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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

escrevo com erros

por Vieira do Mar, em 15.03.09

Escrevo com erros, embora saiba as palavras (sim: escrevo com erros). O meu problema não é tanto a ignorância (embora também): é que geralmente vomito-as, às palavras, sem rascunhos ou corretores. Sou especialmente distraída com as homófonas, dando-lhes sem querer outro sentido e incorrendo por vezes em erros de sintaxe. Felizmente, tenho um pequeno grupo de gente atenta (todos homens, o que se compreende: as mulheres têm mais que fazer), que se apressa a avisar-me a cada nova calinada. E eu agradeço-lhes (sinceramente e sem qualquer ironia) o cuidado em não me deixarem fazer má figura por mais tempo do que o estritamente necessário para desiludir alguns leitores e leitoras  (até então)  dedicados.

a barrinha do cliente seguinte

por Vieira do Mar, em 15.03.09

A famosa frase de Sartre o inferno são os outros, adquire acuidade especial quando sou obrigada a conviver com o povo ao fim-de-semana. Felizmente, sou uma privilegiada que se pode refugiar intra muros da marabunta contentinha que aos sábados e domingos invade os espaços públicos, mas hoje, uma data de prateleiras vazias e uns pares de olhos lacrimosos e esfomeados obrigaram-me a uma incursão tipo raid aéreo (lamentavelmente, sem a parte do napalm) a um hipermercado, essa feira das vaidades populares. Fui sozinha - na verdade, o resto da família é composto por uma data de cobardes que mereciam morrer à fome. Enquanto encho o carrinho e ziguezagueio pelos corredores, a coisa vai; com algum cuidado, evito ser decapitada por um miúdo-filho-do-demo que manobra uma vassoura na minha direcção, e ficar com dois cotos no lugar dos pés, ao fintar o irmão gémeo dele, que investe um carrinho contra os meus calcanhares. O problema é quando vou para a fila, pagar. É impressionante como tanta gente neste país desconhece em absoluto a ideia de espaço contentor. A família que aterra atrás de mim, fá-lo sempre mais em cima do que propriamente atrás, no afã de marcar o lugar. É uma coisa muito portuguesinha, esta, a de não querer ficar para trás,  nã nã,  porque a mim ninguém me engana, tá bem tá, era bom era, à minha frente, isso querias tu... A questão parece ser a de ter o mais rapidamente  possível acesso ao seu bocadinho de tapete rolante, o que pode originar alguns equívocos sociais, pelo menos no meu solitário e isolado entender. Ainda mal comecei a distribuir as coisas pelo tapete e já tenho uma criatura a respirar-me para a nuca e a apressar-se a amontoar os esparguetes, os iogurtes e os bollycaos na nesga de passadeira que sobra, enquanto a respectiva prole rodopia perigosamente à minha volta no estreito corredor. Não é normal, sinceramente. E não sei o que é pior: se aquelas  que atiram os víveres para cima dos nossos, se as que ainda mal começámos a tarefa da distribuição e já nos atropelam e mergulham de cabeça no colo da empregada de caixa à procura daquela barrinha que diz "cliente seguinte". Há muita gente maluquinha que não passa sem a barrinha do cliente seguinte. E que depois,  ao pô-la a separar as suas coisinhas, empurram subtilmente as nossas para arranjarem mais espaço para as delas. Uma coisa triste de se ver. O momento em que pagamos também é interessante. Sempre na ânsia de não serem comidos por parvos, e apesar de  terem passeado por entre as prateleiras dos enlatados com a calma contemplativa de um filósofo grego, são atacados por uma súbita pressa de irem para lado nenhum. Como estamos a falar de portugueses (povo que manifesta geralmente o desagrado de forma medrosa e indirecta), a maneira como mostram que estão fartos de esperar que a  desgraçada que têm à frente tenha de (sozinha) enfiar as coisas nos sacos, tirar a carteira da mala, abri-la, sacar o cartão multibanco, marcar o código, esperar, receber o talão e os vales, voltar a guardar tudo e zarpar dali para fora a empurrar vinte sacos de compras,  é irem-se colando. A cada uma destas operações, o português (ou a portuguesa, que a parvoeira mesquinha neste caso não tem género) vai se chegando sempre um bocadinho mais à frente como quem não quer a coisa. A de hoje lembrou-me o meu cão quando o obrigo a ficar à porta: a pensar que me engana, vai entrando devagarinho e a rastejar até ao  corredor. Aliás, deve haver por aí muita gente que sabe melhor o meu o código secreto do que eu própria (tenho sempre de confirmar  no telemóvel), de tanto que se encostam e espreitam quando o marco. Entretanto, enquanto a mãezinha me cusca o pin e formula juízos de valor acerca da minha marca de pensos higiénicos, já o Fábio Filipe me foi às canelas e se pendurou no meu carrinho mil vezes. Saio dali com uma falta de ar que nem vos conto, a sonhar com campos de trigo e com o mundo livre da humanidade, arrasada por uma catástrofe natural, como por exemplo um surto de raiva (isto foi de um filme que vi ontem). Os portugueses são um lugar estranho.

