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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

nunca mais

por Vieira do Mar, em 28.11.10

Ultimamente tenho pensado muito na violência doméstica. Feliz durante anos num casamento relativamente pacífico, que acabou só por causa do fim do amor, a questão sempre me foi estranha, e não foi por lidar com dezenas de casos em tribunal, todos diferentes, que compreendi melhor as nuances dos filmes tenebrosos que se me depararam. Vi muitas mulheres feitas num oito caírem nos braços dos agressores e desistirem das queixas (quando tal ainda era possível), negando tudo o que haviam jurado, contrariando resultados de exames periciais, sujeitando-se a multas por falsas declarações. Vi mulheres desfiguradas a pedirem perdão pelos maridos, a dizerem que a culpa foi delas que os haviam provocado, que eles tinham "mau vinho". Vi mulheres que desculpavam os maridos por violarem as filhas chamando-as de mentirosas: vi de tudo. Percebo a vergonha, o desabono social e o estado de negação que levavam muitas a dar o dito pelo não dito. Sei obviamente o que diz a lei, que é apertada quanto aos requesitos deste crime, mas também sei que, em não havendo coabitação nem relações de submissão entre vítima e agressor, por assim dizer, os factos podem sempre caber noutros lados: ameaças, ofensas corporais, coacção, injúrias, difamação... é só escolher.  Mas depois existem umas zonas cinzentas  que são fodidas e que parece não encaixarem em lado nenhum. Em que, por exemplo, há uma relação que só esporadicamente é de cama e mesa. Uma relação em que o abuso é perpetrado à distância e não entre quatro paredes, mas do qual não se pode igualmente fugir.  E que reside precisamente no facto de se tornar público, e quanto mais público, melhor. E em que a vítima, por mais que racionalmente saiba que não pode ceder, o faz. Voltando para uma casa que não é sua, uma e outra vez, cedendo à manipulação, à pena, à chantagem e contribuindo assim para manter uma ficção que a contraparte quer forçosamente fazer valer como verdadeira.  É claro que, neste aspecto, a culpa é em parte da vítima que não tem coragem para cuspir a verdade na cara do agressor, e que até se sente confortável com os momentos de carinho, com  as juras de amor, com as promessas de protecção compulsiva, como os primeiros cappos cobravam protecção aos comerciantes das vielas de nova iorque, que suspiravam de alívio quando aqueles viravam as costas porque ao menos continuavam vivos. Só que a coisa complica-se quando a vítima deixa de o ser. Ou seja, quando passa temporariamente ao ataque, aproveitando uma fraqueza momentânea do agressor, como por exemplo uma dependência (nem que seja dela, da própria vítima). E então passamos às agressões mútuas, às chantagens em ricochete, às manipulações com volta, ao inferno em dobro. As mulheres não gostam de apanhar, como certos idiotas gostam de afirmar (e nós mesmas o dizemos, mas num sentido retórico que os homens não entendem), mas aguentam. E aguentam muito: pelos filhos, pelo status, pelos bons tempos, para poderem dormir à noite, para não ficarem sozinhas, sei lá. Quase nenhuma aguenta porque gosta: isso é mentira, muitas ficam pelo medo. Mas nem todas são passivas; e as que não o são, dão e levam. São vítimas e carrascos. E neste tipo de relações cria-se uma dinâmica doentia da qual é difícil sair. Porque dá um certo gozo quando não se tem mais nada. É a adrenalina dos desocupados, dos desempregados, de quem não têm vida própria ou dos que a têm coxa, deficiente. Ou dos que, apenas, insitem em repetir um padrão como modo de vida.  E quebrar este selo esquizofrénico que se estabelece entre duas pessoas que vivem de ficções sucessivas e que se digladiam por elas, não é fácil. O primeiro passo de um para o final é sempre encarado pelo outro como um segundo passo para o recrudescimento da contenda, não há qualquer espécie de entendimento intelectual nem compreensão afectiva, porque um não acredita pura e simplesmente no outro. Todos os sinais são mal interpretados e suscitam reacções inadequadas e excessivas.  Na prática, há sempre um mais excessivo, que supostamente  ama mais, que quer mais, que quer tudo, que fode mais o juizo do outro, pelo que não existe nunca nem equilíbrio nem paz, apesar de a relação (?) tender a prolongar-se no tempo à custa de intrincados laços de mágoa, ódio e episódios esporádicos de carinho e arrependimento. Infelizmente, os sentimentos negativos podem unir duas pessoas tanto ou mais do que o amor puro. As pessoas são complicadas, têm vidas fodidas, muitas tiveram infâncias difíceis, outras perderam tudo, foram defraudadas, traídas, desintegradas pela indiferença alheia.  Mas nada justifica que exista uma linha ténue que separe o amor do ódio. Eu, pelo menos, não acredito nisso. Ou é uma coisa e quer-se bem ao outro, e queremos que ele seja feliz mesmo que não o tenha sido connosco, ou o odiamos (porque fomos traídos, preteridos ou porque pura e simplesmente não sabemos fazer outra coisa).  O ódio, poderoso,  acaba sempre por vir ao de cima e manifestar-se nas suas múltiplas e maquiavélicas formas, obliterando o amor. Nestes casos em que se é simultaneamente vítima e carrasco,  a  culpa por vezes morre solteira. Não nos que referi supra, obviamente.  Mas, em todos eles - e  como depois concluem todas as mulheres que se conseguiram libertar do jugo alheio, as que sobreviveram, as que fugiram a relações doentias,  as que se conseguiram manter sãs no charco da loucura, a resposta encontram-na numa simples frase que dão consigo a repetir, como um mantra fundamental, um grito libertador, uma homenagem ao estoicismo: NUNCA MAIS.

