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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

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#‎linhaValencaPorto

por Vieira do Mar, em 08.02.14

Vinha no Alfa-Pendular de Braga a caminho de Lisboa, com um amigo, após um fim de semana de bacantes por entre as vinhas verdes de Ponte de Lima. Os lugares eram frente a frente, com uma mesa lascada de permeio; sentámo-nos em um dos lados. Entraste mais tarde, no Porto, com uma mala de adulto, demasiado limpa e conservada para a tua idade de miúdo de doze anos e, com um aprumo sério, arrumaste-a com sentido milimétrico. Sentaste-te em frente a nós com um olhar triste de engolir o mundo. Estavas de farda, a do Colégio Militar, e não tiraste sequer o boné. A menos de um metro de nós, sentimos na pele, de imediato condoída, o teu esforço para não rebentares em lágrimas. Tresandavas a nostalgia.

Pegaste no telemóvel e falaste com a tua mãe. Primeiro, tentaste dissuadi-la com argumentos lógicos, depois, em desespero, imploraste. Que não querias voltar para o Colégio, que não gostavas de lá andar. Ouvias mais do que falavas, sim mãe, mas mãe, ouve-me mãe, por favor mãe. Desligaste (ou a tua mãe desligou) e ficaste a olhar pela janela numa impotência muda, sem veres as estações por onde passávamos, as casas escuras de azulejo, os quintais assimétricos, as metalomecânicas, as pilhas de pneus velhos, os eucaliptos que secavam a paisagem, as sombras do que passava tão depressa que não dava para ver o que era. Vias mais além, olhavas para o que te esperaria à saída de Santa Apolónia.

Não aguentei e, a transbordar de dó por todos os meus poros de muito mãe, mãe chata, preocupada, intrometida, meti conversa contigo. Em voz baixa e no tom educado de um homem de setenta anos que já tenha visto tudo, contaste-me que vinhas de um fim de semana no Porto, onde moravam o teu pai e os teus meios irmãos, os quais vias muito poucas vezes. Tinhas-te divertido. Piscina, comer fora, futebol, toda a espécie de brincadeiras, porque a família do pai era muito divertida. Disseste-o exactamente assim: "a família do pai". O que não querias? Voltar para o Colégio Militar, onde a tua mãe, a conselho do avô, te tinha enfiado (termo meu, tu nunca dirias "enfiado"). Foste evasivo quando te perguntei porquê, só que não gostavas, era muito duro e nunca vias a família.

Em Coimbra, entrou um grupo de miúdos um pouco mais velhos que tu, a falar alto, de mochilas às costas, com pacotes de cheetos, batatas fritas e coca-colas, num reboliço sonoro de alegria e inconsequência. Sentaram-se mesmo atras de nós (de ti) e podíamos ouvir-lhes as conversas tolas, as gargalhadas, o engelhar das saquetas vazias atiradas uns aos outros, o calão e as alcunhas pelas quais se tratavam, naquela intimidade desabrida que une os adolescentes. Ficaste ainda mais triste, e nós percebemos que nunca tiveras nada disso. Talvez um relance, como no fim de semana que acabara, e mesmo assim.

Novo telefonema para a tua mãe. Quase meia hora de mais tentativas de dissuasão, contidas pela irredutibilidade do lado de lá do telemóvel. A voz tremia-te. Quando desligaste, resolvi mentir-te. Com jeitinho. Tentei convencer-te das benesses de uma instituição que sempre detestei (pelo facto de a minha rua estar a espaços pejada de olhos tristes de uniforme, morando eu ao lado, e por outras coisas que eu cá sei). Disse-te para veres as coisas de outro modo: que era um privilégio poderes ter uma tão boa educação. Que agora custava, mas que os louros não tardariam a chegar-te, pois, quando homem, serias mais culto, mais resistente às adversidades, mais apto a vencer na vida. Que estares um bocadinho afastado da família era o preço a pagar para seres um ser humano educado, de sucesso e respeitado por todos. Estivemos nisto muito tempo, e tu repetias, eu sei eu sei, mas nada te secava o bolor que se te colara na alma.

O dia, que começara solarengo, ia ficando cada vez mais escuro. O meu amigo, mais expansivo e emocional do que eu, chegados ao destino, agarrou-te nas mãos, inclinou-se e disse-te ao ouvido: "Tu és Grande, João, nunca te esqueças disso, ouviste? Tu és Grande". Acenaste a cabeça sem convicção.

Já na plataforma, uma última tentativa de falares, com a mãe ou o pai, não sei. Ninguém te atendeu. Tinhas a mala impecável na mão firme e eu ofereci-te boleia no meu táxi, afinal, íamos para o mesmo sítio. Declinaste e agradeceste, como foste ensinado a fazer, mas eu insisti. Acedeste, talvez porque te estava a oferecer uns minutos extra distraído do teu inferno pessoal. No entanto, viémos calados durante a viagem, o todo negro a apoderar-se de ti, a cada quilómetro que passava.

Deixei-te à porta do colégio, sorri, relembrei-te aquilo que te tinha dito, as mentiras nas quais não acreditava, apertei-te com um beijo antes que tivesses tido tempo de fugir. Tu agradeceste muito, muito, com o desespero então enfiado no rosto e viraste-me as costas demasiado direitas. Nunca mais te vi, embora durante algum tempo te tenha procurado nos olhos tristes de uniforme que, a dias certos da semana, deambulam na minha rua.

Quando cheguei a casa deixei-me finalmente chorar as entranhas, retorcidas de pena. Chorei o equivalente ao tempo que durou a minha viagem contigo, Porto-Lisboa, no Alfa-Pendular. Não te esqueças, João, tu és Grande. Ouviste?

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