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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

temos um Presidente da República

por Vieira do Mar, em 30.09.09

que é uma vergonha.

às vezes

por Vieira do Mar, em 30.09.09

acho que a única maneira de reparares em mim é eu contar-te estórias pela noite fora.

ferida rasgada

por Vieira do Mar, em 30.09.09

Era o único homem que a fazia chorar. Tudo nele a comovia, a desconcertava, a mobilizava para o afecto exagerado, a paixão assolapada, o beco sem saída. Havia ali qualquer coisa que não a largava e que a exasperava, como uma criança birrenta que insistisse em ir no sentido contrário. Levava-a ao nó na garganta, às vezes mesmo às lágrimas, com apenas meia dúzia de sílabas, tal o desespero que ela continuava a sentir no seu discurso aparentemente articulado. Não era de todo o homem que mais amara, aliás, não sabia se o amara, sequer, mas algo nele a emocionava e lhe doía, como uma ferida rasgada, uma aflição na noite, embora não conseguisse identificar exactamente o quê: se o desencanto, que ele insistia em alimentar de uma esperança irracional; se o carinho que derramava sobre ela quando estavam em sintonia; se a loucura que vadiava por ele e que abafava desajeitadamente, convicto de que  só a normalidade lhe permitiria a decência perante os seus pares.

momento pantene

por Vieira do Mar, em 29.09.09

E depois havia aquela coisa do cabelo dele, de lhe poder mexer, do prazer que lhe dava revolvê-lo e fazê-lo seu, às vezes puxá-lo até, como lhe puxavam o dela quando de quatro e de costas. Uma das coisas que sempre detestara nos antigos namorados era quando resolviam rapar o cabelo curto, quando iam à máquina zero, ou um ou dois, e se sentiam mais machos por isso, qualquer coisa de GI Joes, nunca percebera muito bem. Não gostava dos crâneos alvos, das orelhas salientes nem das curvaturas daquelas nucas masculinas sem segredos para contar. Mas ele tinha cabelo, um cabelo escuro e fino onde dava gozo enfiar as mãos e cofiar por uma eternidade, enquanto ela por baixo. Era então que aproveitava e  espraiava os dedos, escorregando-lhos pela franja que lhe caía para a testa, enfiando-os por dentro enquanto ele a fitava no escuro,  os olhos azuis muito colados ao rosto dela, tentando, por um lado descortinar-lhe os planos (que por acaso eram nenhuns), e,  por outro,  que ela o entendesse (o que era inútil). Um ritual importantíssimo para ela, aquilo,  nem ele imaginava o gozo sensorial que lhe dava, nem as ilações absurdas que dali retirava, deitando contas à vida, enquanto alisava, agarrava e cheirava.  Não fazia a mínima ideia se se continuariam a ver ou se tudo acabaria ali, mas o cabelo dele, naquela noite cativo das suas mãos gulosas, foi por momentos  um excelente indicativo.

vão votar, pá

por Vieira do Mar, em 27.09.09

Fui votar e, como sempre, emocionei-me com aquela merda. Estar ali, na sala esconsa de uma escola pública, com três mecos a olharem para mim enquanto dizem alto o meu nome, depois pegar no boletim, esconder-me lá no cantinho, botar a cruzinha onde quero e pensar, epá porra, tenho mesmo alguma coisa a dizer nisto, não me interessa se andam todos a roubar e ao mesmo, tenho mesmo uma palavra a dizer, pelo menos posso escolher quem rouba menos e quem rouba mais. Não compreendo os abstencionistas, juro, nem os que votam em branco ou nulo. Que raio de maneira de desperdiçar estes pouco mais de trinta anos de liberdade, de perfumada liberdade de escolha, parece que carregam às costas a democracia que os outros conseguiram para eles.  Uma falta de respeito, para pessoas como os meus pais ou os meus tios que viram a casa invadida pela pide, os livros vasculhados, a intimidade devassada. E para tantos outros que foram presos, torturados, silenciados à força. Nem preciso de olhar para o nosso passado recente. Olho para as dezenas de regimes ditatoriais que ainda hoje existem no mundo e acho um luxo, viver neste país e poder botar a cruzinha onde me apetece. É um sistema imperfeito, a democracia? É. Os nossos governantes estão claramente aquém das aristocracias gregas, em que só os melhores eram escolhidos? Sem dúvida. Mas abdicar do direito de escolha ou, pelo menos, do direito de podermos dizer quais são aqueles que não queremos de certeza, por muito que estejamos desiludidos com os que acabamos por escolher (porque alguém tem de ser), cheira-me a coisa de preguiçoso ou de pobre e mal-agradecido. Não haverá bons nem muito bons, mas há de certeza uns menos maus. Vão  votar, pá.

