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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 16.06.15

Tem dias  em que me falta a solidão do nosso silêncio, vá lá a saber porquê. Era um silêncio infeliz mas a tristeza também enche, quando o resto falta. É uma carência que me bate a dias incertos, sem aviso nem razão. Passa sem deixar vestígios, como um ataque de ansiedade no meio do trânsito ou uma dor de barriga antes de um exame de matemática. Aguento-me quieta porque sei o desfecho de ir ao teu encontro, impulsiva, como de costume sem nada para dizer,  só para te ver, que tenho saudades. Não tenho. Estou apenas num daqueles dias em que não aguento sozinha os murmúrios da cidade.

Sâo repentes em que preciso de ver a tua miséria para minorar a minha, relativiza-la, perceber que o teu poço é mais fundo do que o meu, que nem o eco da tua voz cá acima chega. Tomo dois Rivotril, e espero. Escondo a chave do carro para não me apanhar sonâmbula à tua porta, a olhar-te a janela, aberta ou fechada, será que estás, que me vais deixar entrar? Que vou poder escarafunchar na ferida mais um bocadinho? Ou já cicatrizaste? É o mais provável, e é o medo de ver que ganhaste  que me impede na verdade de me meter ao caminho. Rezo sempre para que me ignores e me desprezes, pois estarmos juntos é como dois sem abrigo que têm de se encaixar no mesmo saco cama sebento para sobreviverem à noite fria nas escadas de um prédio fino. Limitam-se a lutar por espaço e vêm no outro o seu próprio desamparo.

Tenho o coração aos pulos como se de repente me apaixonasse, porque sei que neste momento corro perigo. Eu, não tu. Tenho pouco em mim, mas corre-me nas veias força vital e alegria, gente, coisas, poesia, cafés, génio e música; e, se eu deixar, sugas-me esse pouco que tenho, num vórtice de tornado, deixando-me oca, às cabeçadas pela noite da cidade, a aceitar shots de velhos endinheirados de esgar lascivo, dos quais fujo quando finjo ir à casa de banho.

O Sr. Gil, guarda reformado e segurança da minha rua, cuja mulher, porteira do prédio em frente, se põe à janela a ajeitar-lhe o capachinho antes de ele sair para o trabalho,  já sabe, quando me vê chegar bamba, a falhar a fechadura da entrada, que andei a fugir de ti. Trata-me por menina, mas penso que no fundo me acha velha, apesar de ele andar já perto dos setenta. Nessas noites, quando percorro todas as ruas de Lisboa menos a tua, parece que adivinha, abre-me a porta do carro e encaminha-me gentilmente para a entrada do prédio. Depois, fica a olhar para a minha janela, como que para ter a certeza de que o perigo já passou e que as mãos já não me tremem. Em tempos, costumava ver-me a chegar de tua casa de madugrada e era como, se na sua sabedoria transmontana, adivinhasse que vinha seca por dentro, como um graveto morto. Tratava-me com uma gentileza desmesurada para que não me partisse e dizia com ar solene (apesar de me achar velha) menina, tem que se afastar de pessoas que lhe fazem mal, como se me estivesse a ler a sina. Acho que o menina  é de dó, porque não tenho um homem, o que é uma espécie de orfandade, ou então como se fosse uma tia solteira de útero mirrado que passasse os dias a olhar a fotografia gasta  do cabo raso que lhe fizera promessas fecundas no momento em que os pretos lhe rebentaram os miolos no assalto à caserna. A carta ficou a meio e tem nas pontas vestígios de sangue, mas ela ainda a guarda, numa caixinha de música que só cospe uma nota. Eu sou essa tia da carta incompleta, que enlouqueceu porque sabia o que viria a seguir, apesar de não estar escrito.

Sim, a seguir venho eu e, por milagre ou obra do diabo;  encontro a porta verde cá de baixo aberta e subo as escadas estreitas e mal cheirosas até ao primeiro andar, sem tocar para que não me possas deixar na rua. Quando vês quem sou, hesitas, quase que te ouço gritar, mudo; pode ser que abras, pode ser que não. Se abrires, encontro-te invariavelmente nu, calado, despudorado, a cama desfeita, e assim continuas apesar da minha presença, a ver tudo em ti descaído, sem força, desossado. Um dias destes, encontrar-te-ei acompanhado na cama e nessa nudez inválida, quase de certeza, o que não seria de todo embaraçoso. Ou me fazia convidada para um café, apresentando-me gentilmente, ou me despedia sorridente, ou partia-te a casa toda, companhia incluída. Se calhar, fazia as três coisas, não necessariamente por esta ordem. E continuaria a não te querer para nada.

Na próxima sessão de terapia, falarei  sobre os bichos da madeira que corroem o soalho da tua casa velha, que subiam a parede e me percorriam durante a noite, mordendo-me, e fazendo-se notar mais na minha pele do que as tuas mãos geladas.  Que só aqueciam pela manhã quando acordavas teso e te friccionavas violenta e cadentemente, como se à beira de descobrires o fogo na idade da pedra. E eu, na outra ponta da cama, a apreciar-te a eficiência extrema, num rancor resignado, a fumar o décimo cigarro. Afaste-se de quem não presta, menina. Mais dois comprimidos e um uísque puro, e só daqui a três semanas me volto a lembrar dos café au lait com que me obsequiavas ao longo da noite por não me conseguires foder.

