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Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

Controversa Maresia

um blogue de Sofia Vieira

...

por Vieira do Mar, em 29.11.07
she seemed so glad to see me



I just smiled.

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por Vieira do Mar, em 29.11.07
she seemed so glad to see me



I just smiled.

...

por Vieira do Mar, em 28.11.07
Vem aí a festa de Natal do mais novo,

o que arrasta inevitavelmente uma insuportável choradeira que faz mal ao coração e me tira anos de vida. É que não aguento, não sei. Na última a que fui, de fim de ano, o miúdo puxa da flauta a meio do coro, saca meia dúzia de notas com um evidente esforço interpretativo e eu tive que parar de filmar, pois os soluços eram tantos e tão audíveis que tremiam a imagem e abafavam a música. Não sei o que me dá quando vejo as minhas criancinhas nestas pueris exibições de talento; só sei que o auto controlo desaparece e eu fico para ali desamparada, a esconder o ranho e com um riso imbecil agrafado à cara, não vão eles pensar que eu estou é triste e desapontada, sei lá. É que, vamos lá a ver, o miúdo não é propriamente um Mozart ou um Michael Jackson em formato albino. Mas, só de o ver ali no coro, juro, com a vozinha sumida entre outras trinta vozes iguais, forma-se-me um nó na garganta, os olhos picam e as lágrimas escorrem, imensas e despropositadas. Escusado será dizer que morro de vergonha e que as minhas tentativas de disfarçar a emoção são ainda mais ridículas do que a choradeira em si, pois abro imenso os olhos para evitar as lágrimas, como se estivesse aterrorizada com o som de alguma nota mais pífia, e falo muito e alto, para mostrar que a minha agitação mais não é do que alegria. Imagino que os outros pais, pessoas geralmente de reacções normais e adequadas, à vista deste patético descontrolo, quiçá de origem hereditária, não me convidarão o miúdo para as festas de aniversário, receosos de que este desabe num pranto se se acabarem os croquetes na mesa.

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por Vieira do Mar, em 28.11.07
o forward da nicinha


