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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

a filosofar sobre as sopeiras ou o ipiranga das patroas

por Vieira do Mar, em 25.07.10

Disclaimer: este é um post fascizóide. Portanto, esquerdalhas defensoras do subsídio social, das férias negociadas, do seguro de saúde e do basicamente "aqui quem manda é a minha empregada", sigam.


Por razões que me ultrapassam, juro (tipo mortes e doenças improváveis), tenho tido várias empregadas domésticas nos últimos tempos. E, como mais do que duas já me chegam para teorizar, tenho chegado a várias conclusões, sendo a principal a seguinte: mesmo a mais angelical das moldavas, a mais fofinha das amas-de-leite angolana ou a mais honesta das mães de família portuguesa, é na verdade um demónio, todas uns penates invertidos  que vieram ao mundo para foder o nosso caos natural de patroas, desajudando enquanto, alegadamente, "arrumam". 

E quem esteve algum tempo sem as ter, percebe ainda  melhor o que quero dizer: ao princípio é o pânico: ai!, ai!, ai!, e agora o que é que eu vou fazer?. Ele são as pilhas de roupa que se acumulam pelos cestos, os pêlos de gato em tufos  pela casa, as camas por fazer quando chega a noite, a loiça que se acumula porque nem há tempo de a enfiar na máquina e de repente já é o dia seguinte. São as teias de aranha, o pó e as casquinhas que oxidam. Mas, aos poucos, lá nos vamos organizando, distribuindo algumas tarefas por terceiros  (poucas, que as crianças continuam a achar que um grupo de duendes lhes arruma os quartos durante a noitem enquanto dormem). Aprendemos expressões populares e giras como "fazer máquinas de roupa", que partilhamos triunfantes com os que nos são próximos, que nos ouvem, horrorizados: "Olha, ontem fiz quatro, QUATRO!, máquinas de roupa!". Também é natural que, por alguns tempos, toda a roupa  ganhe o mesmo tom acinzentado, dito de burro quando foge, porque nos é desconhecido aquela coisa básica de "não misturar cores diferentes": a bem dizer uma patroa não nasce ensinada. Entretanto, lá aparece uma empresa que nos carrega a dita roupa depois de lavada dali para fora e no-la entrega já passada; as camas vão sendo feitas à má-fila, o pó é esquecido e as pratas também e, desde que apareça comida na mesa, está tudo bem e a vida segue. Até que um dia concluímos que, por mais que nos esforcemos, a  casa não tem maneira de se compôr, de brilhar, de ficar bonitinha como dantes. Apercebemo-nos disso quando damos por nós a desculparmo-nos perante as visitas e a enfiar boxers sujos para debaixo do armário com o pé. Enquanto isso, as plantas morrem de sede, não há quem dobre a roupa interior, a aranha no canto já gerou descendência e às tantas não sabemos se a casa é nossa, se dela e das filhinhas dela. Os recantos mais obscuros da cozinha acumulam porcaria - como os fundos da dispensa e das gavetas, onde  nunca chegamos. Instala-se o pânico das baratas e de outros rastejantes, daqueles que sobem pelos canos. E começa mais uma vez o calvário das entrevistas ao sopeiral.

São sempre todas recomendadas por amigas e tias, do melhor não há, conhecidas da Svedlana, "que está há dez anos em nossa casa". Estranhamente, as entrevistadas querem logo saber das férias, dos subsídios, dos descontos para a segurança social e do horário de trabalho, e todas elas são limitações, embora nos exijam este mundo e o outro. Oito euros por hora ou setecentos euros de ordenado fixo, logo à cabeça. Nunca perguntam se há crianças em casa, que idades têm, como se chamam cagando e andando. Uma ficou logo ali quando lhe disse que, periodicamente, tinhamos um cão. Grande. E ela: "é que se ainda fosse pequeno... tenho horror a cães!". Portanto, a estatura do cão (dócil, estamos a falar de um labrador), impediu-a de aceitar o emprego. Talvez tivesse preferido um pincher daqueles que vão logo às canelas. Ou apenas não queria trabalhar (o mais provável). O que nos leva directamente para a próxima questão (e aqui entramos na tese propriamente dita):