 

(Uma Amor Atrevido)

Beatriz

por Vieira do Mar, em 08.06.15

Que relação atribulada, a nossa. Desde o dia em que forçou a saída da minha barriga, com tal determinação que a cabeça parecia um míssil, a moleirinha em bico a provocar o pânico nos homens da família, ai senhor doutor que a miúda veio mal formada!, que eu soube que isto não ia ser fácil. Nada de arco-íris nem de frémitos religiosos, nada de um amor esmagador nos segundos depois de parir, nenhuma força telúrica mística e arrebatadora. Só estupefação, um atordoamento como se atropelada por um comboio e a esmagadora responsabilidade de a ter por minha conta, ai se a deixo cair! (e deixaria de facto, duas vezes, mas tivemos sorte). Cresceu em mim na directa proporção da curva expansiva do seu percentil, mas devagarinho: o amor a começar a percorrer-me as veias como o soro que se injecta aos acamados por um cateter, a pingar devagarinho, a circular, até chegar por fim a todo o lado.

Um feitio tramado desde as fraldas, e eu, que também não sou nenhuma santa: duas fêmeas competitivas num festim umbilical que desbunda em ressacas emocionais demolidoras, feitas de fel e de perdão. Cresceu num mundinho de privilégio que de repente deixou de ter, numa altura em que já tinha idade para saber o que era bom, o que a fez dura e calada e, a mim, ansiosa e culpada, numa relação desigual. Aproveita-se da minha culpa, a raiva sempre em modo de direcção assistida, porque estou mais à mão. E eu, vitimizo-me e arremesso-lhe com os sacrifícios que tenho feito para a criar sozinha e que os rapazes, ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho. Ela olha para o lado e assobia, num desdém de facadas.

Foi sempre assim, mesmo quando era incondicionalmente feliz. Se a vestia de flores, virava gótica; se eu cantava nas festas, guardava para si a voz de anjo com que foi abençoada; e nunca dançava, envergonhada com o meu espalhafato bailarino e desbocado, impróprio de mãe. Escolhe deliberadamente não exibir dons e qualidades que me fariam orgulhar dela. É púdica e conservadora, distribui juízos valor como um velho, e eu com vontade de lhe abrir a cabeça e enfiar lá dentro as coisas que já vi e que me amaciaram as convicções, mas já vai aceitando melhor o mundo, estão em vias de fazer as pazes, o que é bom.

O seu amor pelos fracos e pela bicharada é um misto de abnegação e maluqueira: pede-me chinchilas e esquilos, texugos e martas, obriga-me a assinar todas as petições para salvar as baleias; mas verdade se diga que isso vem um bocadinho de mim. Somos tão iguais que o seu pior argumento quando asneira é, fiz isto, porque sou igual a ti. E, logo a seguir, tão diferentes.

É raro acreditarmos de imediato uma na outra, temos de nos digerir por uns dias até realizarmos qual de nós estava certa. Não o admitimos: mostramo-lo através de pequenas gentilezas que nos fazemos. Às vezes, ficamos fãs incondicionais uma da outra, até àquele ponto que logo chega, de cansaço e dissonância, quando a lua muda ou uma porta bate. Ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho.

A nossa relação é de uma complexidade labiríntica digna do mais delirante dos arquitectos. São salões palacianos de concórdia, minados por túneis onde assobiam, nas paredes húmidas e escuras, mágoas antigas, uterinas, ferradas nas nossas memórias. Somos figadais, e pressentimos à distância os males da outra. Nem sempre nos acudimos de imediato; ela, porque tem mais que fazer do alto dos seus vinte e um anos e há minudências que se sobrepõem aos dramas recorrentes; eu, porque não a quero afastar um milímetro que seja, com o peso das minhas insegurança e fraqueza.

Ninguém se intromete entre nós, não se atrevem. Muito menos os dois mais novos. Deixam-nos à solta nas nossas batalhas e tratados de paz, como se fossem coisas de mulheres, e não de mãe e filha, ou de mãe e irmã. Não nos entendem, não percebem a raiva nem o choro, a baba e o ranho por dá cá aquela palha, os abraços apertados, tudo vai melhorar, querida…, os silêncios e os gritos, ou a alegria mútua com os trapos, o desenho e a filosofia. Quando somos uma, somos insondáveis para eles. Uma estranha unidade que os mantém à distância, cautelosos e desconfiados.

Dava-lhe de bom grado a minha vida, para fazer o que quisesse, como faz com a dela: servir às mesas, estudar literatura, distribuir panfletos, ir para a apanha da fruta, desenhar animais estranhos só com um olho, fechar-se no quarto dias a fio a ver televisão, percorrer a Croácia de mochila às costas, sem um resquício aparente de saudade. Desde pequena que me afronta, como uma pequena guerreira a conquistar território, numa teimosia soberana que só quebrava à palmada, as quais ainda hoje me atira de volta, doendo-me mais a mim, agora, do que a ela, na altura. Resisto estoicamente à vontade de ser a sua maior amiga, de lhe saber os segredos. Já vou muito para lá de mãe. Falamos de homens, mas quase sempre para ela concluir que não prestam, e eu a dizer-lhe que nem todos, que muitos prestam, numa espécie de fé invertida, ou paradoxo: fervilha nela uma inocência descrente.

Eu estou neste mundo para que nada lhe aconteça de mal. Mas já aconteceu, e eu não o pude evitar. Para a próxima não deixo. Ah!, os rapazes, que não me dão metade do trabalho.

Beatriz.jpg

 (Maria Capaz)

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