Tolhida entre o ensino do português num liceu problemático, as reuniões do condomínio e a selecção dos bifes da pá, Teresa chegava a casa e, imediatamente antes de Pedro entrar pela porta, sublimava o seu tédio de mulher demasiado casada em textos sobre amores que não vivera. Num bloguezinho intimista, forrado a ais e a uis, comprazia-se anonimamente na descrição de emoções universais que por todos distribuía, generosa - e que a todos cabiam que nem uma luva. Aos poucos, textos seus começaram a ser citados, reproduzidos e enxertados aqui e ali; e chegaram até ao Brasil, copiados em páginas brilhantes e animadas com fadas, duendes e espíritos pagãos. A propósito de Brasil: nicinha era brasileira. Percorria o corredor entre a recepção e o WC dos funcionários com trejeitos sambistas e sotaque de rica de novela, embora fosse na verdade do nordeste, lá para os lados do Piauí, mais virada para o forró e o enrolar arrastado das consoantes. No escritório, todos os homens queriam a nicinha, com aquele seu riso tímido de personagem boa que sempre vence no final, e uma bunda - essa sim, carnavalesca! - que todos imaginavam forrada a plumas, paetês e purpurinas. Mas nicinha, desde que ali chegara, só tinha olhos para Pedro. Ah, o Pedro. Português sóbrio com ar de compromisso, como só o português sabe ter, aquele charme quase europeu de homem sério, e que vivos rumores diziam ser controlado por uma mulher gárgula, assustadora e possessiva. Mesmo assim, a nicinha resolveu seduzir o Pedro, afinal, ainda está para nascer português que resista ao cerco cerrado de brasileira, para mais uma de ciclópica bunda e olhos pequenos de carneiro mal-morto, genuinamente apaixonada e compenetrada da sua paixão. De dentro do balcão da entrada, por cima do tampo quase ao nível dos seus olhinhos de índia, nicinha vigiava Pedro, trespassando os vidros entre eles, e conhecia-lhe de cor os modos. Sabia que, quando começava a tremer a perna esquerda, estava a ficar precisado de ir lá fora fumar; que, quando agarrava o cabelo com a mão e o repuxava para trás num gesto rendido, era com a mulher gárgula que estava a falar e que, quando esfregava os olhos lá pelas onze, era hora de ela lhe levar o nespresso, antecipando-se-lhe. Começou por mails inofensivos, algumas piadas brejeiras mas sem descambar, e uns pensamentos em power point sobre a inevitabilidade do amor, com Vinícius em fundo e umas frases do Paulo Coelho. Ele chamava-a para agradecer, polido, ou acenava brevemente a cabeça do outro canto do open space, e então o coração de nicinha esvoaçava e batia, desnorteado, contra o tampo de madeira falsa que a rodeava e prendia. Pedro, de olho na promoção, mantinha a distância, a competência e o respeito, e fitava-lhe os olhinhos pequenos com condescendência quase paternalista, como se ela uma adolescente enfatuada e um pouco iludida. Na verdade, sonhava acordado com aquela bunda emplumada só para ele e o risinho a transbordar de praia e mar. Foram-se tendo assim por uns tempos, à boca da secretária dele, por cima do balcão dela ou quando se cruzavam entre portas. Às tantas, nicinha resolveu subir a parada e atreveu-se a imagens mais explícitas, de conteúdo muito gráfico, reproduzindo-se em posições inusitadas e chamando os bois pelos nomes. Pedro dizia que sim, que talvez, que não, que era casado e amava a mulher. Nicinha tentou de tudo: decotes muito reduzidos, anedotas indecentes, fotos dela em poses sugestivas, agora uma alça do soutiã, depois um mamilo espetado, por fim, a bunda escarrapachada na lente. Mas Pedro, apesar dos ligeiros roçagares um pelo outro, continuava a agradecer gentilmente o nespresso, a fumar sozinho na varanda e a repuxar para trás o cabelo ao telemóvel: aflito primeiro, apaziguado depois, a despedir-se da gárgula com um sorriso manso. E nicinha roída, enciumada de uma mulher que não conhecia, invejosa dela e do seu poder amoroso. Resolveu jogar sujo, dar o tudo por tudo e, sabendo-o sensível e letrado, vai de lhe atirar com poesia e prosa poética, com tudo o que de massacrado e de profundo lhe vinha parar às mãos. Um dia recebeu um texto. Um daqueles que vêm em corrente, perdidos na origem e de autor desconhecido, que é de todos e não é de ninguém. Leu aquilo de uma vez e um formigueiro acorreu-lhe aos dedos como se os tivesse fechados há horas; sentiu a alma tão vasculhada por dentro que até chorou. Era exactamente o que sentia por Pedro: um desespero doentio, os ciúmes da legítima que com ele partilhava a cama, os filhos, o corpo e a escova de dentes. Era aquela, a raiva que a invadia a horas mortas quando o sonhar já não chegava e a crueza do dia lhe surgia pelas frestas do estore do apartamento alugado, deixando antever os baldios separados por caniçais. Era aquele, o fogo que a trepava quando adivinhava que outra o acordava com um beijo e lhe escolhia a gravata com que ele lhe chegaria nessa manhã, pronto para mais um namoro discreto entre emails, biombos e vidros, para mais um cafezinho às onze, tirado por antecipação. Resolveu, numa afoiteza súbita, fazer-lhe um forward do texto. Já está, agora, ele vai perceber o que eu sinto, vai dar valor. Entretanto, já em casa, Teresa, roída por idêntico sentimento, resolve vasculhar a privacidade virtual de Pedro. A palavra passe é de certeza qualquer coisa com o nome do cão da família e a sua data de nascimento, ou vice-versa (Pedro é signo Leão, está no centro do mundo e ama com magnanimidade os animais que se lhe submetem e que o adoram, como é o caso). Não tardou a entrar na caixa pessoal daquele e logo o nome no remetente, nicinha, que associou a perfume barato e a colegial atrevida, lhe chamou a atenção. Com avidez nervosa e a nuca suada, carregou para abrir e, numa bonita font arrial narrow, viu o seu texto, aquele que havia escrito cerca de um mês antes num acesso de tragédia e perante o avassalo de um ciúme daninho. Em anexo, uma foto de nicinha, de olhos sumidos e boquinha de broche, com o fio dental enfiado nas carnes da pomposa bunda, equilibrada no parapeito descascado da marquise e recortada na paisagem triste do subúrbio, com a linha de Sintra em fundo. Na mão, um coco de plástico ganho numa promoção de Verão e uma palhinha rosa, por onde nicinha fingia sugar qualquer coisa evidentemente fresca e muito tropical. Teresa pasmou, incrédula. O texto dela, deambulando anónimo e reeenviado pela nicinha tropical de plástico para o seu Pedro! Aquilo que ela, Teresa, não fora capaz de lhe dizer na cara e que por isso despejara no mundo, chegava-lhe a final pelas mãos de alguém que era o motivo e a razão abstracta que a levara a escrevê-lo. Porque, era um facto: entalada entre as aulas, as reuniões e os bifes da pá, e de costas viradas para Pedro quando este chegava a casa, Teresa tinha pavor das nicinhas deste mundo.