A inveja, o patinho feio dos pecados capitais

por Vieira do Mar, em 24.09.09

A inveja é a desgraçadinha-mor de todos os defeitos, quase pior do que possuir-se impulsos homicidas ou sexuais impróprios. Nunca ninguém admite que é invejoso. Se repararem, naqueles questionários aos famosos, quando lhes perguntam qual é o seu maior defeito, nunca ninguém diz sou um grande cretino ou um grande invejoso, não. No máximo, sou muito teimoso/a, e quanto a defeitos estamos conversados. Já o contrário é mais comum, toda a gente se apressa sempre a esclarecer que não é nada, mas mesmo nada, invejosa, e que só quer o bem-estar e o progresso do seu semelhante. Ora, todos sabemos que isto é uma grande mentira porque todos somos, em maior ou menor medida, invejosos. Eu, por exemplo, invejo basicamente uma coisa: os que viajam. Se a minha melhor amiga me disser que vai durante um mês fazer uma viagem de descoberta espiritual ao Tibete, eu respondo-lhe, com um sorriso amarelo, Ai sim?, que bom para ti!, mas lá no fundo desejo-lhe que no dia da partida haja uma greve total dos controladores aéreos. Total e permanente, já agora. Isto de ter os pés pregados quase 365 dias por ano ao solo pátrio é uma cruz demasiado pesada para se carregar, pelo menos para mim. É claro que depois passa e acabo por me despedir dela cheia de bons sentimentos (ou pelo menos, de sentimentos médios, vá lá). O problema da inveja é que é um pecado capital prolixo em nuancezinhas; não é por exemplo, como a gula. Neste caso, a gente quer comer para além da conta porque somos alarves, ponto (por acaso, também sofro deste defeito, mas isso é outra história). Ou como quem diz que sofre  de luxúria: no mínimo, ainda se torna mais atraente aos nossos olhos e faz-nos querer ficar com o seu número de telemóvel. Na inveja, a sua qualidade,  intenção e  força estão directamente relacionadas com a posição social e com o nível cultural do invejoso. Uma funcionária pública de segunda categoria, por exemplo, que ganha pouco mais do que o salário mínimo e vive num T2 na Rinchoa, pode invejar de morte as botas Fly (colecção Outono-Inverno) da sua "chefe"; já esta, uma solitária divorciada, pode invejar o rame rame familiar infernal  da sua funcionária, em especial aquele marido que, apesar da barriguinha proeminente, parece fazer-lhe todas as vontades e a trata por querida. Um historiador pode invejar um livro raríssimo e antigo, escrito numa língua morta que não interessa a 99% da população, que um mecenas novo-rico adquiriu num leilão;  um condutor da carris, o colega reformado que vive numa quintarola no campo embrenhada no silêncio, uma candidata a famosa, as mamas novas de uma outra candidata a famosa, e os seus repentinos quilos a menos; uma mulher sem filhos, os afectos vibrantes da mulher com um bebé sentada ao seu lado num banco de jardim; uma mãe assoberbada, o silêncio e a paz que rodeiam a mulher solteira que lê um best seller sentada na relva. A questão é: até que ponto invejamos o outro? ao ponto de querermos para nós aquilo que ele tem e de sermos capazes de o prejudicar por isso? Ou a inveja da maior parte das pessoas não passa de uma inveja de deixa andar, uma inveja de encolher os ombros e siga a vida? Assim é (sim: sou optimista e boazinha como a Floribela). Felizmente, a maior parte das vezes que invejamos alguém, fazemo-lo a prazo, só durante um bocadinho é que quereríamos aquilo que a outra pessoa tem; na verdade, não trocaríamos de lugar com ela nem lhe roubaríamos o que cobiçamos com a alma subitamente faiscante de raiva. Eu, mesmo podendo, nunca iria um mês para o Tibete porque não aguentaria estar tanto tempo separada dos meus filhos. Só se não tivesse filhos, e isso deixar-me-ia seguramente mais infeliz do que nunca ter saído do bairro onde nasci em 41 anos de vida. A influência da inveja na nossa vida é tão menor quanto maior for a nossa satisfação com aquilo que, efectivamente, temos - e que não precisamos de cobiçar. Em contrapartida, é um sentimento tanto maior e corrosivo quanto mais as nossas vidas forem amargas e rançosas. Agora, que invejar  faz parte da natureza humana, não me lixem que faz.  Ao contrário dos outros animais (ditos irracionais), o conhecimento que temos do passado, do  presente e a possibilidade de prognose do futuro, contribuem para que nunca estejamos satisfeitos e almejemos sempre a  mais, sendo que o mais muitas vezes está na  posse do vizinho do lado, o que é uma chatice, convenhamos. Normalmente passa. Mas  motiva-nos para, por nós, conseguirmos ter o mesmo,  ou ainda  mais e melhor do que o mais do vizinho. Enquanto motor para a realização pessoal do invejoso, a inveja inconsequente e momentânea para com o invejado até  pode ser uma coisa boa. Dito isto,  vou agora ali matar a minha vizinha e roubar-lhe o Mercedes 190 SL de 1960 que acabou de guardar na garagem, a puta. E, de caminho, mato também todos os bloggers que escrevem melhor do que eu e que já publicaram livros. No mínimo, rogo-lhes uma pragazinha egípcia, pronto.