 a) as sopeiras são todas umas esquisitas. O que é bom para nós nunca é suficientemente bom para elas. Só comem pão assim e assado,  ou integral, ou saloio, ou de sementes, ou alentejano ou o caralhinho, e nós de carcacinha com manteiga, todas contentes. A carne, só do lombo porque os dentes, ai os meus dentes são muito sensíveis e o senhor doutor disse-lhes que só podiam comer da tenrinha. Então mandamo-las ao talho comprar frango para fazer com esparguete, e elas vêm com o saquinho de bifinhos do lombo para jantarem em casa. E a fruta, só da melhor: mangazinha e papaia, das madurinhas, porque a minha Rute só gosta de fruta muito doce, e o ananáz tem de ser abacaxi que ela tem tendência a fazer aftas, diz-me uma enquanto eu rôo uma maçãzita (pronto, é bravo-esmolfe, é verdade, mas não chega aos pés de uma manga madurinha). 
E os restos? Não conheço sopeira que coma restos de refeições anteriores. Já tive várias a quem dizia, expressamente: "oh dona xis, para o almoço tem aí o resto do empadão que fiz para o jantar, está guardado no frigorífico; também sobrou salada". Qual quê. Caso calhasse vir a casa à hora de almoço, lá estavam elas a alambazar-se com queijinhos frescos e tostinhas e ovinhos mexidos e manguinhas e o empadão à espera, para o comermos nós ao jantar. Também não bebem qualquer coisinha: água, só mineral ou purificada, que a da torneira pesa no estômago e sumos, só de laranja e naturais, porque os outros é só corantes e açucar. E isto porque:

 b) todas as sopeiras estão sempre doentes. Não sei se já repararam, mas não existe uma empregada doméstica que venda saúde e que chegue energética e a fazer jogging para o trabalho. Têm sempre milhões de achaques: ou de coração, ou pernas inchadas, ou tendinites, ou são fracas de estomago (daí só poderem comer iguarias, e não empadões requentados), ou são as cruzes e não podem estar muito tempo em pé, ou têm tensão baixa ou tensão alta. Isto não seria dramático se as casas não tivessem esquinas e se a gente, patroas, não tívessemos de nos cruzar com elas de quando em vez. Porque quando somos apanhadas elas já não nos largam e estamos feitas. Normalmente, têm ou já tiveram todas as doenças catalogadas pela OMS - elas e as respectivas ninhadas; e, enquanto  vão contando os meses que estiveram internadas e os procedimentos previsivelmente carérrimos a que estiveram sujeitas para ficarem boas,  depois de cem tacs e  duzentos exames acabados em ias, daqueles que a gente só ouve falar  no house, cospem sem dó nem piedade no sistema nacional de saúde. Que um dia uma enfermeira passou por elas e nem lhes disse bom dia, que outro dia o médico nem olhou para elas no corredor, o ordinário. E depois vão sempre a muitas juntas médicas e estão sempre muito de baixa. Mas, para elas, é sempre "uma vergonha, senhora doutora! uma vergonha! ai o que eu sofri, que estava a ver que me ficava ali naquela cama de hospital!".
E não são só as doenças, ná. Quando coincidimos com elas numa qualquer divisão da casa (valha-nos deus!), temos de correr, correr muito!,  senão somos fulminadas com a conversa sobre "qual o melhor detergente para mosaicos" ou "a minha filha teve notas muito boas na escola e ganhou uma bolsa de estudo" (e nós lixadas porque os nossos tiveram suficiente, as putas), ou ainda o clássico: "o meu irmão que está emigrado vive numa cidade alemã muito linda e lá  têm regalias de saúde a sério, não é como cá" (esta versão é em especial para as sopeiras tugas da bata, de preferência as que já  foram operadas três vezes ao coração sem pagarem um tusto e que ganham de vários lados sem nunca terem feito um único desconto).
Quando finalmente nos libertamos das suas garras queixosas, e elas vão trabalhar qualquer coisa, e aí é pior a emenda do que o soneto. porque:

c) as sopeiras querem sempre transformar os nossos apartamentos à imagem e semelhança das  suas casinhas na pontinha ou em rio de mouro - e fazem-no quando nós não estamos a olhar. Por exemplo, a obsessão pelas molas de roupa: elas usam molas de roupa para tudo, não apenas para pendurar a roupa propriamente dita. Gostam do objecto, pronto. Fecham os saquinhos todos com aquilo "pra não entrar ar" e deixam-nas espalhadas pela cozinha, não vão ser precisas a qualquer momento. Depois lavam e guardam os boiões dos iogurtes, onde metem terra e algodão para nascerem sementinhas não sei de quê, porque têm a mania que são jardineiras. E de seguida vão-me para o terraço escavar ceninhas e trocar as plantas de vasos, e transplantar as ervinhas dos boiões para os vasos maiores, e cortam-me rosas  para fazerm arranjos que metem em jarras no meio da sala.  Além de prenderem cordas de roupa com nós impossíveis, com que me  atravessam o terraço de lado a lado, e onde balançam meias e cuecas -  que o estendal que lá pus, escondidinho atrás de umas treliças, nunca lhes chega. A minha presente  empregada, por exemplo, fodeu-me o ambiente lounge: neste momento, tenho aquilo transformado numa mini-marquise da rinchoa, que até cactos tem (cactos!), o que só ontem descobri. Estou com uma fúria destrutiva digna de um transformer, um dos maus.

 

Mas elas ganham sempre: agora, por exemplo,  vou comer o resto das almôndegas de ontem e fazer as camas de lavado, que a  gaja não vem há dois dias, parece que está com uma merda de varizes, e já me telefonou  a contar que o doutor lá do centro de saúde não sei quê, agora só para a semana, senhora dout...,  mas entretanto fiquei sem bateria e parti-lhe a merda dos boiõezinhos todos.