countdown to love

por Vieira do Mar, em 15.03.09

 

(post dedicado)

gran torino

por Vieira do Mar, em 13.03.09

Um murro no estômago (ainda estou com falta de ar).

ai coitadinha

por Vieira do Mar, em 13.03.09

da filha do pinto da costa...

it is true however that I do have a tickle in my anus

por Vieira do Mar, em 11.03.09

 

Descoberto n´As Ruínas Circulares.

giro mal o silêncio

por Vieira do Mar, em 09.03.09

Giro mal o silêncio. Temo sempre que o que me ocorra por força das circunstâncias ou da vontade de alguém, se transforme em surdez definitiva e depois seja tarde. Giro mal o silêncio porque nele se encerram desagradáveis possibilidades: um desespero mudo, a frivolidade de uns lábios cerrados, a mera indiferença ou até a efectiva falta de tempo para se chegar à fala com alguma substância. Mas há mais, há muitas hipóteses para o silêncio. Por exemplo, o facto de se tornar um contraponto necessário aos momentos muitos intensos, onde tudo ficou dito e feito e o que vier a mais, estraga. Isto eu entendo: falar o quê? Dizer o quê? Apenas calar, guardar e, em havendo tempo e gosto, reviver o que se viveu, fragmentando gestos, espaços e odores na solidão da memória. Não vale a pena falar sobre o que se partilhou, a não ser que não tenha sido partilhado. Mas, mesmo assim, giro mal o silêncio. Tendo para atentar nas coisas mesquinhas, nos pequenos sinais e em especial na falta deles. Sou pela cortesia diária, a repetida e banal, mas que canta nas entrelinhas. Sou pelas pontes súbitas de palavras, pela escapadinha verbal, pelo lembrete amoroso, a qualquer hora do dia ou da noite. É claro que há o problema da justa medida, e é verdade que esta difere de coração para coração; quão ténue é por vezes a linha entre o que diariamente nos beija a atenção e o assédio sentimental (e, porque não?, o tédio). Há um risco enorme na introdução da normalidade numa relação que é tudo menos normal: esperar-se o que é esperável,  preverem-se as reacções, cumprirem-se as expectativas… e de repente já não apetece, gastou-se a magia do não saber como vai ser. E, no entanto, que sensação reconfortante (quente como um abraço) a da resposta pronta que chega, a certeza de que se é correspondido na vontade das pontes que cantam nas entrelinhas, a angústia que se esvai à leitura da primeira frase, à percepção da palavra que atraca como um barco no cais do nosso sossego, até que enfim. Ah, tramada, a  justa medida: a de alcançar e de retrair, a de permitir e de negar, a de dar com uma mão e tirar com a outra, a de manter o interesse, mantendo-se simultaneamente interessado. Um pau de dois bicos. Giro mal o silêncio porque me incomoda e frustra, e faz com que acabe por perder eu o interesse pois,  como quase toda a gente, invisto nas coisas que me fazem bem e não o contrário. A cacofonia do amor é música para os meus ouvidos, além de que sou curiosa e quero sempre mais - e o silêncio tem ínsita uma ignorância flibusteira que me exaspera (há algo de aldrabice no não se saber apenas porque nada nos é dito). Giro mal o silêncio porque, mais tarde ou mais cedo, este traz consigo a definitiva ausência de som e, de repente, nem o chilrear dos pássaros, nem o arrulho das ondas, nem o embalo da poesia quando dobro a finisterra da noite.