uma intenção de nudez

por Vieira do Mar, em 23.09.09

Havia uma intenção de nudez entre eles. Enquanto falavam, por exemplo. Ou o  modo como ela entrelaçava as pernas quando se ria; e as mãos dele, que ou agarravam o copo para o levar à boca sem de facto beber, ou se perdiam errantes pela mesa; depois,  os ombros dela, atirados para a frente, num desafio mudo como se de faca na liga. Havia uma intenção de nudez. Que pairava no ar como o aroma adocicado de um puro ou uma névoa próxima e súbita. Tóxica.  Que fazia com que ele a olhasse em câmara lenta, que a apreciasse devagar em toda a extensão dos seus gestos, o anel largo que lhe escorregava no dedo, o rimel ligeiramente esborratado na pálpebra esquerda, o guardanapo que lhe resguardava a boca enquanto engolia a custo, o paladar aleijado pela vontade de outra pele.  A  dele. Uma intenção de nudez. Perceptível para todos, até para o empregado que evitava aproximar-se da mesa para levantar os pratos, pressentindo o despudor íntimo nos gestos retidos, na fraqueza dos olhares, nos garfos que, timidamente e sem nunca se tocarem, partilhavam um petit gateaux que não lhes sabia a nada, apenas ao travo amargo da vida uma vez mais protelada.  

isto é uma maravilha

por Vieira do Mar, em 23.09.09

Estate, Roberta Gambarini

chanel number five

por Vieira do Mar, em 22.09.09

agora não te queixes

                        foi contigo que aprendi a não fazer cerimónia com estranhos.

campanha eleitoral (i)

por Vieira do Mar, em 22.09.09

O candidato Nuno da Câmara Pereira, palhaço-mor da política nacional, diz  algures num mercado que o preço do peixe está "enorme".

 

Agora o Santana Lopes equilibra a bóia abdominal numa bicicleta...

 

(por estas e outras é que deixei de ver telejornais, ai...).

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