 

mimos

por Vieira do Mar, em 02.07.10

                                                     © sofia vieira

 

Mas eis que chega o mimo. Ah... o mimo. Os diminutivos sussurrados, as blandícias, os gestos escondidos, as palavras inventadas porque nenhuma chega para definir na perfeição os trilhos que a alma segue e as encruzilhadas onde se esgota. Os afagos pelos cotovelos, o amor que respinga e que ambos apanham em concha com as mãos, os dedos dos pés em flor. Ela, que o agarra por trás tentando abarcar-lhe a cintura quando se deitam e moendo-lhe as costas de beijos, traçando-lhe mapas húmidos na pele e às cegas, enquanto o sono hesita. O ambos se permitirem o ressono do outro, ele que não a manda calar quando a sinusite dela assobia na noite, e ela, que ligeiramente o abana no contratempo de um rouco profundo, apneico e aflitivo. Trocam-se juras enquanto se dorme, promessas esquecidas no dia seguinte, mas que nem por isso perdem a validade do primeiro dia, do primeiro olhar, das primeiras mãos: suadas e nervosas a desbravarem caminho no corredor de um quarto de hotel, numa cidade estranha. Ele, que às tantas  ataca o frigorífico e que a ataca na cozinha, e que não sabe o que comer primeiro, e ela, que o arrasta quando as luzes cuscas da rua se acendem, a maionese aberta na bancada, a coca-cola a perder o gás, e pelo caminho até ao quarto um trilho de roupa interior onde a gata se enrosca e adormece, indiferente ao bulício carnal e ao perigo iminente do desmembramento do estrado esquerdo da cama king size, comprovando-se assim que o material sueco nem sempre é de primeira qualidade.

cacos

por Vieira do Mar, em 02.07.10

  © sofia vieira

 

E de vez em quando o reverso, o drama, a destruição, a ventania. Os braços abertos que a deixam fugir, que a empurram para os confins da estrada, e ela a esparramar-se no asfalto, à mercê de qualquer coisa, de quem quer que seja, azaramboada, morta se o arrependimento matasse. Ele a rainha do drama, a fúria do gigante, a insensatez, o desvario, o fim tantas vezes anunciado, o abrigo precário, o sopro do coração. Ele, os cacos que ela apanha do chão e que varre com parcimónia doméstica, o chão que desinfecta com lexívia; os sacos de plástico com os despojos de guerra dos quais ele se desfaz a horas mortas, para que os vizinhos não saibam que o mundo acabou, ponto final, parágrafo. Entre ambos, um silêncio que mortifica, deambulante, uma desconfiança hostil e a certeza de que tudo é nunca, que o que foi já não volta, maldito o dia em que te conheci, esquece-me, odeio-te, morre. A posição fetal e quieta na cama que não mais se desengonça nem descabela, a escuridão onde o mar não entra, o queixume silencioso, a dor rouca, o fado vadio, as malas aviadas à porta, a saída intempestiva que ela ensaia e ameaça, que coreografa vezes sem conta, só para ver se ele a impede. E ele, que umas vezes lhe barra o caminho e que outras, nem por isso.

cordas

por Vieira do Mar, em 02.07.10

© sofia vieira

 

E depois tem a maneira como ele a abraça, nunca vira nada assim. Vira de ver, mesmo. De como os ombros dele se encurvam, contemplando-a toda, primeiro com uma aparência devoradora, como uma piton escancarando as mandíbulas e preparando-se para a deglutir inteira, anestesiando-a primeiro, hipnotizando-a, açambarcando-lhe a pele, crescendo perante ela, tapando-lhe o sol. Há uma falta de ar que se insinua nela, como se pressentisse o fim e nada mais valesse a pena, respirar para quê?, mas depressa cede ao calor daqueles braços que crescem e descem sobre ela, redondos, um cordame que se enrola e aperta, o tronco dele a acompanhar o movimento, a ajeitar-se de lado, descaindo um pouco por forma a fechar sobre ela o círculo, comprimindo-a com uma suavidade determinada de ressuscitar corações. Ele é alto, e por mais que se ajeite e se entorte e a circunde, ela esparrama-lhe sempre a cara no peito, expirando tanto receio como alívio, escondendo o nariz entupido de emoção naquele torso largo, que carrega lá dentro um compasso cardíaco acelerado, o compasso de quem quer guardar o outro para sempre dentro de si, carregá-lo em modo marsupial, levá-lo ao médico, às compras e para a cama, porque senão morre. Depois ele embala-a, como se faz a um bebé, numa cadência fina que transmite a certeza de ainda ali estar no dia seguinte, de pé embrulhado nela, porque não, os cavalos nem sempre se abatem, e ela não sabe se aquilo é amor ou se ele um corta-vento, só sabe que adormece e tudo o que ele podia fazer dela, se quisesse.

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