só para ouvir o Medina Carreira

por Vieira do Mar, em 09.03.09

até gramo com a ameba do Mário Crespo.

dia da mulher

por Vieira do Mar, em 08.03.09

"But if the man can dance he gets a second chance..."

 

 

(alesha dixon, uma prenda para os meus homens em particular e para os leitores deste blogue em geral)

a minha melhor amiga

por Vieira do Mar, em 06.03.09

Hoje esbarrei com a minha maior amiga de infância num centro comercial. De infância, não: hoje esbarrei com a minha melhor amiga, ponto. Não nos víamos há quase cinco anos, logo a seguir ao casamento dela e de eu não ter podido ser madrinha do seu primeiro filho por não ser baptizada. A minha melhor amiga foi o meu primeiro amor, pela qual eu nutria sentimentos de posse e de paixão como os dos amantes. Embirrava quase sempre com os namorados dela, embora ela quase nunca com os meus. Anos depois, e agora em retrospectiva, penso que foi isso  que me afastou: nunca gostei do marido dela nem da domesticidade partilhada de ambos. Achava que tinha mau gosto para homens, mas pronto, admito que tivesse apenas um gosto diferente do meu. Sempre preferi machos alfa de calças de ganga e sem medo de se sujarem,  que se estivessem a cagar para a cor das cortinas e que não soubessem fazer uma reducção, mas que agarrassem em mim e me levassem à garupa pela route 66 ao som de uma rockalhada, alimentando-me de poeira,  guaxinins nos espeto e apple pies em estações de serviço sebosas;  ela, por sua vez,  escolhia os sensíveis da música clássica com dilemas interiores, os picuinhas cheios de manias que nunca levantam a voz, reparam nos quadros tortos,  têm estômagos sensíveis e prezam muito a sua colecção de cedês.  Homens cujo lado feminino me irrita para além do que é objectivável, confesso. Mas o que interessa é que as noites que passávamos abraçadas na sua cama de corpo e meio a fintarmos o gelo e a humidade que se desprendiam das paredes da sua casa em Campolide; e os dias que gastei naquele quarto a ouvir o master blaster e o no woman no cry,  enquanto cuscava  à janela o vizinho do lado com pinta de cigano - o meu outro primeiro amor - e ela servia de nossa intermediária, numa abnegação paciente que contrastava com o meu egoísmo possessivo, ficaram para trás, memórias de felicidade reféns das escolhas que fizemos, caminhos que se separam, temos pena, siga a vida. E de repente ei-la à minha frente, igual, uma ou duas rugas a mais, apenas. Empatámos o corredor do piso zero com beijos e abraços chorosos, como foi possível, tanto tempo sem nos vermos, o que aconteceu?, as duas atrasadíssimas, os miúdos na rua à espera e nós a tentarmos encaixar os últimos cinco anos da vida de cada uma algures ali entre as bancadas da Clarins e da  Chanel.  Uma a começar as frases e a outra a acabá-las, sim, sim, sei como é. E foi como se não existissem, os últimos cinco, vinte anos, a intimidade outra vez ali à mão de semear, não há nada que não te dissesse. E eu disse: sabes, pode acontecer-nos exactamente o contrário daquilo que se passa connosco agora e, no entanto, desbocarmos igualmente numa intimidade rara que nos prende para sempre, mesmo na ausência. Por exemplo, pessoas que aterraram por um acaso na nossa vida adulta e nós sem percebermos como podem não ter feito parte dela durante tanto tempo. No fundo, como se sempre aqui tivessem estado, percebes?

 

(eu sei que percebes)

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