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por Vieira do Mar, em 28.11.07
o forward da nicinha


Tolhida entre o ensino do português num liceu problemático, as reuniões do condomínio e a selecção dos bifes da pá, Teresa chegava a casa e, imediatamente antes de Pedro entrar pela porta, sublimava o seu tédio de mulher demasiado casada em textos sobre amores que não vivera. Num bloguezinho intimista, forrado a ais e a uis, comprazia-se anonimamente na descrição de emoções universais que por todos distribuía, generosa - e que a todos cabiam que nem uma luva. Aos poucos, textos seus começaram a ser citados, reproduzidos e enxertados aqui e ali; e chegaram até ao Brasil, copiados em páginas brilhantes e animadas com fadas, duendes e espíritos pagãos. A propósito de Brasil: nicinha era brasileira. Percorria o corredor entre a recepção e o WC dos funcionários com trejeitos sambistas e sotaque de rica de novela, embora fosse na verdade do nordeste, lá para os lados do Piauí, mais virada para o forró e o enrolar arrastado das consoantes. No escritório, todos os homens queriam a nicinha, com aquele seu riso tímido de personagem boa que sempre vence no final, e uma bunda - essa sim, carnavalesca! - que todos imaginavam forrada a plumas, paetês e purpurinas. Mas nicinha, desde que ali chegara, só tinha olhos para Pedro. Ah, o Pedro. Português sóbrio com ar de compromisso, como só o português sabe ter, aquele charme quase europeu de homem sério, e que vivos rumores diziam ser controlado por uma mulher gárgula, assustadora e possessiva. Mesmo assim, a nicinha resolveu seduzir o Pedro, afinal, ainda está para nascer português que resista ao cerco cerrado de brasileira, para mais uma de ciclópica bunda e olhos pequenos de carneiro mal-morto, genuinamente apaixonada e compenetrada da sua paixão. De dentro do balcão da entrada, por cima do tampo quase ao nível dos seus olhinhos de índia, nicinha vigiava Pedro, trespassando os vidros entre eles, e conhecia-lhe de cor os modos. Sabia que, quando começava a tremer a perna esquerda, estava a ficar precisado de ir lá fora fumar; que, quando agarrava o cabelo com a mão e o repuxava para trás num gesto rendido, era com a mulher gárgula que estava a falar e que, quando esfregava os olhos lá pelas onze, era hora de ela lhe levar o nespresso, antecipando-se-lhe. Começou por mails inofensivos, algumas piadas brejeiras mas sem descambar, e uns pensamentos em power point sobre a inevitabilidade do amor, com Vinícius em fundo e umas frases do Paulo Coelho. Ele chamava-a para agradecer, polido, ou acenava brevemente a cabeça do outro canto do open space, e então o coração de nicinha esvoaçava e batia, desnorteado, contra o tampo de madeira falsa que a rodeava e prendia. Pedro, de olho na promoção, mantinha a distância, a competência e o respeito, e fitava-lhe os olhinhos pequenos com condescendência quase paternalista, como se ela uma adolescente enfatuada e um pouco iludida. Na verdade, sonhava acordado com aquela bunda emplumada só para ele e o risinho a transbordar de praia e mar. Foram-se tendo assim por uns tempos, à boca da secretária dele, por cima do balcão dela ou quando se cruzavam entre portas. Às tantas, nicinha resolveu subir a parada e atreveu-se a imagens mais explícitas, de conteúdo muito gráfico, reproduzindo-se em posições inusitadas e chamando os bois pelos nomes. Pedro dizia que sim, que talvez, que não, que era casado e amava a mulher. Nicinha