and a partridge in a pear tree

por Vieira do Mar, em 19.11.10

Hoje passei pelo colombo e parei para admirar a parafernália natalícia que eles sempre montam na praça central. O pinheiro gigante, as casinhas do pai natal com os duendes, as renas, etc. Fiquei absolutamente chocada quando espreitei para dentro de uma das casinhas. Em vez das coroas de azevinho por cima da lareira, das meias penduradas e do cadeirão do pai natal, prateleiras e prateleiras cheias de artigos dos patrocinadores : garrafas de óleo fula e de azeite oliveira da serra. Por todo lado da "instalação" viam-se os logos dos produtos. Aquilo meteu-me nojo, não sei bem porquê. Eu, que sempre fui pelos simbolos pagãos do natal, que sempre alinhei pelo consumismo desenfreado, pelas luzes dos chineses, pelas pilhas de presentes aos pés da árvore gigante e excessivamente enfeitada, tive uma espécie de epifania quando vi os miúdos a serem guiados por gnomos escanzelados pela casa do pai natal para apreciarem prateleiras de óleo fula. E concluí que este tipo de festa, assim, como nós a vivemos, não faz sentido nenhum. Cada vez presta menos e os miúdos estão a crescer neste espírito, com a nossa benção. E isto não tem nada a ver com aquela vexata questio sobre o que é ou não o verdadeiro espírito do natal, como se os católicos quisessem açambarcar só para eles a magia, digamos assim, da quadra. Não interessa se o menino jesus ganha ao pai natal, ambos podem ser imensamente vazios de significado, tanto um como o outro. Porque o problema está aí: na importância que se dá aos símbolos, ao exterior, ao vazio, ao colorido das luzes, ao nada. Daí à comercialização indecente desses mesmos símbolos e ao esvaziamento total da substância da quadra e dos valores da família e da solidariedade, vai um passinho. Se pensarmos bem, a história pagã é parva e, nestas encenações dos centros comerciais, os miúdos mostram desconforto ao colo do suposto pai natal, gozam com os ridículos duendes com os seus barretes de sinos e com as renas que mais parecem animais embalsamados com problemas de motorização. Além disso, a maior parte das decorações são pirosas, excessivas e inutilmente despesistas. No entanto, e por paradoxal que pareça, o natal para mim é mais importante do que nunca. Ainda não comprei presentes, caguei nos presentes, nem sei se vou comprar, para os miúdos haverá seguramente racionamento, mas para eles é na boa, não são exigentes. Quero é tê-los comigo - ou com o pai, mas sabendo que estão felizes, embora um bocadinho divididos, é inevitável -, quero ter o meu pai e a minha mãe e a minha prima-quase-irmã, e as tias e a avó de noventa e muitos anos e cozinhar para todos eles um festim divinal. E estarmos todos juntos, mesmo os que nos faltam, à volta de uma lareira verdadeira. Somos uma famíia dividida e disfuncional como quase todas, por isso é sempre uma reunião forte, dolorosa e alegre ao mesmo tempo, dura pelos que não estão, conflituosa e pacificadora. Que no fim nos deixa exaustos, preenchidos, aliviados. Mas é por isso mesmo que, ao contrário do que dizia o outro, não é natal todos os dias e muito menos quando um homem quiser - e amen for that.

color clash

por Vieira do Mar, em 16.11.10

opening hours

por Vieira do Mar, em 07.11.10

 

Falas-me de amor platónico mas perguntas-me a que horas abrem as minhas pernas. E eu respondo-te que sou como aquele barbeiro de província que tinha um papel sebento no vidro a dizer que abria a horas indeterminadas. Ah! e ser feliz: pois, também me falas disso. Cada umas das criaturas nesta esplanada envelhece ao segundo, mais um vestígio de rugas, uma vontade de desistir. O tempo passa por todos menos por nós mas é preciso que nos fitemos para além do que aparentamos, furar a pele. Entretanto olhamos a alforreca que dispersa as tainhas, translúcida como os teus olhos, e achamos que ainda ontem estávamos por aqui, iguais, as minhas pernas platónicas, o teu andar gingão. O nosso passado está presente em nós porque é o nosso presente: temos direito a pouco mais, há muito que o comboio saiu da estação, embora na verdade às vezes ainda me pergunte se já chegou ao destino. Sei lá quanto de ti não se imagina a tentacular-me enquanto molho o pão no molho. Quanto de ti é resistir a não fazer ou não fazer por não quereres fazer, apenas. Decifro-te em mim e o que dizes é como meu, deve ser das encruzilhadas da idade: ambos sem rumo, somos aquela alforreca que foi parar ao lodo e que agora não sabe como sair do cais, presa no meio das tainhas, que são muitas e vorazes. Além disso ainda não decidi se isso do platónico é um elogio ou uma ofensa. Mas contradiz sem dúvida o interesse demonstrado no meu horário de abertura.

o facebook está out

por Vieira do Mar, em 03.11.10

O facebook pode tornar-se viciante, em especial para quem o tem no telemóvel. Acho que é por isso que tenho escrito menos, quando acabo de dizer baboseiras por lá, já não me apetece escrever aqui. O mais engraçado é que, apesar dos muitos "amigos" acabo por interagir sempre com a mesma dúzia, dúzia e meia. No fundo, é uma maneira de matar saudades, de sentir-me próxima de amigas que não vejo habitualmente, e pouco mais. Para mim não há cá partilha de informação, contactos profissionais em rede nem nada do género. Nem youtubes tenho paciência para ouvir. Mas por agora estou de volta ao meu meio natural, à minha ferramente favorita: o blogue. Volto já, já. :)

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