex-marido, Bem, adeus, então até daqui a quinze dias, o próximo fim-de-semana é meu. Pedro hesitou, uma angústia palpável instalou-se no átrio do prédio, um espaço feio e hostil, as paredes de marmorite a quererem comê-lo vivo, Se calhar podia ir buscá-lo uma vez por outra para almoçar, quando me pudesse safar do emprego; podias avisar lá no colégio, almoçávamos por perto... Não sei, responde a mãe, não foi isso que ficou combinado no Tribunal. Adeus pai!, interrompeu o miúdo, correndo para o quarto com pressa de retomar o Medal of Honor no nível em que o deixara dois dias antes. Adeus..., a voz de Pedro morreu-lhe na garganta, nem um beijo ou um abraço, vai ter uma semana de merda só porque lhe faltou o carinho do filho no momento da despedida. Inspirou fundo, a engolir o ódio que naquele momento sente pela ex-mulher. Então?, a voz saiu-lhe afiada em vez de mansa, como era a sua intenção. Não sei, veremos, tenho de falar primeiro com a psicóloga. Mentalmente, Pedro mandou a cabra da psicóloga, os cabrões do juiz e do curador de menores, e ainda  a merda do T1 a quilómetros do colégio que lhe levava metade do ordenado e que não lhe permitira a guarda conjunta, para a puta que os pariu. Vê lá isso, era bom para mim e para ele, vemo-nos tão pouco... Pois para mim, chega e sobra, respondeu-lhe, altiva. Pedro embrulhou a raiva na garganta, para que não saísse e respondeu-lhe suavemente, Pois para ele, não, afinal, sou o pai. Ela atirou-lhe um olhar de desdém como se dissesse grande coisa, os gritos de guerra do filho já agarrado ao comando a morrerem ao fundo do corredor enquanto lhe fechava a porta na cara. Pedro virou costas e começou a descer as escadas, as lágrimas a saltarem-lhe por detrás dos óculos graduados, Ah Caralho, um homem não chora!, ordenou a si mesmo enquanto tirava os óculos embaciados, os limpava com a ponta da camisa e gritava baixinho, puta de merda. Saiu para a rua, o ar livre a regenerar-lhe a tristeza, enfiou-se no primeiro café que viu, tirou do bolso a pequena máquina digital comprada no Lidl, ligou-a e, por entre grossos goles de cerveja,  reviu vezes sem conta as fotografias do jogo da bola naquela tarde  nos jardins de Belém. 

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