tentou de tudo: decotes muito reduzidos, anedotas indecentes, fotos dela em poses sugestivas, agora uma alça do soutiã, depois um mamilo espetado, por fim, a bunda escarrapachada na lente. Mas Pedro, apesar dos ligeiros roçagares um pelo outro, continuava a agradecer gentilmente o nespresso, a fumar sozinho na varanda e a repuxar para trás o cabelo ao telemóvel: aflito primeiro, apaziguado depois, a despedir-se da gárgula com um sorriso manso. E nicinha roída, enciumada de uma mulher que não conhecia, invejosa dela e do seu poder amoroso. Resolveu jogar sujo, dar o tudo por tudo e, sabendo-o sensível e letrado, vai de lhe atirar com poesia e prosa poética, com tudo o que de massacrado e de profundo lhe vinha parar às mãos. Um dia recebeu um texto. Um daqueles que vêm em corrente, perdidos na origem e de autor desconhecido, que é de todos e não é de ninguém. Leu aquilo de uma vez e um formigueiro acorreu-lhe aos dedos como se os tivesse fechados há horas; sentiu a alma tão vasculhada por dentro que até chorou. Era exactamente o que sentia por Pedro: um desespero doentio, os ciúmes da legítima que com ele partilhava a cama, os filhos, o corpo e a escova de dentes. Era aquela, a raiva que a invadia a horas mortas quando o sonhar já não chegava e a crueza do dia lhe surgia pelas frestas do estore do apartamento alugado, deixando antever os baldios separados por caniçais. Era aquele, o fogo que a trepava quando adivinhava que outra o acordava com um beijo e lhe escolhia a gravata com que ele lhe chegaria nessa manhã, pronto para mais um namoro discreto entre emails, biombos e vidros, para mais um cafezinho às onze, tirado por antecipação. Resolveu, numa afoiteza súbita, fazer-lhe um forward do texto. Já está, agora, ele vai perceber o que eu sinto, vai dar valor. Entretanto, já em casa, Teresa, roída por idêntico sentimento, resolve vasculhar a privacidade virtual de Pedro. A palavra passe é de certeza qualquer coisa com o nome do cão da família e a sua data de nascimento, ou vice-versa (Pedro é signo Leão, está no centro do mundo e ama com magnanimidade os animais que se lhe submetem e que o adoram, como é o caso). Não tardou a entrar na caixa pessoal daquele e logo o nome no remetente, nicinha, que associou a perfume barato e a colegial atrevida, lhe chamou a atenção. Com avidez nervosa e a nuca suada, carregou para abrir e, numa bonita font arrial narrow, viu o seu texto, aquele que havia escrito cerca de um mês antes num acesso de tragédia e perante o avassalo de um ciúme daninho. Em anexo, uma foto de nicinha, de olhos sumidos e boquinha de broche, com o fio dental enfiado nas carnes da pomposa bunda, equilibrada no parapeito descascado da marquise e recortada na paisagem triste do subúrbio, com a linha de Sintra em fundo. Na mão, um coco de plástico ganho numa promoção de Verão e uma palhinha rosa, por onde nicinha fingia sugar qualquer coisa evidentemente fresca e muito tropical. Teresa pasmou, incrédula. O texto dela, deambulando anónimo e reeenviado pela nicinha tropical de plástico para o seu Pedro! Aquilo que ela, Teresa, não fora capaz de lhe dizer na cara e que por isso despejara no mundo, chegava-lhe a final pelas mãos de alguém que era o motivo e a razão abstracta que a levara a escrevê-lo. Porque, era um facto: entalada entre as aulas, as reuniões e os bifes da pá, e de costas viradas para Pedro quando este chegava a casa, Teresa tinha pavor das nicinhas deste mundo.

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por Vieira do Mar, em 27.11.07
pois eu gosto da ASAE

e não concordo, nem com as acusações de excesso de zelo, nem com as vozes de indignação generalizada. Ou há moralidade, ou comem todos. Donde, em havendo moralidade, não deve comer nenhum. A moralidade, neste caso, traduz-se na simples aplicação da lei, independentemente de a quem tal chateia, incomoda ou prejudica (subjectivamente falando, claro). Uma lei que visa proteger-nos, a nós, consumidores (repito: a nós, consumidores). E que deve ser aplicada sem excepções. Eu até entendo esta inquietação, de urbanos asseados que somos, apreciadores da “tradição” e do “típico” de fim-de-semana. Só que a tradição é algo, por definição, muito antigo e assim, referindo-se geralmente a quando as pessoas e as coisas mal se lavavam, a desinfecção era um conceito desconhecido e as salmonelas, uma série de sintomas desagradáveis sem um nome específico. Eu não me importo, e até agradeço, que as bolas de Berlim que, na minha infância, eram passeadas ao sol de Verão dentro de cestos abertos, hoje me sejam entregues com pinças, de dentro um recipiente refrigerado; nem que fechem a ginginha, um sítio bedunguento onde se roçavam os bêbados e os drogados que infestam o Rossio, e que só era very tipical, basicamente, para os incautos turistas, que ali sentiam frémitos com o atrevimento de partilharem os hábitos sujos dos nativos (a propósito, ler este post , com o qual discordo em absoluto); que fechem temporariamente o Galeto porque tem baratas na cozinha ( e que se mantém ainda hoje o melhor e mais útil restaurante de Lisboa); que as castanhas sejam assadas em fornos bonitos de inox e servidas num papel limpinho; que os ciganos engordem um bocadinho menos à conta do desplante e da violação indecente dos direitos de autor de quem faz roupas e filmes; nem que o dono de um restaurante tenha de apresentar facturas de compra e transporte dos bens que adquiriu (com as respectivas datas) e que me pretende servir - a mim -, de forma a que eu saiba que não estou a comer perca do Nilo em vez de cherne. Se, com isso, não puder servir os grelos que plantou no quintal nem fritar os ovos das suas galinhas do campo, azar: este é um mal menor, é o preço a pagar pela lisura das relações entre os agentes económicos. Além de que, se os outros profissonais da restauração servem ovos estrelados e grelos salteados sobre os quais pagaram imposto, porque razão hei-de eu (que pago ao Estado até quando como) contribuir para alimentar uma economia paralela que beneficia apenas alguns? Por isso, não: não me importo, e até prefiro. Gosto da ASAE e, para mais, trabalho diariamente com os seus inspectores: não vejo na sua actividade nenhuma cruzada fundamentalista, mas apenas uma eficiência empenhada que não olha a quem nem faz distinções. Coisa a que este Portugal, meio badalhoco e um bocadinho feudal (e que ainda vê os privilégios de alguns como coisa natural), não está habituado.

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por Vieira do Mar, em 27.11.07
pois eu gosto da ASAE

e não concordo, nem com as acusações de excesso de zelo, nem com as vozes de indignação generalizada. Ou há moralidade, ou comem todos. Donde, em havendo moralidade, não deve comer nenhum. A moralidade, neste caso, traduz-se na simples aplicação da lei, independentemente de a quem tal chateia, incomoda ou prejudica (subjectivamente falando, claro). Uma lei que visa proteger-nos, a nós, consumidores (repito: a nós, consumidores). E que deve ser aplicada sem excepções. Eu até entendo esta inquietação, de urbanos asseados que somos, apreciadores da “tradição” e do “típico” de fim-de-semana. Só que a tradição é algo, por definição, muito antigo e assim, referindo-se geralmente a quando as pessoas e as coisas mal se lavavam, a desinfecção era um conceito desconhecido e as salmonelas, uma série de sintomas desagradáveis sem um nome específico. Eu não me importo, e até agradeço, que as bolas de Berlim que, na minha infância, eram passeadas ao sol de Verão dentro de cestos abertos, hoje me sejam entregues com pinças, de dentro um recipiente refrigerado; nem que fechem a ginginha, um sítio bedunguento onde se roçavam os bêbados e os drogados que infestam o Rossio, e que só era very tipical, basicamente, para os incautos turistas, que ali sentiam frémitos com o atrevimento de partilharem os hábitos sujos dos nativos (a propósito, ler este post , com o qual discordo em absoluto); que fechem temporariamente o Galeto porque tem baratas na cozinha ( e que se mantém ainda hoje o melhor e mais útil restaurante de Lisboa); que as castanhas sejam assadas em fornos bonitos de inox e servidas num papel limpinho; que os ciganos engordem um bocadinho menos à conta do desplante e da violação indecente dos direitos de autor de quem faz roupas e filmes; nem que o dono de um restaurante tenha de apresentar facturas de compra e transporte dos bens que adquiriu (com as respectivas datas) e que me pretende servir - a mim -, de forma a que eu saiba que não estou a comer perca do Nilo em vez de cherne. Se, com isso, não puder servir os grelos que plantou no quintal nem fritar os ovos das suas galinhas do campo, azar: este é um mal menor, é o preço a pagar pela lisura das relações entre os agentes económicos. Além de que, se os outros profissonais da restauração servem ovos estrelados e grelos salteados sobre os quais pagaram imposto, porque razão hei-de eu (que pago ao Estado até quando como) contribuir para alimentar uma economia paralela que beneficia apenas alguns? Por isso, não: não me importo, e até prefiro. Gosto da ASAE e, para mais, trabalho diariamente com os seus inspectores: não vejo na sua actividade nenhuma cruzada fundamentalista, mas apenas uma eficiência empenhada que não olha a quem nem faz distinções. Coisa a que este Portugal, meio badalhoco e um bocadinho feudal (e que ainda vê os privilégios de alguns como coisa natural), não está habituado.

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por Vieira do Mar, em 20.11.07
eu, se tivesse um restaurante,

não quereria empregar um cozinheiro com sida. Se já o tivesse empregado, mas de nada soubesse porque ele o ocultara, quereria despedi-lo imediatamente. Quanto mais não fosse, porque o risco negligenciável que daí resulta em termos de saúde pública, é mau para o negócio. E a perspectiva de quem tem um negócio, por estranho que possa parecer a alguns, passa muito por tentar mantê-lo. Que alguém me explique o que tem isto a ver com discriminação.

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por Vieira do Mar, em 20.11.07
eu, se tivesse um restaurante,

não quereria empregar um cozinheiro com sida. Se já o tivesse empregado, mas de nada soubesse porque ele o ocultara, quereria despedi-lo imediatamente. Quanto mais não fosse, porque o risco negligenciável que daí resulta em termos de saúde pública, é mau para o negócio. E a perspectiva de quem tem um negócio, por estranho que possa parecer a alguns, passa muito por tentar mantê-lo. Que alguém me explique o que tem isto a ver com discriminação.

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por Vieira do Mar, em 15.11.07
adequação e desproporcionalidade


Um gesto lépido, um encolher de ombros, uma frase. A ela, basta-lhe uma frase, em especial se sincera. Não porque o pretenda ser ou faça por isso, mas porque a verdade circula nos meandros que a compõem. Então ela recolhe-se, como se um corpo estranho. Uma frase simples, que traduza a reacção adequada à provocação sem sentido. Que, de tão normal, mediana (gaussiana), a faz sentir-se diferente, avariada, sem remédio. Que lhe cala as palavras dentro ainda antes que se formem: letras avulsas passarão a correr nela como linfa. A loucura e o desgoverno alimentam-se do excesso que criam; a normalidade é autofágica. Ela preferiria que a razão lhe permitisse ser fugaz (a razão, esse conceito que lhe é longe como o recorte de cordilheiras). Ela quereria não ver a vida na progressão geométrica do desespero. Às vezes, acorda e estremunha, mas nem por isso mais lúcida, apenas mais cansada. Só não é uma criatura sombria porque não se leva a sério. Ela precisa de fazer nada, para sustentar o delírio. Esconde o desvario nas palavras que não escreverá e encaixa num recanto de si a frase normal, como se esta lhe fizesse cócegas para sempre.

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